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A música conecta

IMS Ibiza 2026 aponta crescimento de 7% da indústria da música eletrônica, agora tracionado por novas direções

Por Marllon Eduardo Gauche em Análise 24.04.2026

A nova edição do IMS Electronic Music Business Report, apresentada na abertura do IMS Ibiza 2026 esta semana, coloca a música eletrônica em um novo patamar econômico: US$15,1 bilhões em valor global em 2025, com crescimento de 7% sobre o ano anterior. O dado, por si só, já confirma a força comercial do setor. Mas o ponto mais interessante do relatório talvez seja o que ele revela sobre uma possível mudança de eixo da indústria.  

Durante muito tempo, a expansão da música eletrônica foi lida quase sempre a partir de métricas de consumo digital e da consolidação de circuitos tradicionais. O report deste ano sugere outra paisagem. A receita cresce, mas o streaming já não aparece sozinho como principal explicação. Em seu lugar, ganham mais peso as chamadas frentes de economia de fandom — merch, vendas diretas e patrocínios — num momento em que o mercado busca valor em comunidade, identidade e recorrência de engajamento, e não apenas em volume bruto de plays.  

Ibiza oferece talvez o retrato mais claro dessa mudança. Os clubes da ilha chegaram a €160 milhões em receita de ingressos em 2025, mesmo com queda no número médio de eventos por venue. O dado indica um mercado mais concentrado, mais seletivo e mais apoiado em experiências de maior valor agregado. Em outras palavras, parte importante do crescimento não vem necessariamente de mais circulação, mas de uma pista mais cara, mais premium e mais eficiente financeiramente.  

Ao mesmo tempo, o relatório mostra que a expansão geográfica da cena já não pode ser lida apenas pelo eixo Europa-Estados Unidos. Mercados do Sul Global aparecem como força decisiva na nova rodada de crescimento, com a Indonésia registrando uma alta impressionante de 77% nos ouvintes de música eletrônica no Spotify em 2025. Para além de uma curiosidade estatística, isso sinaliza um reposicionamento do mapa de consumo e reforça uma percepção que a cultura de pista já vinha sugerindo: a próxima fase de expansão do setor deve passar menos pelos centros históricos e mais por novos polos de audiência.

No plano estético e produtivo, o report também registra uma cena em mutação. O tech house segue na liderança do Beatport, mas o avanço do afro house nas buscas e o crescimento do hard techno e hard dance em plataformas como o SoundCloud apontam para um ambiente mais fragmentado e mais sensível ao humor de cada tempo. A ascensão de estilos mais rápidos e pesados convive com a valorização de gêneros marcados por identidade regional, enquanto hashtags ligadas à cultura DJ seguem crescendo nas plataformas sociais. Existe, em curso, uma mudança na forma como tendências são criadas, aceleradas e distribuídas.  

Há também uma camada tecnológica que o setor não pode mais ignorar. Segundo o material repercutido a partir do IMS, ferramentas de criação baseadas em IA generativa e stem separation chegaram a US$ 333 milhões em receita, com 63 milhões de usuários ativos por mês. Para uma cultura historicamente moldada por tecnologia, isso não representa uma ruptura completa, mas uma nova etapa no que diz respeito aos processos criativos. O crescimento da música eletrônica, portanto, não parece resumir um mercado simplesmente aquecido. Ele descreve uma indústria maior, sim, mas também mais complexa, mais desigual em seus acessos e mais dependente de quem conseguir transformar audiência em vínculo real.

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