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A música conecta

Como Vinter vem consolidando sua identidade revisitando clássicos de décadas passadas

Por Marllon Eduardo Gauche em Análises 10.06.2026

Nos últimos anos, tem sido cada vez mais comum ver artistas de música eletrônica revisitando referências antigas de forma mais aberta, principalmente sons ligados ao soul, pop, funk, disco e hip-hop. Revirando esse baú, é possível encontrar muita coisa interessante e, com a dose certa de criatividade, trazer fragmentos do passado para as pistas atuais. 

Exemplos recentes incluem See-Line Woman, de Mochakk, que traz um vocal dos anos 60 de Nina Simone, GrooveJet (If This Ain’t Love), faixa dos anos 2000 do DJ italiano Spiller que ganhou um remix por William Kiss, Jordan Brando e Luke Alessi pela Defected, ou então o mais novo single de Vinter lançado na última sexta (29), Money. Na faixa, o produtor transforma o clássico vocal de Got Your Money, do Ol’ Dirty Bastard, em uma track de pista, preservando a familiaridade desse clássico dos anos 90 que atravessou gerações.

Quando a track ficou pronta e Vinter começou a testá-la, a resposta veio rápido. Outros DJs começaram a tocar e muita gente perguntou quando ia lançar; a música então ganhou uma proporção maior do que o esperado e foi aí que ele percebeu que tinha algo especial em mãos. Esse movimento aumentou ainda mais depois que o Cloonee abriu seu set no Music On Festival, em Amsterdã, com a faixa, isso ainda lá em 2024. 

A partir dali, Money começou a ganhar tração e também o interesse da Helix Records — e aqui existe um ponto importante. Mais do que apenas lançar por uma label internacional de peso, esse release marca o fortalecimento de uma relação que deve render novos capítulos nos próximos meses, mostrando que a Helix claramente enxerga potencial de longo prazo no artista.

Ao mesmo tempo, a faixa mostra um amadurecimento importante dentro da trajetória de Vinter. Desde que começou oficialmente o projeto, em 2021, existe uma busca constante por construir uma identidade mais sólida e reconhecível, sem se preocupar tanto com a frequência de lançamentos. É aquela velha história do menos é mais. Existe uma pesquisa muito forte em cima da energia das décadas de 60, 70, 80 e 90, especialmente daquela combinação entre groove e vocais marcantes que atravessam diferentes gerações da música negra americana.

Money ilustra bem isso porque conversa com seus lançamentos anteriores, a exemplo de Space Pump e This Is Not The James Brown. Mesmo vindo de períodos muito diferentes, todos esses sons compartilham uma característica parecida: são diretos, dançantes e muito ligados à construção de identidade através do ritmo. Não são uma tentativa de seguir um caminho específico do mercado, e sim músicas que conversam de forma mais natural com as referências que ele vem pesquisando há algum tempo.

O vocal utilizado continua carregando aquele peso que já funcionava sozinho, mas agora dentro de uma estrutura contemporânea do house muito mais voltada à pista. Existe um fator de familiaridade muito forte por conta desse “sentimento nostálgico”, mas a track não depende apenas disso. A bateria, os sintetizadores, os efeitos e principalmente a linha de baixo ajudam a atualizar a estética sem descaracterizar a essência da original, aproximando referências antigas de uma geração mais nova sem forçar a barra. 

Para um artista nascido em 2001, como é o caso de Vinter, revisitar esse repertório e transformá-lo em algo acessível para a geração atual é como fazer um resgate cultural e apresentar esses sons para quem talvez nunca tenha tido contato com eles antes. Ou seja, Money não é uma track feita para atender uma demanda específica do mercado, ela nasceu justamente da vontade genuína de Vinter em experimentar novas possibilidades dentro da house music revisitando uma parte musical importante de seu passado.

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