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A música conecta

Um novo florescer na cena do Rio de Janeiro

Por Elena Beatriz em Análises 24.07.2026

Explicar a cena eletrônica do Rio de Janeiro exige abandonar a procura por um gênero predominante, uma festa responsável por organizar todo o movimento ou um grupo capaz de representar sozinho a cidade. O Rio não se explica por uma unidade, mas pela convivência entre histórias, públicos e iniciativas que se desenvolveram de maneiras muito diferentes. Festas nativas, artistas locais, projetos de formação, um club dedicado à música eletrônica, grandes produtoras nacionais e atrações internacionais recorrentes formam um conjunto que ganhou maior visibilidade nos últimos anos, sem que suas partes precisassem assumir a mesma identidade.

Para compreender esse momento, é necessário voltar aos anos 90 e início dos anos 2000, período descrito por Deperon, dono do Baiuca, como extremamente fértil para a música eletrônica carioca, que contava com iniciativas como Kitschnet, Doctor Smith, Ghetto, Val Demente, X-Demente, Bunker, Factoria e figuras como José Roberto Mahr, responsável por apresentar diversos discos de música eletrônica alternativa ao público brasileiro e criador do programa de rádio Novas Tendências.

Nos anos 2000, o Dama de Ferro se tornou outra referência da noite local, enquanto a Fosfobox reuniu house, techno, funk, hip-hop, rock, performances e outras expressões artísticas em sua programação. Inaugurada em 2004, a casa permaneceu durante 16 anos em Copacabana, acompanhando diferentes gerações e mudanças na vida noturna carioca. Em 2011, o Festival Novas Frequências abriu outra frente ao aproximar música experimental, arte sonora, apresentações ao vivo e instalações. Eram projetos com públicos e intenções distintas, mas que, cada um à sua maneira, ampliaram o repertório disponível na cidade e as possibilidades de relação com a música eletrônica.

Para uma geração mais nova, essa história chegou por outros caminhos. simo not simon começou a produzir festas em 2018 e encontrou algumas de suas primeiras referências na Festa até 4, na Domply, no Comuna e, posteriormente, no Clube Madre. House, electro, breakbeat e drum and bass apareciam lado a lado, apresentados por coletivos que criavam seus próprios encontros e permitiam que novos frequentadores conhecessem pesquisas diferentes durante uma mesma noite. É também assim que uma cena continua se formando: uma festa desperta a curiosidade de alguém que, algum tempo depois, passa a tocar, produzir ou criar o próprio projeto.

Essa variedade ajuda a explicar por que a identidade eletrônica do Rio é tão difícil de resumir. Para Leo Janeiro, DJ, produtor, curador e agitador cultural presente na cena há décadas, existem várias cenas dentro da própria cena. Uma “bagunça organizada”, como define Bernardo Campos. As duas expressões revelam a facilidade com que referências diferentes convivem no Rio. House, techno, electro, breakbeat, drum and bass, trance, disco e música experimental dividem espaço com a influência permanente do funk, do samba, do pagode, do hip-hop, do rock e da música popular brasileira.

O público que frequenta uma festa de música eletrônica pode ser encontrado no dia seguinte em uma roda de samba ou em um baile, sem que esses interesses pareçam contraditórios. Bernardo encontra uma representação dessa mistura em Fernanda Abreu, cuja obra reuniu funk carioca, Miami bass, hip-hop, pop e MPB. simo not simon menciona DJ Memê, que aproximou o house de artistas populares e mostrou, desde os anos 90, como a produção eletrônica poderia fazer parte da música brasileira sem permanecer restrita a um nicho. A cena carioca não se desenvolveu completamente separada do restante da cultura musical da cidade, e parte de sua personalidade vem dessa proximidade.

Leo Janeiro descreve o Rio como uma pista “superquente”, na qual as pessoas dançam, trocam e acompanham o DJ quando o set consegue captar sua atenção. O público não parece depender apenas daquilo que já conhece ou espera ouvir. Uma faixa brasileira, um remix de funk ou uma mudança menos evidente pode aproximar ainda mais a cabine da pista quando encontra o momento certo. A diversidade deixa de ser apenas uma característica das programações e passa a fazer parte da própria experiência de dançar na cidade.

Há uma disposição para sair, encontrar pessoas e aproveitar a noite sem permanecer fiel a uma única bolha, algo que Bernardo identifica tanto nos DJs quanto no público. Deperon relaciona esse comportamento ao espírito transante do carioca, no sentido de circular, ocupar a cidade e viver seus encontros intensamente. Carol Mattos acrescenta a presença das áreas abertas, da natureza, das construções antigas e dos lugares em que a festa consegue manter alguma relação com o que acontece do lado de fora. Praia, sol, carnaval e vida na rua não determinam uma estética para a música eletrônica local, mas ajudam a formar uma cena em que música, convivência e cidade aparecem como experiências que se complementam.

O cenário atual reúne projetos que respondem a essas características de maneiras bastante distintas. RARA e Domply construíram festas reconhecidas pela curadoria e pela relação desenvolvida com seus públicos, enquanto a KODE consolidou um encontro ligado à cultura queer e a vertentes mais intensas da música eletrônica. A Escola de Mistérios aproximou festas, lançamentos, formação e presença afrodiaspórica. Plexo, Speedtest, Wobble, Tropicals, Subterrânea, Vena Cava e Teia completam um panorama em que diferentes pesquisas, estéticas e comunidades conseguem encontrar seus próprios espaços. A cena não parece sem direção por reunir tantas propostas. Sua direção está, em grande parte, na liberdade que cada uma encontrou para desenvolver uma ideia.

Uma edição da RARA com Kerri Chandler

Ao lado dessa produção independente, o D-EDGE acrescentou ao Rio uma casa com programação frequente voltada à música eletrônica, recebendo artistas locais, atrações nacionais e convidados internacionais. A presença da BOMA trouxe outra proporção aos eventos, principalmente durante o carnaval, quando grandes nomes passaram a aparecer em sequências de festas realizadas na cidade. A RARA também ampliou suas conexões, reunindo artistas de diferentes gerações. As iniciativas não ocupam o mesmo lugar e nem precisam ocupar. A importância está na maneira como diferentes formatos passaram a coexistir e a ampliar a percepção sobre aquilo que acontece no Rio.

Uma festa independente consegue aprofundar uma ideia, revelar artistas e criar proximidade entre público e curadoria. Um club oferece regularidade e permite que diferentes gerações dividam a pista ao longo do ano. Uma grande produção recebe atrações que dependem de outro porte e atrai pessoas de outras cidades e países. Projetos de formação e experimentação ampliam quem participa da cena e quais trabalhos podem ser apresentados. O momento atual ganha peso porque essas funções existem ao mesmo tempo e começam a desenhar, juntas, uma imagem mais completa da música eletrônica carioca.

Ananda, DJ, produtora e criadora da KODE, chama atenção para uma particularidade desse crescimento. Durante o verão e o carnaval, o Rio se tornou um destino importante para a música eletrônica, com festas de diferentes vertentes acontecendo em sequência e recebendo um público expressivo de fora da cidade, embora o movimento diminua nos outros meses. O caminho daqui para a frente passa por fazer com que parte dessa atenção permaneça e se transforme em interesse pelos artistas, festas e projetos cariocas durante todo o ano.

A relevância da cena eletrônica do Rio de Janeiro não vem da construção de uma identidade uniforme, mas da contribuição singular de cada agente que participa dela. São perspectivas, repertórios e formas de criar diferentes que, quando colocadas lado a lado, transformam a dificuldade de defini-la em sua principal força: a capacidade de reunir contrastes fortalecendo aquilo que torna cada parte única.

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