A história da música eletrônica em Buenos Aires é marcada por uma evolução gradual que antecedeu em muito a explosão globalizada do House. Os primeiros sinais datam de 1983, quando DJs começaram a introduzir nas discotecas versões maxi de artistas pop eletrônicos como Duran Duran e Madonna. Embora o House ainda não estivesse presente na Argentina, esses remixes abriram caminho para uma estética mais sintetizada.
No final dos anos 80, especialmente por volta de 1988 e 1989, a capital já absorvia sons de grupos como Depeche Mode, Pet Shop Boys e New Order, além de uma afinidade crescente com vertentes industriais representadas por Nitzer Ebb e Front 242 — influências que mais tarde dialogariam com o techno e suas derivações locais.

Embora o crescimento do House tenha iniciado no país via Inglaterra em 1988/1989, alguns DJs afirmam já tocar faixas de estética proto-house ou dance de Chicago desde meados dos anos 80. Ainda assim, o gênero só foi identificado pela grande massa por volta de 1992, em um club chamado Ag, quando o público passou a reconhecer esse novo idioma musical. A consolidação mais ampla da música eletrônica ocorreu de forma súbita por volta de 1993 e 1994. Fazer um set puramente House nesse período inicial era considerado algo “para muito poucos”, pois representava um idioma musical emergente, associado a uma nova geração.
Nos primeiros clubes, a pureza sonora ainda não era a regra. As discotecas funcionavam como uma “salada” musical que misturava House, pop e outros ritmos em voga. Contudo, alguns DJs já estavam comprometidos com a ideia de um som eletrônico mais puro, antes mesmo dessa consolidação. Espaços dedicados majoritariamente ao house e techno surgiram no início dos anos 90, com lugares onde 100% da música eletrônica era considerada underground.
A geografia pioneira da cena se estrutura em clubes que atuaram como marcos distintos deste movimento. O Palladium é frequentemente lembrado como um dos primeiros espaços massivos onde a música eletrônica ganhou protagonismo, comparável em impacto ao que o Pacha representaria futuramente. No circuito underground, o Flieder M tornou-se um ícone do techno. O Platino inovou ao operar por longas jornadas, sendo lembrado como uma das primeiras discotecas a funcionar 12 horas, da meia-noite ao meio-dia.

O início dos anos 90 também viu o surgimento de espaços com ambições estéticas elevadas, como El Cielo — um clube inspirado nos modelos de Ibiza, com ambientação cuidadosa e soundsystem de alta qualidade. Seu acesso, porém, era restrito e seletivo, reforçando seu caráter elitizado. A noite porteña da metade dos anos 90 muitas vezes seguia um percurso social: sexta-feira no El Cielo e sábado na Pacha.
Enquanto o circuito underground se mantinha em festas conceituais e espaços mais fechados, o volume de público cresceu significativamente ao longo dos anos 90 e segui pelas décadas seguintes. A cultura eletrônica, presente desde o início dos anos 80, criou um base que sustentou a continuidade da cena. Buenos Aires consolidou-se como um lugar considerado hot spot para a música eletrônica, com um público apaixonado, expressivo e enérgico.
Mesmo com clubes que chegaram a reunir regularmente 4.000 pessoas no auge, muitos integrantes da cena valorizam o legado de quem manteve, durante mais de 10 anos, house e techno tocando em clubs pequenos. Essa teia extensa e fragmentada de protagonistas, artistas e público foi a semente para que Buenos Aires se tornasse o que é hoje: uma das cenas mais fortes e autênticas do planeta.