A atmosfera dos clubs e festivais de música eletrônica muitas vezes mascara uma das questões mais complexas e menos discutidas da rotina profissional de DJs, produtores e profissionais da cena: o consumo elevado de álcool e substâncias. Longe de ser um mero clichê sobre os excessos do lifestyle artístico, a dimensão desse comportamento foi mapeada de forma quantitativa em diferentes estudos, como no de Kegelaers e colaboradores (2022), focado especificamente em artistas de música eletrônica — dos quais 89% atuavam como DJs.
A pesquisa revelou índices elevados no setor: 62,6% dos participantes apresentaram indicadores de potencial abuso de álcool (avaliados pelo teste AUDIT-C) e 36,8% registraram índices de potencial abuso de drogas ilícitas (pelo DAST-10). Mais do que a frequência do consumo, outro dado relevante do estudo aponta para a intenção por trás do ato: 55,2% dos artistas admitiram utilizar álcool ou drogas como um mecanismo de enfrentamento diante de sentimentos negativos ou problemas pessoais.
No entanto, ao aprofundar a análise estatística desses números, surge um enigma fundamental sobre a natureza do trabalho na noite. O modelo de correlação revelou que o abuso de álcool e drogas não apresentou uma associação estatística direta com a severidade dos sintomas de depressão e ansiedade, nem com a diminuição dos índices de bem-estar dos artistas. O resultado impede uma explicação simples que trate esse consumo apenas como consequência direta do adoecimento psíquico. Para compreender por que álcool e outras substâncias aparecem com tanta frequência nesse contexto, é preciso observar também as condições sociais e profissionais em que esses artistas trabalham.
A compreensão dessa normalização exige examinar o ambiente físico e social onde a performance ocorre. Investigações sociológicas sobre profissionais da noite ajudam a revelar um contexto de exposição constante ao álcool. Em um estudo qualitativo com 24 profissionais que trabalhavam em pubs e clubs de Glasgow, incluindo DJs, Forsyth e colaboradores (2016) encontraram ambientes marcados por oportunidades contínuas de consumo, frequentemente gratuito. Para os entrevistados, beber durante o trabalho aparecia como algo normalizado, esperado e, em alguns casos, incentivado por colegas, público, empregadores ou patrocinadores. Dessa forma, o álcool deixa de aparecer apenas como uma escolha recreativa externa ao trabalho e passa a fazer parte do próprio ambiente profissional em que esses artistas atuam.
A essa saturação ambiental soma-se a necessidade de sociabilidade e construção de redes de contatos na noite. No estudo de Kegelaers, 90,6% dos participantes reconheceram como aplicável à própria carreira a necessidade de socializar com outros profissionais para continuar conseguindo gigs. Nesse contexto, networking e trabalho frequentemente dividem espaço com ambientes nos quais o álcool está amplamente disponível, aproximando relações profissionais de situações sociais em que beber é comum — às vezes até mesmo incentivado.
Além dos fatores sociais, a rotina física da apresentação ao vivo impõe desafios próprios ao organismo do DJ. No mesmo estudo, 90,1% dos participantes reconheceram como parte desafiadora de sua realidade profissional os longos períodos de espera antes de uma apresentação. A isso se somam horários irregulares, deslocamentos e performances que frequentemente acontecem durante a madrugada. Nesse contexto, o uso de substâncias pode assumir funções que ultrapassam a busca recreativa por euforia, aparecendo também associado às exigências de resistência e da própria performance.
Essa utilização de substâncias para alterar estados físicos e emocionais encontra uma possível chave de interpretação na Hipótese da Automedicação, desenvolvida por Khantzian, e posteriormente discutida na literatura sobre saúde ocupacional de músicos. A hipótese propõe que algumas pessoas podem recorrer a substâncias como forma de lidar com estados emocionais negativos ou desconfortos que não conseguem administrar por outros meios. Aplicada ao contexto dos músicos, essa perspectiva ajuda a investigar o consumo relacionado à ansiedade de performance, dores no corpo ou dificuldades de sono — sem, contudo, estabelecer que esse mecanismo explique sozinho o comportamento dos artistas.
A literatura sobre músicos também aponta para os limites dessa estratégia. O álcool pode ser percebido como uma maneira de reduzir a tensão antes de uma apresentação, mas isso não significa necessariamente uma melhora objetiva da performance ou uma solução para a ansiedade que motivou seu consumo — Jamie Jones já se abriu a respeito do assunto. Além de não resolver suas causas subjacentes, o uso frequente de substâncias pode comprometer capacidades cognitivas, motoras e a qualidade do sono, criando novos problemas dentro de uma rotina que já impõe desafios à recuperação física.
O grande risco desse modelo reside na possível transição do uso funcional e sociável para padrões mais problemáticos de consumo. No estudo de Kegelaers, 28,8% dos artistas apresentaram indicadores de distúrbios do sono. Quando dificuldades de recuperação se combinam a viagens, instabilidade profissional e exposição recorrente a ambientes nos quais álcool e outras substâncias estão disponíveis, aquilo que inicialmente aparece como parte da sociabilidade ou como estratégia de enfrentamento pode assumir um espaço cada vez maior na rotina. O problema se torna ainda mais difícil de identificar quando determinados excessos continuam associados à própria imagem cultural do artista que trabalha na noite.
Superar o tabu do consumo de substâncias na música eletrônica exige, portanto, ampliar a discussão para além da responsabilidade individual do artista e observar também as condições de trabalho do setor. Recomendações recentes de organizações e relatórios dedicados à indústria apontam para a importância de agências, contratantes e festivais na construção de ambientes mais saudáveis. Isso pode envolver desde ações práticas — como oferecer alternativas de nutrição, hidratação e espaços adequados de descanso — até redes de suporte entre pares e acesso facilitado a cuidados especializados de saúde mental. Questionar a ideia de que o excesso químico é uma consequência inevitável da cultura de pista também significa discutir que tipo de ambiente profissional a música eletrônica pretende construir para quem faz dela uma carreira.