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A música conecta

Quão eletrônico é o Carnaval brasileiro?

Por Elena Beatriz em Artigos 10.02.2026

O Carnaval brasileiro se consolidou, ao longo de mais de um século, como uma manifestação profundamente associada a ritmos populares específicos como Samba, Frevo, Maracatu e Axé, que estruturaram não apenas a trilha sonora do período, mas também seus modos de organização coletiva, suas formas de ocupação do espaço urbano e seus sistemas de produção cultural. Dentro desse contexto, a presença da música eletrônica é recente e, durante muito tempo, deslocada. Ainda assim, nas últimas décadas, ela passou a ocupar um espaço próprio dentro do calendário carnavalesco, sem substituir ou disputar diretamente os gêneros tradicionais, mas coexistindo com eles.

Nesse período, existe uma flexibilização e aceitação social para a diversidade, a liberdade, a fantasia e uma relação distinta com o espaço público — elementos que sempre estiveram no centro da cultura clubber. No entanto, a afinidade entre Carnaval e cultura de pista não surge apenas de circunstâncias contemporâneas. A própria origem do Carnaval está ligada à ideia de inversão temporária de papéis e liberação dos impulsos. O termo “Carnaval”, derivado do latim carnis levale, remete a um período liminar situado entre o excesso e a contenção, em que a experiência do corpo e do prazer antecede um tempo de restrição. Desde a Idade Média, a festa se estrutura como um intervalo autorizado em que normas sociais são afrouxadas e comportamentos considerados inadequados ao cotidiano tornam-se aceitáveis, ainda que provisoriamente.

Contudo, esse princípio não nasceu ali. Festas da Antiguidade greco-romana já articulavam fartura, consumo de álcool, dança e práticas corporais intensas como parte de rituais coletivos ligados à passagem do tempo, à purificação e à fertilidade. A Lupercália, celebrada em fevereiro na Roma Antiga, combinava excessos e inversão simbólica de papéis como forma de afastar o caos e renovar o ciclo social. Muitos desses elementos atravessaram séculos e reapareceram, reorganizados, nas festas que mais tarde seriam incorporadas ao calendário cristão.

Quando o cristianismo tentou enquadrar essas celebrações, em vez de eliminá-las, reuniu práticas consideradas desviantes em um curto período anterior à Quaresma, criando um espaço socialmente reconhecido para o extravasamento antes do retorno à disciplina. No fim, o resultado foi a construção de um momento socialmente aceito para a liberdade de expressão corporal,  convivência entre diferenças e o desejo de “virar outra pessoa” por algumas horas — ou de se aproximar de quem cada um realmente é ou gostaria de ser. A presença da música eletrônica encontra ressonância no Carnaval, porque ambos compartilham a ideia de um tempo excepcional, no qual a identidade pode ser experimentada, a diversidade assume a centralidade e a experiência se sobrepõe às exigências ordinárias da vida social. 

A partir dos anos 2000, a música eletrônica começou a aparecer de forma mais consistente no Carnaval brasileiro, inicialmente associada a circuitos paralelos, festas privadas, encontros de menor escala e até mesmo em trios elétricos, a exemplo de quando Daniela Mercury convidou os DJs Mau Mau, Jon Carter e Anderson Noise para participar de suas apresentações. Em um primeiro momento, sua presença se deu de maneira discreta, muitas vezes posicionada como alternativa para públicos que não se reconheciam plenamente nos blocos tradicionais ou nos grandes desfiles. Com o passar do tempo, esse movimento deixou de ser pontual e passou a se estruturar como parte ativa do período, acompanhando o crescimento das cenas de música eletrônica em diversas regiões do país e se tornando uma experiência procurada pelos mais diversos públicos, sejam aqueles já nichados ou até mesmo quem tem curiosidade em conhecer a cultura clubber e se permite naquele momento específico, afinal, é Carnaval. Não é incomum que um mesmo grupo transite entre blocos tradicionais durante o dia e eventos de música eletrônica à noite, construindo um percurso que reflete uma relação menos rígida com categorias musicais. 

Em algumas regiões do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e o Sul do Brasil, esse processo foi impulsionado por uma combinação específica de fatores: densidade populacional elevada, redes consolidadas de artistas e coletivos, infraestrutura urbana disponível e uma relação já estabelecida com a cultura noturna fora do calendário carnavalesco. A música eletrônica se infiltra principalmente por meio de blocos de rua com identidade própria, eventos em grande escala, programações ampliadas de clubs e edições especiais de festas que já acontecem ao longo do ano, aproveitando a flexibilização do uso de espaço público e a circulação ampliada de pessoas promovida pelo turismo, incorporando o Carnaval como um pico sazonal dentro de uma economia noturna que já é sustentada ao longo do ano. Em todos esses casos, o que se observa não é um modelo único, mas adaptações locais que refletem a forma como cada cidade se organiza, compondo um circuito que se intensifica pela excepcionalidade do período.

Paralelamente a esses eventos de maior visibilidade, existe uma imensidão de festas menores que se espalham por diversas cidades do país. Clubs, bares, ocupações temporárias de ruas e espaços híbridos passam a sediar programações de música eletrônica ao longo do feriado. Esses encontros não dependem de grandes estruturas, mas se sustentam a partir de redes locais, colaboração entre artistas e um público disposto a circular entre diferentes propostas no mesmo roteiro.

Do ponto de vista econômico e simbólico, o impacto dessas festas é significativo. Para profissionais como técnicos, artistas, músicos, produtores e coletivos independentes, o Carnaval representa uma oportunidade rara de ampliar o público, gerar renda em curto período e se inserir em circuitos que extrapolam o público habitual da música eletrônica. Muitos projetos encontram nesse momento a chance de testar formatos, consolidar identidades e fortalecer vínculos com outros agentes culturais. 

Esse crescimento, porém, não ocorre sem fricções. A ampliação dessas festas durante o Carnaval esbarra em restrições legais relacionadas à permissões do poder público, licenciamento, horários, uso do espaço público, que variam significativamente de cidade para cidade. Em regiões onde o Carnaval de rua já possui uma organização consolidada e fortemente associada a gêneros tradicionais, a inserção da música eletrônica encontra, muitas vezes, resistência institucional e social. Ela ainda é vista como um corpo estranho ao período, especialmente quando não se conecta com formatos já reconhecidos pela população local. 

A disputa por espaço urbano também se intensifica, uma vez que o Carnaval concentra múltiplos interesses simultâneos — blocos, comércio informal, turismo, moradores e poder público — criando um ambiente no qual novas propostas precisam negociar constantemente sua permanência. Esse cenário revela que, apesar do crescimento visível, a eletrônica ainda ocupa um lugar desigual no mapa carnavalesco brasileiro, dependente de contextos locais favoráveis e de redes culturais previamente estabelecidas.

Resta, portanto, a pergunta sobre a natureza desse crescimento. A presença da música eletrônica no Carnaval aponta para uma mudança estrutural ou permanece restrita a determinadas bolhas culturais? A resposta parece se situar em um ponto intermediário. Não se trata de uma substituição dos modelos tradicionais, tampouco de um fenômeno passageiro. O que se observa é a consolidação de um espaço próprio, complementar e em expansão, que reflete transformações mais amplas nos modos de viver a cidade, circular entre cenas e construir experiências culturais.

O Carnaval brasileiro não ignora mais a música eletrônica. Ela ocupa hoje um lugar reconhecido dentro desse movimento, funcionando como espelho das transformações culturais do país e incorporando novas práticas sem apagar aquelas que lhe deram forma.

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