Carta da Redação

Carta da redação | Quando você conhece o novo

São 4h30 da manhã em uma festa grande qualquer de música eletrônica. Milhares de ingressos foram vendidos e o público na pista espera ansiosamente o headliner que está para começar. É uma festa de House e Techno, mas a energia e a expectativa do público se assemelha mais a de um grande show de pop. De repente, boom, o grande hit daquela dupla começa a ecoar pelo espaço. O painel de led tem uma programação especial para a música mais esperada da noite, fogos de artifício estouram atrás do palco e as pessoas se abraçam na pista. Catarse. De repente, acabou. 

Quando foi exatamente que a busca pelo novo deixou de ser uma prioridade na pista? Não quero ser purista aqui e puxar sardinhas para um tempo de pista que talvez nem mesmo eu tenha vivido, no auge dos meus agora 29 anos, mas é fato que o comportamento do público na música eletrônica mudou e tem mudado de maneira mais agressiva com essa necessidade social crescente dos últimos anos de compartilhar grandes momentos nas redes sociais. 

Tirando entusiastas (e às vezes até mesmo eles), o público vai para pista primeiramente guiado pelo sucesso de produtores musicais em seus lançamentos e não por conta do desejo de conhecer a pesquisa de grandes DJs. Não é de hoje que o que vende ingresso são hits e faixas de sucesso ao invés de linhas de discotecagem específicas. E isso é um problema, pois reflete inclusive na performance dos grandes artistas em turnê por aí. Sem citar nomes, mas até mesmo DJs que são considerados bons seletores, em determinados momentos parecem tocar sets muito parecidos de um lugar para o outro e isso não é um chute, é uma constatação que pude notar presencialmente em algumas pistas do ano passado.

De uma maneira geral acredito que a forma como consumimos conteúdo, todo impacto das redes sociais da nossa vida e a maneira como um mercado cada vez mais inflado de dinheiro nas camadas do topo funciona, escanteou um pouco esse desejo pelo novo, isso praticamente todas as linhas. Os promoters não possuem muita margem para arriscar nas contratações, parte importante dos DJs preferem fazer uma entrega segura ao invés de arriscar e o público se mostra desinteressado em cobrar mais pelo fator novo, seja na pista ou fora dela. 

Uma das bases da música eletrônica sempre foi sobre se jogar na pista sem expectativas específicas e a cada novo set se encantar com novas sonoridades, novos ritmos e novas faixas que talvez a gente nunca saiba a ID. Sem registros, sem Shazam. O instantâneo que mais vale não é o do Instagram e sim o do momento que é vivido singularmente na pista. Não é uma crítica sobre registrar apresentações de artistas que gostamos, mas é um convite para que, ao menos em algumas situações, a gente se abra para compartilhar o momento na pista e não nas redes. 

Meu desejo de 2024 para você leitor, é que o novo possa te impactar de alguma maneira a ponto de mudar sua relação com a música eletrônica positivamente, que você possa se encantar por novos artistas, novas formas de interpretação da música e da arte e que, consequentemente, seu desejo pelo novo possa estar mais aguçado e presente. Isso faz a diferença, faz a roda girar e traz gente interessada e inteligente para o debate. Por que meu amigo, quando você conhece o novo, existe um universo inteiro de passado, presente e futuro para ser explorado na música. 

A música conecta.