Os sinais recentes de que o Instagram pode reforçar ainda mais a centralidade do vídeo, com mudanças que aproximam a experiência da plataforma de um fluxo permanente de Reels, merecem atenção para além da camada técnica. O que deve ser observado aqui é uma mudança mais profunda na forma como o conteúdo passa a ser descoberto, distribuído e consumido. Quando uma plataforma redefine sua porta de entrada, ela também redefine o tipo de linguagem que terá mais chances de engajar.
Essa transformação não é exatamente uma novidade. O Instagram já deixou há muitos anos de ser uma plataforma organizada pela lógica cronológica. Depois, trocou a previsibilidade do feed de seguidores por uma curadoria algorítmica mais agressiva. Em seguida, passou a favorecer formatos específicos, sobretudo aqueles capazes de gerar retenção imediata. O possível avanço dessa forma de trabalho, com uma abertura cada vez mais orientada ao vídeo curto, apenas aprofunda um caminho já em curso: o de uma plataforma cada vez menos interessada em interações lentas e mais comprometida com estímulos rápidos.
Nesse processo, os carrosséis ocuparam um lugar importante. Não era exatamente uma vitória do hábito de leitura, mas funcionou como uma solução “copo meio cheio” inteligente. Permitiram que ideias mais densas, recortes históricos, análises e curadorias encontrassem uma forma de existir dentro da rede sem precisar se render completamente à aceleração do vídeo. Para muitos veículos, artistas e plataformas culturais, esse formato virou uma das últimas maneiras viáveis de propor conteúdo com algum grau de contexto dentro do próprio Instagram.
É por isso que uma eventual priorização absoluta do vídeo preocupa. Nos preocupa. Não porque o vídeo seja um problema em si, mas porque a hegemonia de um único formato tende a empobrecer o ecossistema da plataforma. Quando tudo precisa começar pelo mesmo tipo de estímulo, a diversidade de linguagens diminui. E quando a descoberta passa a depender quase exclusivamente do impacto imediato, conteúdos que exigem atenção, sequência e tempo de leitura começam, aos poucos, a ser empurrados para fora do ambiente do que “dá resultado”.
Para veículos editoriais como o Alataj, isso produz um efeito que vai além do alcance. Afeta a própria possibilidade de sustentar um modelo de comunicação baseado em análise, profundidade e construção de narrativa. Me refiro aqui a uma dificuldade crescente de introduzir complexidade em um ambiente que recompensa simplificação. Não é só uma mudança de formato, mas de valor cultural embutida na arquitetura de programação da plataforma.
Há também um efeito comportamental importante. Quanto mais o consumo é guiado por um fluxo contínuo de estímulos audiovisuais, menor tende a ser o espaço para uma decisão ativa de aprofundamento. O usuário não precisa escolher tanto o que quer ver; ele apenas recebe. Isso não elimina a leitura, mas modifica o seu lugar. Em vez de ser parte orgânica da experiência, ela passa a depender de uma intenção mais deliberada. E convenhamos, não é uma disputa fácil quando o concorrente é a dopamina barata dos vídeos curtos infinitos.
É claro que a leitura não vai acabar. O mais provável é que ela continue existindo, mas com menos espaço de descoberta espontânea dentro das grandes plataformas. Isso já muda bastante coisa. Muda a forma como veículos constroem presença, como leitores encontram conteúdo e como a própria relevância cultural passa a ser medida, já que por vídeo, muitos assuntos se tornam muito mais complexos de serem tratados. Esse texto aqui, por exemplo, seria um roteiro de mais de 7 minutos em vídeo. Em um cenário assim, curadoria e intenção ganham ainda mais peso.
Esta carta da redação é um convite a refletir sobre o tipo de ecossistema digital que está sendo consolidado e, principalmente, sobre o papel que cada leitor tem na manutenção de espaços onde a leitura ainda faz sentido. Em tempos de excesso, atenção virou valor. E escolher onde colocá-la talvez seja uma das decisões culturais mais importantes do presente. Engaje os posts que você acredita. Apoie as narrativas que fazem sentido para você. Em breve, elas podem estar mastigadas e condensadas, podendo ser descartadas brevemente em um “swipe up”.