Ao longo das últimas duas décadas, a história do techno no Brasil foi construída por diferentes frentes — artistas, festas, clubes e selos ajudaram a dar forma e direção a essa cultura. Entre eles, a Válvula Records ocupa um lugar que merece ser destacado. Fundada em 2009 por Phabian Edward aka Phabian, a gravadora nasceu já com uma proposta bem alinhada: trabalhar o techno a partir de uma lógica de curadoria, priorizando consistência, identidade e conexão com a sonoridade de pista.
A Válvula acompanhou os movimentos e o crescimento da cena, mas nunca deixou de seguir o seu próprio ritmo e intuito. Um dos marcos iniciais foi justamente ter se tornado um dos primeiros selos nacionais a entrar no Beatport — movimento que, na época, posicionava a gravadora dentro de um circuito global ainda pouco acessível para artistas brasileiros. Ao longo dos 17 anos seguintes, construiu uma identidade baseada no techno mais tradicional e hipnótico, sem nunca se dobrar aos modismos e sempre atenta na aproximação de artistas brasileiros com nomes consolidados da cena global, criando um intercâmbio que ampliou o seu alcance.
Outro ponto central dessa trajetória é o vínculo com o vinil, algo que sempre fez parte de seu DNA. Diferente de um movimento pontual, o formato sempre esteve associado à forma como a gravadora entende a música eletrônica, evitando o “consumo rápido” que temos hoje. Destaque para o EP Flickering, do Afrozoid, lançado em 2015, que ganhou força com o remix de Myles Sergé e, posteriormente, integrou uma compilação em CD mixado por Shlomi Aber, o projetando mais longe e gerando oportunidades como gigs para o Afrozoid na Europa, incluindo uma apresentação no Tresor, em Berlim.
Por conta das dificuldades da pandemia, essa frente de lançamentos com mídias físicas teve que ficar em standby por um tempo, mas será retomada agora, em um momento que o mercado do vinil também está mais aquecido como um todo. A materialização disso acontece através do novo VA 12VVR003 – Behavior Structure EP Part 1, disco que será dividido em duas partes, reunindo artistas de diferentes contextos dentro de uma mesma linguagem.
Lançado no último dia 10 de abril, o release é definido por uma sonoridade mais raw, hipnótica e direta para a pista, com grooves consistentes, linhas de baixo marcantes e texturas mais densas. As faixas têm uma construção que prende e cria tensão, mantendo sempre um fluxo contínuo. Na parte estética, segue uma linha mais minimalista e objetiva, acompanhando o som, sem excessos, mas com identidade. De acordo com Phabian, fundador da Válvula e parte do duo Afrozoid, “tudo foi pensado para transmitir uma atmosfera mais underground e alinhada com a proposta da gravadora”.
Entre os nomes envolvidos está a dupla Alexander Johansson & Mattias Fridell, que carrega uma parceria de mais de duas décadas, com passagens por selos relevantes do techno europeu. Sev Dah, nascido na Bósnia e hoje baseado na Suécia, traz uma abordagem mais rígida e conectada às raízes do gênero, com lançamentos por labels como Mote-Evolver e KSR.
Do lado brasileiro, Alvinho L Noise representa uma ligação direta com o desenvolvimento da música eletrônica no país desde os anos 90, enquanto Brankelo aparece como um nome mais recente, com suporte de artistas como Dave Clarke e DVS1 e lançamentos por selos como Planet Rhythm e Suara. Já Steel Force, projeto de André Paulo, que também tem histórico com a própria Válvula, mantém uma produção alinhada às referências clássicas de Detroit e Berlim.
Mais do que um novo capítulo, o lançamento reforça uma lógica que acompanha a Válvula desde sempre: trabalhar a música eletrônica a partir de critérios claros, sem depender de ciclos rápidos ou mudanças de direção. A combinação entre presença histórica, curadoria e o retorno ao vinil coloca o selo novamente em evidência dentro de um formato que sempre fez parte de suas raízes.