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A música conecta

Por que certos assuntos sempre ficam para “depois”?

Por Elena Beatriz em Carta da Redação 12.01.2026

Há temas que pairam sobre a música eletrônica há anos e seguem sendo tratados como se fossem sempre adiáveis. Eles geralmente aparecem de forma lateral, em conversas privadas, em desabafos pontuais ou em momentos de crise, mas raramente ocupam o centro do debate público. São abordados em voz baixa, como se fossem desconfortáveis demais para serem assumidos coletivamente. A pergunta que se impõe é simples: por que certos assuntos seguem sendo deixados para depois?

Existe um fenômeno curioso e silencioso na comunicação e na gestão cultural, que podemos denominar como “procrastinação do desconforto”. Isto nada mais é do que a priorização de episódios que brilham a curto prazo, enquanto as questões que exigem olhar para a estrutura — muitas vezes frágil, desigual ou mal resolvida — são empurradas para um momento indefinido.

Questões como concentração de poder, falhas estruturais, saúde mental, remuneração injusta e relações de dependência não surgem como exceções ocasionais. Elas fazem parte do funcionamento cotidiano do nosso ecossistema, englobando artistas, produtores, trabalhadores técnicos, comunicadores e espaços culturais. Ainda assim, costumam aparecer de forma fragmentada, tratadas como problemas individuais ou circunstanciais, raramente como dinâmicas sistêmicas que merecem atenção contínua.

Parte dos motivos pelos quais esses assuntos são constantemente deixados de lado se devem ao fato de que eles não geram engajamento imediato. Debates estruturais demandam tempo, aprofundamento e disposição para lidar com fricções. Em um ambiente orientado pela validação rápida, pelo fluxo constante de novidades e pela necessidade de manter visibilidade a qualquer custo, esse tipo de conversa tende a ser visto como inconveniente ou excessivamente complexo.

Há também um componente claro que atenua essa percepção. Muitos agentes culturais se desenvolvem em contextos frágeis, com poucas alternativas concretas de circulação, o que acarreta na dependência de certos modelos para que haja alguma condição de sobrevivência no mercado. Questionar modelos, práticas e hierarquias pode significar perder espaço, oportunidades ou relações construídas ao longo do tempo. Assim, o adiamento do debate não acontece por falta de consciência, mas por receio. Falar parece custar mais do que se abster.

Enquanto isso, os moldes da comunicação tendem a privilegiar aquilo que circula com mais facilidade: anúncios, recordes, grandes nomes e momentos de sucesso. Não há nada de errado em reconhecer conquistas. Trazer visibilidade ao que deve ser celebrado também faz parte do processo para o desenvolvimento da cena como um todo, da saúde mental de quem está envolvido e da própria esperança para que novos bons caminhos sejam trilhados. Contudo, quando esses assuntos ocupam todo o espaço disponível, deixam poucas frestas para discussões que exigem tempo, cuidado e disposição para lidar com contradições. O problema não é a falta de informação, mas o que escolhemos reiteradamente deixar fora dessa área.

O silêncio tem um custo. Ao adiar discussões sobre ética, estrutura e responsabilidade, há uma entrega coletiva de um aval para que a cena funcione sob uma dinâmica de sobrevivência permanente, em vez de criar condições para continuidade, desenvolvimento e florescimento.

Para nós, tratar esses assuntos não é uma tentativa de oferecer respostas definitivas ou de estabelecer julgamentos. É, antes de tudo, um exercício de responsabilidade editorial. Acreditamos que uma cena se fortalece quando é capaz de olhar para suas próprias estruturas, reconhecer fragilidades e sustentar conversas que não se resolvem rapidamente. Adiar indefinidamente esses debates não elimina os problemas — apenas os empurra para lugares menos visíveis.

O papel do Alataj, desde o início, tem sido o de atuar como espaço de mediação cultural. Isso implica organizar informação, contextualizar processos e abrir espaço para reflexões que não cabem em formatos imediatos ou consensuais. Nem tudo precisa ser resolvido agora, mas algumas questões precisam, ao menos, deixar de serem sempre adiadas.

Escolher o que discutir, o que sustentar e o que deixar de lado diz muito sobre o tipo de comunidade que estamos ajudando a fomentar. Em 2026, mantemos o compromisso de trazer luz à complexidade, mesmo quando ela desconforta, e contribuir para um ambiente cultural mais consciente, crítico e responsável. Um feliz ano novo à todos! 

Elena Beatriz, em nome de toda equipe do Alataj.

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