Conversation | SHADED + Demuir

Hoje é dia de estrear mais uma coluna no Alataj. Neste momento em que ficar em casa é a melhor solução nós estamos trabalhando constantemente para apresentar uma variedade robusta de conteúdos interessantes e relevantes, enquanto aguardamos o retorno das atividades normais (ou o novo normal) do mundo do entretenimento. 

Aliado a este fato, se tem algo positivo que esta pandemia nos têm proporcionado é uma aproximação de artistas entre eles e com o público, que não era tão presente e aparente nos últimos tempos. Neste momento em que as gigs foram interrompidas, todos estão em suas casas e, automaticamente, dispondo mais de seu tempo para bate-papos e interações. Nós resolvemos aproveitar esta oportunidade e transformá-la em um material que há tempos gostaríamos de produzir.

Apresentamos à vocês o Conversation. Trata-se de um encontro entre dois artistas para trocarem figurinhas, ideias, opiniões e muitos outros assuntos relevantes. Não há muito mais para explicar por que vale a pena mesmo acompanhar o desenrolar dessa ideia toda.

Para nosso primeiro episódio, convidamos dois artistas que já trabalharam juntos, então o entrosamento é certo. De um lado Demuir, mestre e veterano da House Music e que tivemos o prazer de entrevistá-lo recentemente; e do outro SHADED, americano que vem se destacando nos últimos anos em seu trabalho que percorre o House e Techno.

Eles tomaram um tempo pra conhecer um ao outro em virtude do mais novo EP da Hot Creations, Mad Stacks, produzida por SHADED, track que foi então remixada num House pesado por Demuir. Na conversa, os DJs refletem sobre suas motivações individuais – e ao mesmo tempo similares -, desenhando uma linha do tempo de seus respectivos passados entrelaçando tudo isso com um conhecimento impressionante, e avançam para o desconhecido do futuro da música eletrônica, mostrando uma ligação entre eles ao longo do bate-papo.

Sem mais introduções, vamos à conversa. Divirta-se!

SHADED + Demuir

SHADED: Hey! Então você mora em Toronto?

Demuir: Sim, eu moro num lugar bem próximo à parte principal da cidade, num lugar chamado Mississauga; estou a cerca de 10 minutos do centro.

S: Legal, cara, legal.

D: E você? Onde você está?

S: Eu estou em Newport Beach, basicamente ao lado de LA, a uns 45 minutos de distância pro Sul. Estou surpreso que a gente ainda não tenha se conhecido, tenho tantos amigos em Toronto… Não acredito que a gente não cruzou o mesmo caminho antes.

D: Bem, você vem a Toronto com frequência?

S: Faz um tempo que não vou. Na verdade era pra eu ter ido em março, estava indo pra tocar no Vertigo, com Kenny Glasgow.

D: É, eu toquei com o Kenny em março; Vertigo é o clube do Rudee! Uau! Vertigo! Isso teria sido massa. Droga…

S: Pois é, a gente tinha a coisa toda programada, porque eu e Kenny temos tentado ir pro estúdio faz uns dois anos, então foi meio assim… “A melhor maneira de fazermos isso é agendar uma gig, então eu posso pegar um vôo na quarta-feira, tirar alguns dias para o estúdio e então tocar no sábado”. Obviamente o COVID-19 acabou com isso… Droga!

D: … Acabou com os planos de todo mundo!

S: Ferrou com tudo. Eu tava tipo “Cara, sério? Tipo… bem agora?!”

[Ambos riram]

 D: Você esteve em Newport a vida toda?

S: Não. Eu nasci aqui, e fiquei até os 6 anos, então minha família se mudou pra Hood River Oregon, e depois voltou pra Newport quando eu tinha uns 10; então a maior parte da minha vida eu passei aqui em Newport Beach. Quando eu tinha 23 ou 24 anos fui pra Barcelona por uns 8 anos, mas não em tempo integral, eu ficava talvez de 6 a 8 meses lá e voltava pra Newport o restante do tempo. Quando eu comecei na música, tocava muito mais na Europa e América do Sul por causa do meu estilo musical. Ajudou muito estar lá pra poder ingressar nesse universo. Eu estava lá há tanto tempo, literalmente, e justo antes de todo esse negócio do COVID começar, eu saí do meu apartamento em Barcelona e voltei de vez pra Newport.

D: Bom, eu não sei… Parece que você tem uma santa protetora aí! Não uma santa necessariamente, mas parece que “algo” estava olhando por você, porque na Espanha os casos estavam loucos!

S: Foi estranho também, porque por uns anos eu estava meio que saindo de Barcelona. Eu considerava lá minha segunda casa, literalmente, tinha tantos amigos por lá… E se tornou até normal pra mim, e aí recentemente… Bom, se você já veio à Newport Beach, é um daqueles lugares que se você cresceu aqui, você só quer sair. Mas uma vez que você passa um tempo fora, você se dá conta “Droga, era tão bonito lá!”

D: É aquele efeito da “grama mais verde”, não é?

S: Sim, definitivamente. Teve a ver com a música também, porque em Newport, cara, House e Techno não existiam até uns 10 ou 15 anos atrás. Eu eu estava sempre querendo ir pra Europa e achava que precisava chegar lá. Mas agora voltei!

D: Eu sei o que você quer dizer sobre o som e Newport… Eles tem o Newport Jazz Festival, então ou é isso ou imagine apenas Pop e Rock tradicional. Tipo o que influenciou seu som, porque é um baita contraste, cara…

S: Eu acho que, como você falou, nós temos o festival de Jazz, mas, fora isso, não tinha uma cultural musical mais aprofundada em Newport Beach. O lugar é essencialmente um destino de surf. Acredito que o Condado de Orange foi retratado em programas de TV como super rico, mas também tem partes bem diversas. Eu não diria que classes tão baixas e tal, mas tipo surfistas, skatistas… A música Punk Rock  estava praticamente incubada aqui em Costa Mesa, como o rock underground de garagem. Mas era basicamente um monte de bandas punk, então quando eu era mais novo, eu andei muito de skate! Eu andava de skate e surfava o tempo todo. Então desde o começo minha música foi influenciada por linhas de baixo do pós-punk, tipo ARPEGGIATED, mas são batidas “4 to the floor” beats bem simples; são praticamente linhas de baixo rítmicas que podem ser muito potentes mas também bem divertidas. 

D: Sim, tem bastante ataque no baixo porque eles usam um pick muitas vezes. Sei o que você quer dizer, é um baixo que pega muito forte.

S: Eram coisas com uma energia muito elevada, saca? Então, sim, foi isso que eu cresci ouvindo e antes mesmo de eu fazer música eletrônica eu escrevi um Hip Hop. Fiz uns beats pra um brother que era rapper, e ele me fez cantar algumas canções, mas logo eu reparei que não era meu forte, então eu só fazia as batidas. Sempre amei Hip Hop e Punk, então foram duas coisas que realmente impulsionaram o que eu faço agora.

D: Isso é muito hilário, cara. De punk eu tenho uma coleção bem grande de vinil. Um dos meus álbuns favoritos é Sid & Nancy. É um disco bem difícil de achar, mas eu tenho. É tipo… se você pensar na música eletrônica nos tempos passados em New York, que era só uma mistura de Punk com Hip Hop… Eu também produzo Hip Hop… Isso é muito engraçado! Praticamente instrumentais e aí vendo as batidas depois. Faço isso até hoje! Isso é muito legal!

S: E como é em Toronto? Eu tenho tantos amigos em Toronto que “estão me matando”. Eu conheci Carlo Lio talvez há uns 10 anos, fizemos turnê com Dubfire e Sci+tec. E depois o Nathan, Kenny e Jonny… Tenho a sensação de que tem um esquadrão completo por aí! Mas não sei se tem galera jovem aparecendo na cena por aí… ?

D: Acho que você sabe, você mencionou o Carlo… The Junkies estão fazendo um comeback!

S: Ah, sim, The Junkies!

D: É muito louco que você tenha mencionado Carlo e Nathan, eles na verdade me inspiraram a voltar pra música eletrônica depois de uma pausa de 8 anos! E ouvindo o som deles no clube, antes do Coda ser Coda, era chamado de Footwork. E o Nathan e o Carlo tocavam lá a noite inteira com os Junkies. Eles são super influentes, junto com o Kenny e Jonny. Quanto aos caras meio que fazendo coisas por aqui, é mais um som de discoteca… tem o Vicent Caira e também o Chris Larson.

S: Ah sim, Chris!

D: Pessoas bacanas, super criativas, super legais! Esses caras estão fazendo a coisa acontecer, cara!

S: Você disse que fez uma pausa de 8 anos. Quando você voltou, e pensou “Ok, essa é minha hora”?

D: Eu tirei um tempo porque, você sabe, eu estava fazendo coisas nos anos 90, bem mais underground e vendendo discos de vinil, licenciando discos pra gravadoras diferentes. Sei lá, cara, com o atentado do World Trade Center em 2001… Viajar virou de cabeça pra baixo, o que é bizarro. Passei por um divórcio tenso nessa época. Eu simplesmente pensei “vou dar uma descansada desse negócio de música”, porque toda a indústria virou de pernas pro ar, feio mesmo. Isso não é tão ruim quanto o que vimos nos anos 2000, tava muito louco. Naquele tempo era mais como um hobby pra mim que acabou me gerando algum dinheiro. Aí eu arranjei um trabalho em horário comercial em 2001 e me cansei disso em 2006. Mas acho que foi mais em 2008 que pensei “Que se dane, eu tenho que voltar pro jogo!”. E eu vi a luz disso assistindo ao Nathan e Carlo no Footwork. Eu só pensava “Droga, tem que ter uma vida além da coisa “9h-às-5h” (trabalho em horário comercial), então comecei a montar planos para voltar pra música e reconstruir um estúdio… E aqui estamos!

S: Isso é legal! Acho que toda as pessoas de sucesso tem um plano. Você começa a executá-lo…

D: Sim! Você tem também! Você sabe como é!

S: É engraçado porque as pessoas ficam tipo “Como você consegue?”, “Como você chegou até aqui?”, e é literalmente sobre você acordar e escrever seus objetivos. Atinja aquela meta e então crie outra. E então um dia você se levanta e você está onde você queria chegar!

D: Exatamente! É só focar e não se distrair com coisas supérfluas.

S: Sim, exatamente. Massa, cara!

D: Eu ia te perguntar, por que to bem curioso… Quando o Jamie me pediu pra fazer o remix e eu estava escutando as partes, a primeira coisa que pensei foi “Minha nossa! Esses vocais! Isso é ele? Como ele fez isso?” Porque dá pra dizer que teve muito trabalho envolvido nisso. O que você usou pra juntar tudo?

S: Na última década eu tenho trabalhado com Logic, estou lentamente voltando pro Ableton, mas acho que costumo colocar os vocais em camadas. Eu sempre fiz meus próprios vocais, a menos que seja uma voz feminina; se é uma voz de menina, aí você pode obviamente saber que é uma garota cantando. Normalmente coloco um microfone com dois efeitos. Na verdade no Logic eu uso um efeito – é chamado “ensemble”. Então eu jogo, abro um pouco, mas não muito, mas abro o suficiente pra dar uma incorporada. Isso meio que “engrossa” um pouco, então eu começo a gravar. O que faço é brincar com pitches diferentes. Às vezes eu até mesmo coloco um midi control no automático e subo e desço o pitch enquanto estou gravando, e nisso eu to literalmente praticamente só falando – só tentando imitar a voz que eu quero fazer. Eu não falo e então aciono o pitch pra cima ou pra baixo; na verdade estou apenas tentando cantar de algum jeito e controlo o pitch enquanto eu gravo. Não tive aulas de canto ou nada do tipo, mas consigo chegar perto do que imagino. Tenho algumas músicas com alguns vocais bem estranhos, e as pessoas perguntam “Quem cantou isso?”, e eu respondi “Cara, sou eu”. Você sabe que não dá pra notar, mas em Mad Stacks foi isso! Lembra aquela música “Detroit Grand Pubahs – Sandwiches”? Sempre me fez rir e era legal! Mas os vocais eram meio Hip Hop, sabe? Aquela vibe Hip Hop old school, e eu queria encontrar um caminho entre aquele vocal e aquela voz profunda, típica do Techno. Então foi mais ou menos isso que tentei alcançar com o vocal dessa música, e aí era só eu ficando chapado no meu estúdio e dizendo “Mad Stacks…”, “That’s kinda cool, yeah…”, “That’s catchy!”

D: Da hora! Que louco, é um processo insano, você consegue definitivamente ouvir isso neste trabalho. Eu me lembro de escutar isso e pensar “Isso é maluco!”

S: É muito simples, mas tem muita atitude.

D: Tem profundidade! Eu curti! Legal!

S: Valeu, cara! Eu agradeço! “Mad Stacks” foi escrito um tempo antes de conseguir ver a luz… As pessoas ficavam tipo “Cara, o que está acontecendo com essa track?”. Eu sempre quis mandar algo pro Jamie. Eu conheci o Lee e todos aqueles caras há muito tempo em LA, quando eles fizeram festas no terraço do Standard. Então eu queria mandar música pra eles, mas meu som era muito Techno. Quando eu tinha o álbum, pensei “Vou mandar!”, e aí quando falamos com a gravadora sobre remixes, seu nome foi um dos primeiros a surgir, porque o Jamie estava super empolgado com você! Você tá mandando muito!

D: Eu fiquei realmente surpreso de receber esse convite. Parte de mim ficou aliviada que ele entrou em contato comigo, porque é uma ótima forma de fazer algo completamente diferente ao “High, Alive and Dirty”. Eu escutei tanto aquela música, e não quero parecer ingrato, é só que eu escutei ela tantas vezes em tantos lugares… Então, sim, obrigado pela oportunidade e obrigado novamente por ir em busca do remix. Ah, e por sinal, eu fiz um vídeo de desconstrução pro Lee… Eu editei o vídeo, e meu cinegrafista me enviou de volta hoje. Não sei quando ele vai publicar. Mas de qualquer forma, obrigado por me receber, eu to tão feliz por você, cara. Espero que corra tudo bem. 

S: Sim, é uma posição diferente pra mim. Estou partindo para novos territórios com a música, então foi muito legal quando tudo isso se uniu. Obrigado. Eu agradeço e estou empolgado com o remix. Espero que corra tudo bem também! 

A música conecta.