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A música conecta

Louie Vega: “A música precisa vir de um lugar verdadeiro”

Por Alan Medeiros em Cover 29.10.2026

Louie Vega fala de música a partir de reações muito pessoais: um arrepio, um nó na garganta, a percepção de que uma gravação feita meses antes está provocando alguma coisa em quem dança à sua frente. Esses sinais influenciam sua maneira de produzir e discotecar, mesmo quando mudam os instrumentos, as tecnologias ou os parceiros. Nascido no Bronx, em uma família porto-riquenha, cresceu entre o jazz do pai saxofonista e a salsa de seu tio Héctor Lavoe. Antes de viajar pelo mundo, já encontrava nos discos uma forma de conhecer músicos, arranjadores e tradições que ampliavam aquilo que escutava em casa e nas ruas de Nova York.

Foi também nessa cidade que aprendeu a reconhecer a pista como uma experiência coletiva formada por respostas individuais. Nos anos 80, sua atividade como DJ passou por clubes como Devil’s Nest, Heartthrob e Studio 54, enquanto o trabalho de remixes o aproximava de artistas ligados ao freestyle e ao pop. A produção de Ride on the Rhythm, com Marc Anthony, em 1991, acrescentou outro caminho a essa formação. Entre palcos e estúdios, Vega desenvolvia uma escuta capaz de relacionar repertórios que a indústria apresentava em categorias diferentes, mas que conviviam no cotidiano musical de Nova York.

A parceria com Kenny “Dope” Gonzalez no Masters At Work ampliou ainda mais essa possibilidade. House, hip-hop, disco, jazz, gospel e música latina passaram a integrar um trabalho em que a programação eletrônica e a presença de músicos podiam participar da mesma composição. Nuyorican Soul, lançado em 1997, reuniu colaboradores como George Benson, Roy Ayers e Tito Puente; mais tarde, o Elements Of Life aprofundaria outros encontros entre arranjos, vozes e performance ao vivo. Na conversa que acompanha esta Cover Feature, Louie explica essa continuidade pelo interesse na composição, na harmonia e na história que uma música pode contar, inclusive quando seu primeiro destino é a pista.

Shout!, lançamento que motivou inicialmente esta entrevista, oferece um exemplo recente desse método. A faixa nasceu de uma conversa com Charaf Tajer, fundador e diretor criativo da Casablanca, que desejava aproximar moda, gospel e house em uma apresentação da marca em Paris. Em vez de apenas selecionar músicas, Vega propôs criar uma composição original com Josh Milan, seu parceiro no 2SoulFusion. Lançada em 23 de outubro pela Vega Records, sob o projeto 2SoulFusion Presents Ascension, a gravação traz Dames Brown e Dawn Tallman, além de um conjunto de vozes que inclui Lisa Fischer, Rahsaan Patterson e Cindy Mizelle. Uma encomenda de ocasião se tornou espaço para desenvolver música nova com uma rede de colaboradores.

Essa disposição também orienta os projetos que Louie detalha ao Alataj. Ele anuncia 3001: A Disco Odyssey para dezembro de 2026, um novo álbum do Elements Of Life previsto para março de 2027 e o retorno ao estúdio com Kenny Dope para trabalhar em Masters At Work e Nuyorican Soul 2. Ao falar da Vega Records, destaca ainda a troca com uma geração mais jovem no Funki Cadets. As novidades ajudam a entender sua relação com a experiência acumulada: ela oferece recursos para novas combinações, enquanto os parceiros continuam trazendo referências e procedimentos que ele próprio ainda tem a aprender.

É nesse momento que Louie Vega estampa a Cover Feature 003, apresentada pela Heavy Love. A festa recebe o artista em seu aniversário de 11 anos, no dia 28 de novembro, na Fabriketa, em São Paulo, das 22h às 6h, com ingressos e todas as informações pelos canais oficiais da Heavy Love. A apresentação aproxima o público brasileiro de um trabalho que segue sendo construído com muita pesquisa, convivência e experimentação. Nesta entrevista exclusiva, conversamos sobre suas raízes no Bronx, a liberdade do Masters At Work, o papel dos músicos no estúdio e aquilo que ainda o faz querer descobrir como a próxima gravação vai soar.

Alataj: Olá, Louie, como você está? Muito obrigado por conversar conosco! Ao longo de sua carreira, você se tornou uma espécie de ponte viva entre house, salsa, jazz, soul, gospel, afrobeat e música latina. Em que momento percebeu que sua missão também era traduzir diferentes culturas para a pista de dança?

Tudo começou com a minha formação musical no Bronx e com o fato de crescer em Nova York, onde tive contato com tantos sons e culturas diferentes desde cedo. Depois, quando comecei a viajar pelo mundo, conheci culturas belíssimas em lugares como África, Brasil, Itália, Inglaterra, Japão e muitos outros.

À medida que me aprofundava nesses universos musicais, descobria diferentes instrumentos, músicos, cantores, arranjos e tantas possibilidades de criação. Eu era como uma esponja, absorvendo tudo e permitindo que essas experiências passassem a fazer parte da minha trajetória musical.

Mesmo antes de todas essas viagens, minha coleção de discos e o hábito de colecionar vinis de várias partes do mundo já tinham aberto meus ouvidos para muita coisa. Pelos discos, aprendi sobre músicos, cantores, arranjadores, arranjos, diferentes ritmos e as tradições musicais de tantas culturas. Tudo isso teve um papel importante na formação da maneira como escuto, crio e conto histórias pela música — das minhas raízes no Bronx e em Nova York a tudo o que descobri pelo mundo.

Sua história começa em uma família profundamente musical, com seu pai ligado ao jazz e seu tio Héctor Lavoe como uma figura central da salsa. Como essa formação familiar ainda aparece na maneira como você escuta, organiza e sente a música hoje?

Minha formação familiar continua presente na maneira como sinto e faço música. Meu tio fazia parte da Fania Records, uma gravadora fundamental, que era realmente a Motown da música latina. Havia artistas, arranjadores, músicos, cantores e compositores incríveis naquele selo, que criaram tantos clássicos que continuam resistindo ao tempo.

Crescer ouvindo tudo isso ajudou a formar a paleta com a qual escuto música hoje. Para mim, sentimento é sentimento. Quando você ouve alguma coisa e se arrepia, isso é sentimento. Quando escuta alguém cantar determinada nota ou uma música que dá um nó na garganta, também é.

Muitas das músicas com as quais cresci me levaram a esses momentos, e acho que isso permaneceu comigo ao longo de toda a minha trajetória musical. Não se trata apenas do que você ouve, mas do que sente.

Você começou a tocar muito jovem em clubes de Nova York, em lugares como Studio 54, Devil’s Nest e Heartthrob. Olhando para trás, o que aquela Nova York ensinou sobre pista de dança, comunidade e energia humana?

As pistas de Nova York me ensinaram sobre comunidade, sobre me sentir livre para dançar e deixar minhas emoções aparecerem pela música. Havia uma conexão muito forte entre as pessoas. Você sentia a energia humana no ambiente — a união, a proximidade, todos se movimentando juntos e, ao mesmo tempo, cada pessoa vivendo sua própria experiência com a música.

Isso permaneceu comigo por toda a vida. Uma pista pode reunir pessoas sem que ninguém precise dizer uma palavra. Não importa de onde você vem, sua aparência ou sua história. Durante aquelas poucas horas, a música cria um espaço onde todos podem ser quem são. Você pode se perder no ritmo, se conectar com a pessoa ao lado ou simplesmente entrar no seu próprio mundo.

Essa sensação de liberdade, conexão e energia humana é uma parte enorme do que tento captar quando toco hoje. Estou sempre pensando nessa relação entre o DJ, a música e as pessoas na pista. Quando essas três coisas se encontram, algo muito especial acontece.

Muitos artistas constroem uma identidade tentando definir um território específico. No seu caso, essa identidade parece vir justamente da capacidade de transitar por diferentes linguagens sem perder sua assinatura. Como você entende essa ideia de coerência em uma carreira tão plural?

Sinto que tive muita sorte de conseguir criar meu próprio caminho musicalmente. Nunca quis seguir o que estava acontecendo ao meu redor nem tentar me encaixar em uma categoria específica. No trabalho solo, nas colaborações e com os diferentes músicos e artistas com quem tive a felicidade de trabalhar, sempre procurei oferecer às pessoas algo honesto em relação a quem sou e ao que sinto.

Para mim, essa honestidade aparece na música, mas também nas faixas que escolho tocar. Sempre existe uma razão para determinado disco me tocar, para eu querer colocá-lo em um set ou construir algo em torno de um som específico. As pessoas com quem trabalho trazem essa mesma honestidade. Trazem suas experiências, suas emoções, sua linguagem musical, e é quando tudo isso se encontra que algo especial pode acontecer.

Acho que, quando você chega ao ponto de não tentar ser outra coisa, as pessoas percebem. Não dá para fabricar essa conexão. A música precisa vir de algum lugar verdadeiro. E, quando isso acontece, ela pode viajar de maneiras que você nunca imaginou.

Provavelmente, essa é uma das coisas pelas quais sou mais grato. Ver uma música que veio do meu coração se conectar com pessoas no mundo inteiro é uma sensação incrível. E essa conexão nem sempre acontece da mesma forma. Uma pessoa pode se conectar com um ritmo, outra com uma melodia, outra com uma letra ou talvez apenas com a sensação que tem ao ouvir determinado disco em uma pista. É isso que considero tão bonito na música. Você a coloca no mundo, e cada pessoa a experimenta a partir da própria vida.

Sou grato por minha trajetória musical ter me permitido continuar descobrindo essas conexões. Depois de todos esses anos, continuo aprendendo, criando, colaborando e encontrando novas maneiras de me comunicar pela música. É isso que mantém tudo empolgante para mim.

O Masters At Work ajudou a definir um vocabulário global para a house music, mas também sempre pareceu carregar uma relação muito forte com a música negra, latina e urbana de Nova York. O que você sente que ainda não é plenamente compreendido sobre a dimensão cultural desse projeto?

Sinto que Kenny e eu somos produtores bastante versáteis e, embora amemos house music, nunca sentimos que precisávamos permanecer dentro de um único gênero. Para nós, Masters At Work sempre foi sobre liberdade. O house é uma parte muito importante de quem somos, mas é apenas uma parte da nossa linguagem musical.

Crescemos ouvindo tantas formas diferentes de música, e todos aqueles sons passaram a fazer parte do nosso DNA. Funk, soul, jazz, gospel, música brasileira, música africana, música latina, hip-hop, disco, new wave, rock, R&B — pode escolher. Vivendo em Nova York, você tinha contato com muita música e muitas culturas. Podia ouvir alguma coisa no rádio, em um clube, em uma festa de quarteirão ou na coleção de discos dos seus pais, e tudo aquilo podia influenciar você.

É isso que acho que sempre tornou o Masters At Work especial. Nunca enxergamos a música como algo cercado por muros. Se alguma coisa nos toca, queremos explorá-la. Podemos fazer algo profundamente ligado à pista, mas também uma balada cheia de funk, trabalhar com músicos ao vivo, criar algo cinematográfico, explorar ritmos brasileiros ou africanos ou entrar no jazz e no gospel. Conseguimos abordar a música por diferentes ângulos porque vivemos todos esses sons.

Mesmo quando fazemos música para dançar, não penso necessariamente nela apenas como “dance music”. Pensamos na composição, na qualidade da execução musical, no groove, na harmonia, no sentimento, na história. A pista é um dos lugares onde essa música pode existir, mas a música pode levar você a qualquer lugar.

Então, para mim, realmente não há limites para o que o Masters At Work pode fazer como dupla de produtores. Sempre seguimos a música e nossos instintos. Enquanto estivermos inspirados, haverá outra direção que podemos tomar.

Em trabalhos como Nuyorican Soul e Elements Of Life, a música de pista aparece em diálogo direto com músicos, vozes, arranjos e apresentações ao vivo. O que a presença de músicos tocando em tempo real ainda pode oferecer à dance music em uma era tão orientada pela produção digital?

Sempre acreditamos em reunir o melhor dos dois mundos quando fazemos música. Para mim, nunca foi uma questão de escolher entre o orgânico e o eletrônico. É uma questão de entender o que a música precisa.

Sempre haverá um elemento de tecnologia no que fazemos — sintetizadores, plug-ins, sons eletrônicos, sampling, todas as ferramentas disponíveis hoje. Mas adoro colocar esses elementos em um ambiente orgânico, com músicos tocando, instrumentos, percussão, cordas, sopros, vozes e todas as imperfeições humanas que dão personalidade à música. Às vezes, a tecnologia pode intensificar essa sensação em vez de afastá-la.

Isso depende muito do projeto e de onde a música quer levar você. Em algo como Nuyorican Soul, a base está profundamente ligada à execução dos músicos, à música latina, ao jazz, ao soul, às influências brasileiras e à energia dos músicos tocando ao vivo. Mas isso não significa que não possamos trazer a produção digital para esse universo. Em Nuyorican Soul 2, certamente exploraremos alguns desses elementos digitais, preservando o espírito e o caráter orgânico que fazem do Nuyorican o que ele é.

E essa é a parte empolgante: você nunca sabe exatamente aonde aquilo vai chegar. O mesmo acontece com Elements Of Life. Não quero estabelecer um limite para a música antes de fazê-la. Quero entrar no estúdio, reunir os músicos e a tecnologia, experimentar, ouvir e ver o que se desenvolve.

A tecnologia está sempre mudando, mas a emoção precisa permanecer. Você pode ter o equipamento mais avançado do mundo, mas, se não houver sentimento por trás, isso não significa muita coisa para mim. É esse equilíbrio entre o toque humano e as possibilidades da tecnologia que mantém a música avançando.

Você viveu diferentes fases da indústria: vinil, grandes gravadoras, rádio, compilações, streaming, transmissões ao vivo e redes sociais. O que considera que mais mudou na cena desde que começou a fazer parte dela?

Vivi muitas fases diferentes desta indústria — vinil, lojas de discos, rádio, grandes gravadoras, selos independentes, compilações, CDs, downloads, streaming, transmissões ao vivo e, agora, redes sociais. Cada uma dessas mudanças transformou completamente a maneira como a música é feita, distribuída, descoberta e experimentada.

Quando entrei nesse mercado, havia mais intermediários controlando os caminhos de acesso. Você precisava da loja de discos certa, do distribuidor certo, do DJ de rádio certo, do DJ de clube certo, da gravadora certa ou da revista certa para ajudar a música a circular. O vinil era a moeda, e os DJs participavam muito do processo de descoberta. Um disco podia construir sua reputação aos poucos, passando da pista para a loja, depois para o rádio e, então, para um público muito maior. Havia certa paciência nesse processo.

Hoje, tudo acontece muito mais rápido. Você pode fazer alguma coisa no estúdio e colocá-la nas mãos — ou nos ouvidos — de pessoas pelo mundo quase imediatamente. O streaming mudou completamente a maneira como as pessoas consomem música, e as redes sociais mudaram a relação entre artistas e público. Você pode se comunicar diretamente com quem gosta do seu trabalho sem necessariamente passar por todos aqueles intermediários tradicionais.

Mas acho que a maior mudança é que já não existe um manual de regras. Não há uma única ordem para promover um disco, lançar música, construir um público ou contar sua história. Existem muitas ferramentas disponíveis, e você precisa descobrir como elas funcionam para você.

Para mim, o importante é se adaptar sem perder quem você é. Sempre acreditei em seguir em frente respeitando o lugar de onde veio. Continuo amando vinil, a experiência física da música, o rádio e o poder de um DJ apresentar um disco às pessoas. Mas também abraço o streaming, as plataformas digitais, as redes sociais e tudo o que me permite me comunicar com as pessoas hoje.

O bonito é que, agora, a conexão pode ser direta. Posso compartilhar alguma coisa com alguém em Nova York, Londres, Tóquio, São Paulo, Joanesburgo ou qualquer outro lugar do mundo, e essa pessoa pode imediatamente passar a fazer parte daquela trajetória musical. Isso é poderoso.

Então, não acho que você precise correr atrás de toda novidade só porque ela é nova. Adapte-se à sua maneira. Encontre seu ritmo, entenda as ferramentas, seja autêntico e mantenha a música no centro. Se fizer isso, acredito que as coisas podem se encaixar naturalmente. Depois de todos esses anos, continuo me adaptando, aprendendo e encontrando novas formas de me conectar com as pessoas pela música.

A Vega Records já lançou mais de 180 singles e funciona como uma plataforma para diferentes artistas e linguagens. Depois de tantos anos, o que ainda torna uma gravadora artisticamente relevante, em vez de apenas uma estrutura de distribuição?

Para mim, uma gravadora precisa ser mais do que uma estrutura de distribuição. Precisa ter uma identidade musical, um ponto de vista e, acima de tudo, um sentimento por trás. É isso que sempre quis que a Vega Records fosse.

Adoro explorar e encontrar novos talentos, mas também queria criar uma casa para músicos, cantores, produtores e artistas em quem acredito — pessoas com cuja música me conecto e que passaram a fazer parte da família Vega Records. Ao longo dos anos, essa família continuou crescendo, e acho que essa é uma das coisas mais bonitas de ter seu próprio selo. Você pode construir algo organicamente e permitir que evolua com você.

Não olho para a música simplesmente como algo para lançar. Olho para as pessoas por trás dela e para o que podem acrescentar ao conjunto. Às vezes, você ouve um artista e sente imediatamente que há algo especial ali. Talvez ele ainda não esteja plenamente desenvolvido, mas você consegue ouvir o potencial, a personalidade, a musicalidade. Adoro poder oferecer uma plataforma onde as pessoas possam crescer e encontrar sua voz.

Isso é uma parte importante do que Funki Cadets se tornou para mim. É um novo projeto no qual procurei uma geração mais jovem e ofereci a oportunidade de colaborar comigo e participar de um lançamento. Já estamos no quarto single, e cada disco está ficando melhor. O que mais gosto é que o aprendizado não acontece em uma única direção.

Estou ali para orientá-los, compartilhar o que aprendi em muitos anos de estúdio e permitir que vejam de perto o que envolve fazer um disco — da ideia inicial à produção, ao arranjo, à gravação, à mixagem e, finalmente, a colocá-lo no mundo. Mas, ao mesmo tempo, estou aprendendo com eles. São de outra geração, com outras referências, outras maneiras de trabalhar e outras ideias sobre como a música pode soar e se conectar hoje.

Essa troca é importante para mim. Não acredito que o conhecimento musical deva viajar em apenas uma direção, da geração mais velha para a mais nova. Aprendemos uns com os outros. 

É isso que mantém uma gravadora artisticamente relevante para mim. Ela precisa continuar se movimentando, descobrindo, assumindo riscos e criando relações. A Vega Records faz parte da minha trajetória musical, mas também é um lugar onde outras pessoas podem começar ou continuar as suas. Enquanto houver novos artistas para descobrir, novos músicos com quem colaborar e novas músicas que me empolguem, sinto que essa família continuará crescendo.

Em 2026, você continua desenvolvendo novos projetos de Masters At Work, Nuyorican Soul e Elements Of Life, com colaborações que atravessam gerações e estilos. O que ainda faz você olhar para a frente depois de participar de tantos capítulos fundamentais da dance music?

O que me faz continuar olhando para a frente é que ainda ouço música nova na minha cabeça. Depois de todos esses anos, continuo me empolgando com sons, músicos, vozes, ritmos, texturas e a possibilidade de reunir pessoas diferentes e ver o que acontece. Nunca quero sentir que cheguei ao fim do caminho criativamente. Para mim, sempre existe outra trajetória musical a percorrer.

Com Elements Of Life, acabamos de concluir um novo álbum, previsto para março de 2027, que nos leva ainda mais para o lado jazz da música ao estilo Vega. Há soul vindo de muitas direções, uma execução musical profunda, belos arranjos e alguns artistas cósmicos muito especiais como convidados. Elements Of Life sempre foi sobre reunir universos musicais diferentes, e esse novo álbum continua esse percurso enquanto abre outras portas.

Depois, para dezembro de 2026, tenho algo completamente diferente chegando: 3001: A Disco Odyssey. É um álbum inteiramente novo, construído em torno de uma disco music do futuro, mas com o sentimento autêntico da verdadeira disco na base. Adoro a história da disco, a qualidade da execução musical, as cordas, as linhas de baixo, a percussão, os grooves e aquela sensação que fazia as pessoas quererem dançar. Mas também quero levar esse som para um lugar futurista. O álbum tem um elenco de grandes talentos e é produzido pelo 2SoulFusion, que somos Joshua Milan e eu. É outra maneira de pegar algo que amo e levá-lo adiante, em vez de simplesmente recriá-lo.

E, neste inverno do hemisfério norte, vou voltar ao estúdio com meu parceiro Kenny Dope. Vamos começar a trabalhar no nosso terceiro álbum do Masters At Work e também em Nuyorican Soul 2. Esses projetos são outro capítulo. Kenny e eu temos muita história juntos, mas nunca entramos no estúdio pensando que precisamos recriar o que fizemos antes. Estamos levando para a música tudo o que aprendemos, tudo o que vivemos e tudo o que estamos ouvindo agora.

É isso que me empolga. Não tenho interesse em simplesmente olhar para os capítulos que já escrevemos. Quero descobrir como soa o próximo. Vivemos muitas eras da música e tivemos a sorte de participar de momentos muito importantes, mas ainda sinto que há muito a explorar. Gerações diferentes, músicos diferentes, tecnologias diferentes, culturas diferentes, sons diferentes — tudo isso continua alimentando a música.

Então, quando as pessoas perguntam o que vem a seguir, fico sinceramente empolgado, porque há muita coisa chegando. Elements Of Life, 3001: A Disco Odyssey, Masters At Work, Nuyorican Soul 2 — para mim, tudo faz parte da mesma filosofia: continuar explorando, colaborando, evoluindo e nunca impor um limite aonde a música pode levar você.

É outro nível. Preparem-se!

Sua música sempre teve uma capacidade rara de atuar tanto sobre o corpo quanto sobre a memória. Quando está produzindo ou tocando, você pensa mais em movimento, emoção, espiritualidade ou tudo isso precisa acontecer ao mesmo tempo?

Para mim, movimento, emoção e espiritualidade fazem parte da música. Não separo essas coisas quando estou produzindo ou tocando. Elas se alimentam. O ritmo faz o corpo se mover, a harmonia ou a melodia podem tocar suas emoções, e então existem aqueles momentos em que a música leva você a algum lugar além do físico. É quando ela se torna algo espiritual.

Quando faz um disco, você está tentando captar um sentimento. Às vezes, talvez nem consiga explicar exatamente qual é. Você trabalha com o ritmo, os acordes, o baixo, a percussão, os vocais, o espaço entre os sons — todos esses elementos criam uma energia. Quando tudo se encontra, você sente que a música ganhou vida própria.

O mesmo acontece quando estou tocando. Seja ao vivo com a banda Elements Of Life ou na cabine fazendo um DJ set, observo o público e sinto aquela energia voltar para mim. Existem momentos em que você vê as pessoas se entregando completamente à música. Elas dançam, cantam, fecham os olhos, levantam as mãos, se conectam com quem está ao redor ou simplesmente desaparecem em seu próprio mundo.

É quando você sabe que chegou àquele espaço de transcender. E acho que essa é uma das coisas mais bonitas da música. Você pode criar alguma coisa sozinho em um estúdio, talvez meses ou até anos antes de alguém ouvi-la, e, de repente, está diante de milhares de pessoas, vendo aquela mesma música afetá-las física, emocional e espiritualmente. Você presencia o sentimento que teve ao criá-la chegar a outra pessoa.

É essa conexão que estou sempre procurando. Não se trata apenas de fazer as pessoas dançarem nem apenas de emocioná-las. Trata-se de criar uma experiência em que todas essas coisas possam acontecer ao mesmo tempo. Quando você leva as pessoas àquele lugar, àquele espaço em que elas deixam temporariamente todo o resto para trás e se conectam completamente com a música, sabe que fez algo especial.

Para mim, essa é a magia. Eu a experimento quando faço música, quando toco e, depois, consigo vê-la acontecer diante de mim com o público. Não existe nada como testemunhar essa conexão de perto. É a melhor coisa que existe.

Louie Vega retorna ao país quase 20 anos depois de sua última passagem pelo Brasil para celebrar os 11 anos da Heavy Love, no dia 28 de novembro.

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