PASSYMOLOGIA I é a primeira compilação de Passaçãum, selo criado por Clementaum, LAZA e RKills, reunindo artistas do Brasil, Nepal, Argentina, Zimbábue, Filipinas, México, Colômbia, Paquistão, Tanzânia, Indonésia e Uganda em torno de uma proposta com foco no chamado Sul Global. Seu próprio nome, surgido da aproximação entre Passaçãum e a ideia de uma epistemologia sonora, oferece uma chave para entendê-la: música e escuta não apenas como resultado de contextos culturais distintos, mas também como maneiras de produzir, organizar e compartilhar conhecimento. Há, portanto, um recorte comum entre esses artistas, sem que haja, contudo, a pretensão de encontrar entre eles uma linguagem comum.
Sul Global, afinal, nunca foi uma coordenada particularmente precisa. O termo reúne países de histórias, dimensões, economias e culturas profundamente diferentes e diz menos sobre onde eles se encontram no mapa do que sobre determinadas posições que ocuparam — e ainda ocupam — nas estruturas internacionais de poder, influência e reconhecimento. É justamente por isso que uma compilação formada por artistas desses territórios se torna interessante quando evita a tentação de lhes atribuir alguma essência compartilhada. O que une Nepal, Uganda, Brasil ou Colômbia dentro deste disco não precisa estar explícito ou ser explicado. Basta ser compartilhado.
O que existe de comum pode estar, antes, no próprio gesto de aproximação. Uma compilação é também uma pequena arquitetura de relações: estabelece vizinhanças, cria sequências e faz com que trabalhos produzidos a milhares de quilômetros passem a habitar um mesmo catálogo. Aqui, territórios que normalmente aparecem separados pelas categorias através das quais a indústria organiza sua geografia musical encontram-se sem a necessidade de que um traduza o outro, ou de que suas diferenças sejam acomodadas sob a conveniência de uma estética única. Faz sentido que seja assim. A produção artística associada ao Sul Global é marcada justamente pela diversidade de linguagens que suas diferentes condições históricas, culturais e tecnológicas engendraram.
Há uma distinção importante nesse movimento, porque circulação não significa apenas fazer uma música chegar mais longe. Significa também decidir através de quais relações ela chegará, ao lado de quem será apresentada e quais referências servirão para compreendê-la. Durante muito tempo, a discussão sobre produção cultural fora dos grandes centros internacionais esteve demasiadamente ocupada com a possibilidade de alcançar esses centros, como se reconhecimento fosse necessariamente um percurso de fora para dentro. PASSYMOLOGIA I sugere uma configuração diferente, na qual a relação entre os próprios pontos também pode produzir contexto, legitimidade e descoberta. Neste caso, pouco importa se essas músicas farão sucesso em Londres, Berlim ou Nova York. Elas já tem suas terras.
Essa é a característica mais fértil do projeto. Não demonstrar que existe produção relevante nesses lugares — constatação que, a esta altura, deveria ser banal —, mas fazer com que eles se encontrem segundo uma estrutura que não necessita estabelecer entre si hierarquia ou uniformidade. São onze países e muitas distâncias, aproximados por algo tão elementar quanto uma sequência de músicas. O mapa permanece exatamente onde estava; o que se altera, ainda que em escala modesta, é a maneira de percorrê-lo.