Algumas práticas se tornam tão recorrentes que deixam de ser questionadas. Isoladamente, podem parecer pequenas concessões ou escolhas administrativas sem grande impacto. Com o tempo, porém, a conveniência é transformada em costume e costume em regra informal, mesmo quando os efeitos recaem de maneira desigual sobre quem participa daquela relação.
Na música eletrônica, isso aparece em diferentes relações profissionais e comerciais, muitas delas marcadas por diferenças de estrutura, poder de negociação e capacidade financeira. O fato de uma prática ser conveniente para uma empresa, evento ou contratante não significa que ela seja igualmente razoável para quem está do outro lado. Em muitos casos, aquilo que simplifica uma operação apenas desloca tempo, custo ou responsabilidade para alguém com menos margem para absorvê-los.
Profissionalização também passa por reconhecer esses desequilíbrios e rever procedimentos mantidos mais pela facilidade que oferecem a uma das partes do que por serem adequados para todos os envolvidos. Eventos, agências e marcas enfrentam dificuldades financeiras e operacionais, mas isso não deveria tornar natural que suas soluções dependam da disponibilidade, do dinheiro ou da boa vontade de terceiros.
Net30 para pequenas estruturas
Receber em 30 dias pode ser um procedimento administrativo comum em grandes empresas, mas isso não significa que deva ser aplicado automaticamente a profissionais e fornecedores de menor estrutura. Um fotógrafo, designer, DJ ou prestador independente frequentemente precisa arcar imediatamente com transporte, alimentação, equipamento e outras despesas para realizar um trabalho cujo pagamento só chegará semanas depois. Na prática, quem possui menor estrutura financeira acaba financiando temporariamente uma operação maior que a sua.
Transferir custos operacionais para quem está prestando o serviço
Um cachê pode parecer adequado até que o artista perceba que dele são descontados transporte, alimentação, hospedagem, aluguel de equipamento ou outros recursos necessários para executar o próprio trabalho. Quando esses custos não são considerados na contratação, o valor anunciado como remuneração passa a cumprir duas funções: pagar pelo serviço e financiar parte da estrutura necessária para realizá-lo.
Distribuir cortesias sem critério enquanto se cobra fidelidade do público pagante
Cortesias fazem parte da operação de muitos eventos, mas seu uso indiscriminado para aumentar público, movimentar determinada faixa de horário ou compensar uma venda abaixo do esperado pode produzir um efeito contraditório. Quem comprou antecipadamente, muitas vezes por confiar no projeto, passa a assistir outras pessoas entrando gratuitamente ou pagando menos sem que exista uma contrapartida equivalente para quem assumiu o compromisso antes. O evento depende de quem compra cedo para ganhar previsibilidade financeira, mas pode terminar oferecendo condições mais vantajosas para quem esperou até o último momento. Fidelidade, nesse contexto, não pode funcionar como uma expectativa unilateral.
Transformar divulgação em trabalho obrigatório de todo contratado
No momento atual, contratar um artista ou qualquer outro profissional muitas vezes vem acompanhado da expectativa de acesso à sua audiência, mesmo que isso não tenha sido acordado. Compartilhar flyer, publicar stories, gravar vídeos, divulgar links e ajudar diretamente na venda de ingressos se tornou algo tão naturalizado que quem não participa ativamente da campanha pode acabar sendo tratado como se tivesse deixado de cumprir parte do trabalho.
Divulgar uma apresentação pode acontecer por vontade própria, por um acordo prévio ou simplesmente a partir de uma conversa entre as partes. O que não deveria acontecer é transferir automaticamente essa responsabilidade para quem foi contratado ou transformar uma recusa em falta de comprometimento. Um artista que não quer gravar um vídeo porque não se sente confortável diante da câmera, por exemplo, não deveria ser crucificado por isso.
Colaboração se constrói com diálogo e não pela expectativa de que todos os envolvidos também precisem assumir uma função no marketing do seu evento.