Nas últimas semanas, navegando pelas redes sociais, algumas impressões sobre a noite de São Paulo me deixaram pensativo. Em determinados momentos, a narrativa ganhou uma estética quase propagandista, uma sequência de anúncios grandiosos e declarações de sucesso que me fizeram questionar o que está no título: a noite de São Paulo está mesmo com essa bola toda? Entre shows gratuitos de grande porte, rankings internacionais e declarações institucionais, construiu-se uma atmosfera de celebração que parece incontestável — mas que talvez mereça uma análise mais cuidadosa.
Primeiro foram os shows gratuitos de Vintage Culture no aniversário da cidade. Depois, o bloco de carnaval com Calvin Harris, patrocinado pela Ambev e com alta promoção institucional. Em seguida, o anúncio oficial da música eletrônica como patrimônio cultural de São Paulo e, mais recentemente, o reconhecimento da cidade como a melhor vida noturna do mundo pela Resonance, uma consultoria internacional. É importante deixar claro que o objetivo aqui não é menosprezar nenhum desses acontecimentos. Eles representam visibilidade, investimento e reconhecimento simbólico para a música eletrônica paulistana. Funcionam como bandeiras positivas para atrair atenção internacional e consolidar a cidade no radar global.

O ponto, no entanto, é que todos esses marcos orbitam o mainstream. São eventos de grande escala, estruturados dentro de uma lógica de espetáculo e patrocínio corporativo, pensados para impacto massivo e para a geração de imagens. Ao mesmo tempo em que demonstram força, também revelam um modelo cada vez mais centralizado, no qual grandes marcas capturam a maior parte do valor simbólico e financeiro gerado pela festa. Esse modelo cria visibilidade, mas nem sempre fortalece o ecossistema que sustenta a cultura no dia a dia.
Existe uma diferença entre espetáculo e ecossistema. A cena de São Paulo historicamente foi construída por uma base orgânica, por coletivos, ocupações e circuitos independentes que operavam muito antes de qualquer chancela corporativa ou institucional. Lembro quando comecei a viajar para a cidade em busca de experiências de pista, isso há cerca de dez anos, havia uma sensação clara de efervescência. Minha primeira vez no D-EDGE foi um choque estético e sonoro; ali estava uma atmosfera clubber urbana que eu ainda não conhecia. Paralelamente, núcleos como Gop Tun, ODD, Capslock, Mamba Negra e diversos outros consolidavam um momento singular na noite da cidade, além de estarem revelando uma geração de artistas e produtores que ajudaram a redefinir a noite da cidade.
Não era uma época perfeita e é ilusão pensar dessa forma. Havia dificuldades estruturais, conflitos, limitações financeiras e incertezas. Mas havia também um senso coletivo de construção, uma energia que partia da base e alimentava o topo. O que vejo hoje é diferente. Há profissionalização, há reconhecimento internacional, há uma cena de listening bars que já pode ser considerada referência global e uma comunidade como um todo que, sem dúvida, evoluiu em diferentes parâmetros. São Paulo captou a atenção do mundo nos últimos quinze anos e consolidou uma reputação consistente.
Ainda assim, é legítimo perguntar e especialmente ouvir quem está na cena trabalhando de forma consistente nos últimos 10, 15, 20, 30 anos: está melhor para quem constrói essa comunidade no dia a dia? Problemas sabemos que há. Locações escassas e caríssimas, dificuldade crescente na venda de ingressos, cultura de ingressos gratuitos pressionando o modelo econômico e uma hiperinflação em toda a cadeia de eventos. Do serviço mais básico à contratação mais cara, tudo encareceu de maneira agressiva para quem produz, especialmente depois da pandemia. Enquanto isso, grandes eventos operam com contratos milionários, sub cotas de patrocínio e estruturas que priorizam marcas e ativações comerciais. Se não está fácil nem para esse tipo de evento, imagina para os que precisam se organizar sem patrocínio, sem receita do bar.
O próprio modelo recente do Carnaval paulistano ilustra essa tensão. Houve pagamento de dezenas de milhões de reais por parte do patrocinador master, venda de subcotas para outras empresas e um protagonismo crescente de blocos corporativos. Ao mesmo tempo, blocos orgânicos relataram dificuldades financeiras, explosão de custos — trios elétricos que chegam a custar vinte vezes mais — e redução proporcional de apoio estrutural. A celebração cresce em escala, mas parte da base sente-se comprimida. É nesse contexto que surge a pergunta sobre quem, de fato, se beneficia dessa expansão.
Não é sobre negar a importância do investimento privado ou da participação institucional, muito pelo contrário. A noite de São Paulo é, de fato, muito especial. Diria que única no mundo. Há talento, diversidade e uma mistura de visões que poucas cidades podem oferecer. O desafio é garantir que o reconhecimento público e os grandes espetáculos não sejam sangue-sugas da estrutura da cidade, utilizando sua infraestrutura e sua potência cultural sem redistribuir valor de maneira mais ampla.
O exemplo de Berlim costuma ser lembrado porque ali o poder público reconheceu a vida noturna como ativo estratégico e, mais do que promovê-la, passou a protegê-la em diferentes níveis. Criou-se política urbana, mediação com proprietários, mecanismos de preservação e incentivos estruturais. Para além do marketing, teve um planejamento de longo prazo. Se São Paulo deseja consolidar sua posição global, talvez o próximo passo seja justamente aprofundar essa conversa com coletivos, produtores e artistas que sustentam a cidade fora do radar das grandes manchetes.
Celebrar é importante. Rankings, shows para milhares de pessoas e reconhecimento patrimonial têm seu valor simbólico e político. Mas é preciso cuidado para que essas boas notícias não ocultem o real estado de saúde da cena. O desafio agora não é apenas crescer em escala, mas amadurecer a estrutura. Que a noite de São Paulo encontre um caminho mais sustentável, diverso e acessível para quem deseja viver dela artisticamente e profissionalmente. Hoje, essa ainda não é uma realidade amplamente possível. Talvez seja aí que esteja a diferença entre estar maior e estar, de fato, melhor.