Um mergulho nos impressionantes 40 anos de história da Bielle

Começa aqui um dos maiores desafios editoriais desde a minha chegada no Alataj. Escrever sobre artistas, labels e clubs/festas dos quais sou fã não é sempre uma tarefa fácil porque há um peso na informação que chega até você e fica registrada nestas páginas, além da forma com que ela é transmitida, então há uma boa dose de cautela e carinho na produção dos conteúdos. Mas escrever sobre o Bielle Club é não apenas uma responsabilidade imensa perante os que acompanharam sua história e lerão esse material, mas é especialmente pra mim, porque eu simplesmente não estaria vivendo da música eletrônica se não fosse por essa casa, então escrever sobre sua jornada é também escrever parte da minha.

Daí que você pode estar se perguntando “por que esse club merece um editorial especial?”. Bom, são alguns fatores que você descobrirá ao longo desse texto, mas acredito que o ponto chave é a influência dele em toda uma região afastada dos grandes centros e desde uma época em que pouco ou nada se falava sobre música eletrônica no interior do Paraná. Foi o ponto de partida de uma maioria esmagadora de amantes do gênero que eu conheço dessa que hoje considero uma região prolífera e de grande destaque no cenário da música eletrônica nacional, com um calendário extenso e muito agitado de eventos, atualmente produzidos integralmente por núcleos independentes e produtoras – mas sobre isso eu falo um pouco mais tarde.

O Bielle Club abriu suas portas na cidade de Cascavel, no oeste do Paraná, em 11 de setembro de 1976 e só por isso já dá pra entender algumas coisas. Foram 40 anos em atividade e a sustentação da vida noturna de algumas gerações. Sim, meus pais frequentavam a Bielle, tios, avós de alguns amigos, e todos tem suas memórias de diferentes perspectivas, já que o club foi se adaptando e evoluindo ao longo dos anos. É óbvio que a música eletrônica não era o som que rolava no início e era possível curtir diversos estilos, do Rock ao momento balada para dançar coladinho, mas desde os primeiros anos a Disco Music estava muito presente e o som já era comandado por um DJ (minha mãe me passou essa informação).

E quando eu falo em DJ vou explicar como funcionava naquela época, e isso não apenas na Bielle: o club tinha um acervo de músicas em vinil e vinha um encarregado para fazer uma sequência com o que tinha em mãos, já que comprar esse material não era das tarefas mais fáceis e baratas. Essa figura também sequer era conhecida e a cabine ficava escondidinha no segundo andar da casa, então o DJ entrava e saía como um completo estranho, bem diferente do que a gente vive hoje em dia, não é? Um fato peculiar que merece ser citado é que, em algum momento nesse início, a música New York New York, de Frank Sinatra, foi a última tocada na festa e assim aconteceu uma, duas, três vezes, eis que foi instituída como a faixa de encerramento de todas as noites, ou seja, tocava New York New York, era hora de partir.

O tempo foi passando, a música eletrônica foi crescendo e na mesma medida artistas também foram ganhando notoriedade e nos anos 90 o club já trouxe nomes que encabeçavam nossa cultura no país. Marky, Patife, Leozinho e Paciornik, Fabrício Peçanha foram alguns nomes que subiram nas cabines à época (agora no seu devido lugar, pertinho da pista de dança). Aliás, foi na Bielle a primeira apresentação de Renato Ratier fora de Campo Grande, lá em 1997, artista recorrente em toda a história do club. Os anos 2000 chegaram e aí a casa foi praticamente dominada pela música eletrônica e os nomes internacionais começaram a aparecer. Dave The Drummer e Chris Liebing foram grandes destaques em 2002, além dos artistas nacionais que já dominavam as datas há um tempo. Além dos já citados no parágrafo acima, DJ Mau Mau, Renato Cohen, Anderson Noise e Murphy eram grandes figuras das noites na Bielle. Murphy aliás foi residente da casa por um tempo. 

Andando junto com o boom da cultura eletrônica no Brasil o club foi evoluindo, experimentando novas sonoridades, apostando em novos artistas e daí pra frente a lista de noites memoráveis é extensa. Como uma casa que atendia um público bem abrangente dentro do estilo, a Bielle não se ateve a um gênero apenas e ao longo dos anos apresentou diversos artistas que iam do Techno ao House ao Tech House ao Trance ao Psy (por que não?) e assim em diante. Falharei miseravelmente na hora de trazer os nomes, eu sei, mas posso citar Layo & Bushwacka, Bookashade, Sander Van Doorn, D-Nox, Pet Duo, NTFO, Dimitri Vegas & Like Mike, Don Diablo, Lou Lou Players, Kolombo, Karmon, Sharam Jey, Popof, Kanio, Boris Brejcha, Paranormal Attack… 

Se dos internacionais sinto que falhei, trazer os nacionais fica pior ainda. Honestamente, não conheço muitos DJs que não que não tenham passado pela Bielle. Parece meio absurdo, mas é verdade. Gui Boratto, Davis, Ale Reis, Aninha, Leo Janeiro, Junior C, Gromma, Fabo, HNQO, Elekfantz, Albuquerque, Boghosian, GABE, Chemical Surf, Victor Ruiz, Gabi Lima e muitos, muitos outros nomes, lembrando que todas essas apresentações foram encerradas com o famoso New York, New York e sem nenhuma objeção de um artista sequer. Alguns já estavam até acostumados e quando perto do encerramento da apresentação já avisavam que a equipe podia preparar a música (é serio).

Além dos nomes mais conhecidos, a Bielle completava o line sempre com artistas da região e aqui está um ponto muito importante. O club foi imprescindível para o impulsionamento do cenário da música eletrônica não apenas por trazer novos sons, apresentar estilos e artistas, mas muito também dando oportunidades a novos talentos do oeste do Paraná e apoiando núcleos independentes através de festas dos labels. Alguns deles deram seu pontapé por lá e seguem ativos. Hoje, o oeste do Paraná é uma das regiões interioranas mais intensas do Brasil quando o assunto é música eletrônica, com showcases de marcas renomadas como Warung e D-EDGE, núcleos independentes que trazem figuras super conceituadas mundialmente nos mais diversos estilos e eu aposto que a grande maioria dos participantes desse cenário tem a Bielle como uma peça importante em suas histórias.

Mais do que música e a sua curadoria, o club também foi referência em outros quesitos ao longo dos anos como estrutura, abrigando 1.200 pessoas na casa e realizando diversas reformas no decorrer de sua trajetória, soundsystem de ponta, equipamentos modernos, projeto de iluminação assinado por profissionais gabaritados, entre outros fatores. Também é inegável seu pioneirismo em termos de promotoria e divulgação. a Bielle sempre buscou inovar em suas formas de comunicação com o público e inspirou muitos outros produtores ao longo dos anos. 

Em 23 de dezembro de 2016, após 40 anos em funcionamento, o Bielle Club abriu suas portas pela última vez e encerrou suas atividades como a casa noturna que mais permaneceu ativa na história do Brasil. Foi a última vez que eu também ouvi New York New York naquela pista e sim, caíram algumas lágrimas. Está aí uma grande e relevante história. Termino este editorial agradecendo imensamente ao trabalho desenvolvido e paixão depositada à família Carlesso, Diva, Paulo, Marcelo, grandes responsáveis pelo club, e outros personagens também imprescindíveis em sua trajetória como o Guga, Adolfo Luiz, Lucas Stiw e a todos os artistas que deram um pouco de si para fazer a pista dançar. O meu mais sincero e profundo agradecimento! <3

A música conecta.