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Editorial | Chill Baile: O movimento que trouxe uma nova roupagem para o Funk

Pergunta: O que vem a sua mente quando você pensa em Funk? 

O gênero dos anos 70, “eu só quero é ser feliz…”, o pout pourri clássico do Furacão 2000, Anitta ou o Brega chiclete e divertido da MC Loma? Bom, esperamos que todas as anteriores e muito mais. Eis aqui duas boas razões:

Primeiro porque pela ótica da pesquisa, seria pouco encapsular uma vertente musical expansiva e popular dentro de um único rótulo. Segundo, porque se você é profissional da música ou trabalha com cultura e/ou entretenimento, deveria ter o Funk em seu radar, assim como já tem o Pop e a Dance Music mainstream, por exemplo. Aliás, esses três interagem o tempo todo. Falamos aqui no Alataj como é estratégico observar nichos distintos – e desprender-se de preconceitos – já que todos os rolês têm algo a nos ensinar. Já fechamos um episódio do Radar com Rave de Favela de Anitta, MC Lan e Major Lazer e a relevância disso é inegável, os pranchetas que lutem. Se você pensa que os movimentos que alcançam as massas e geram uma montanha de dinheiro não tem nada para ensinar, olhe outra vez. Deixo a ressalva que, assim como tudo, há dualidades. Já contei a história e elenquei o lado bom, dificuldades e as problemáticas aqui.

Pois bem, já que refletimos, vamos para outro questionamento: você conhece o Chill Baile? 

O Chill Baile ou Future Baile, como já sopra seu nome, tem em sua composição rítmica diferente. O termo “baile” aqui vem de um apelido gringo que vingou no SoundCloud – plataforma onde o estilo independente performa muito bem – pinçado da expressão “Baile Funk”, para se designar ao Funk como ele é. A palavra ‘chill’ vem para caracterizar algo sonoramente mais leve e smooth, não necessariamente mais lento. Pode-se dizer que é o encontro das águas entre o Chill Trap e o Funk, mas honestamente a parte técnica eu deixo para quem entende. Essa sub-vertente tem mexido progressivamente com as estruturas musicais pela riqueza e mistura sonora que abarca em si, tornando-se cada vez mais evidente em nível mundial. A batida, a melodia e vocais que reinam nas pistas fervorosas do rolê se misturam ao que até então era inimaginável. Mas, em se tratando de música, só é “inimaginável” porque ninguém chegou lá ainda. 

O foco de estudo aqui resulta em algo esteticamente novo. E de onde veio essa ideia? Segundo Carlos do Complexo na matéria Reino do Funk para o portal da marca Red Bull, o som que hoje é assim batizado era algo que ele, Kojack e o Sango faziam desde 2014, à distância, e que na época levava o rótulo de New R&B. Como é uma sub-vertente recente, é até mesmo desafiador precisar fatos. Mas durante a pesquisa sonora sobre isso, você vai notar que a esfera de atuação vai muito além das duas vertentes macro que dão o tom aqui. O Chill Baile vai trazer samples de Samba, Bossa Nova, Lo-Fi, Hip Hop, Chill Hop, Ambient e por aí vai. Não há uma normativa estética do que pode ou não pode. Cria-se livremente e eu, particularmente, considero essa mistura de passado e presente a parte mais admirável. 

Afinal, quase todos os gêneros musicais que encontramos hoje se convergem em um mesmo ponto: o passado. Está tudo lá, é só começar a desenhar a árvore genealógica de qualquer som contemporâneo. Um novo rótulo vem da mistura ancestral com uma habilidade que move o planeta mais que a translação, que é o ato de inovar. Os futuristas vão além. Afinal, eles têm a ousadia de revisitar o passado, honrá-lo e trazer algo vanguardista e arrojado. Segundo o livro Uma árvore da música brasileira, de Guga Stroeter e Elisa Mories, desmembrar a música e criar novas gravuras pode gerar alcance sociológico. E o que conclui, é que se você não curte Funk propriamente dito, pode vir a curtir Chill Baile e eis o alcance. Um adendo: se quiser passar o resto da sua vida conhecendo o desdobramento musical, vou deixar essa belezinha aqui: 

Essa base de estudo sociológica vai além quando pensamos na força do movimento. O estilo, ainda tão discriminado, tem gerado uma metamorfose no imaginário cultural. É a música eletrônica de pista da periferia, mas não esqueçamos que House e Techno vieram do mesmo lugar. Ele se tornou uma válvula de escape das comunidades, promovendo um movimento de inclusão entre as pessoas inseridas nesses cenários e tirando o foco da criminalidade. Além disso, atravessa fronteiras raciais e sociais, traz a resistência contra formas de opressão e empodera mulheres em fatia onde o machismo ultrapassa barreiras estruturais. A importância disso tudo é inquestionável.

Sango, produtor de Seattle, foi um dos nomes de fora que constatou isso. Foi no encontro da Internet que o artista, sempre curioso por nossa cultura, encontrou peças-chaves do movimento e decidiu explorar mais sobre a cultura musical da periferia brasileira. Ele, um artista negro, de Detroit, tem em sua raiz ancestral o Techno. Em 2016, veio para o Brasil e a costura dessa ideia começou a acontecer com nomes que já estavam desmembrando e misturando o estilo por aqui: Carlos do Complexo MC Delano, DKVPZ, Luccas Carlos, JXNV$, BK, SD9 e VHOOR fizeram essa engrenagem girar. Tivemos a oportunidade de entrevistá-lo aqui no Alataj. De lá pra cá, ele lançou quatro álbuns da série Da Rocinha (Soulection), uma homenagem a um dos berços do Funk brasileiro e que revisita o som através de diversos recortes e collabs nacionais. Além do óbvio, tem referências do Techno Detroit, Trap, R&B e do Soul. Lembram da história de honrar o passado? Calma que tem mais.

Uma das embaixadoras do Funk, Deize Tigrona, disse em uma entrevista: “eu sempre dizia que as letras iriam ser as mesmas, mas a batida iria mudar, o gênero vai continuar”. Seguindo a lógica de propagação vinda da Sociologia, Deize acertou em cheio. Ao longo dessas quatro décadas de evolução, esse som vem ganhando cada vez mais espaço fora do país. O estilo se comporta de maneira distinta regionalmente falando, tanto no Brasil como no mundo. Will.I.Am, Mia, Diplo, Drake foram alguns grandes nomes que o abriram em nível internacional. Sango foi além e co-criou, mas engana-se quem o interpreta como sendo um americano que ficou famoso com o que é do Brasil. Pode-se dizer que é um artista gringo, referência mundial como beatmaker, que mergulhou de cabeça em nossa cultura e deu mais oportunidade e voz para artistas brasileiros do que muitos de nós.

Essas mentes futuristas, inovaram e criaram um novo estilo e uma nova ponte. Estamos aqui contando história ao passo que ela se desdobra. E isso nos leva diretamente a um nome: VHOOR. Victor Hugo Oliveira Rodrigues foi um dos artistas que aparecem nas collabs com Sango e teve suas músicas propagadas pelo mundo. Ele já tem quatro álbuns lançados em seus 20 e poucos anos e é um dos cabeças do Baile Room, um movimento que funciona como um laboratório experimental dessas sonoridades. Victor honra fielmente a paleta musical brasileira e é um ótimo nome para começar a entender o Chill Baile feito aqui. Agora mesmo, há poucos dias, ele liberou a faixa Primavera, single inicial que marca a chegada do álbum Ritmo, que fará reverência à música nordestina.

Partindo da análise regional no modo como o Funk se manifesta, esse é o som que vem de Belo Horizonte, cidade que vem desempenhando um papel interessante sobre essa metamorfose. Outro projeto interessante de lá que cruzou as pesquisas é o coletivo feminino Fenda, que também testa essas sonoridades e contribui na educação sonora local. 

Além desses, há outros aqui que exploram essas camadas da Beat Scene, como o projeto DKPZ, JLZ, Paulo e Tui , artista que faz parte do coletivo INVDRS,  aqui de Curitiba que me ajudou a mapear alguns artistas espalhados pelo Brasil: Enzo, Nath, Badsista, Maffalda, Vini, Larinhx, Dola, Sansai, Pep e Klap, só aqui ele já nos entregou uma super fonte de pesquisa. Tui completou a dica com o seguinte: “ao escutar você vai ver que, por mais que seja Chill Baile, parece que cada um produz uma parada diferente. Acho que isso se dá muito pelo fato de não ter uma escola super antiga como o House ou o Techno, então meio que a galera se baseia na própria bagagem musical e vai tirando uma pira”.

Como mencionei anteriormente, a história tem sido escrita enquanto acontece. Esse é o momento presente para o gênero, mais uma maneira de expansão do Funk, estilo esse que encabeça o topo da lista como o segundo mais ouvido no Brasil no Spotify – perdendo somente para o Sertanejo. Já diria o mestre Marlboro, no documentário Funk Brasil (Mídia Ninja): “esse será um movimento cultural grande pra caramba, vai conquistar o mercado internacional, eu só não sei se estarei vivo quando isso acontecer”. Pensando bem, está acontecendo. E se ainda restam dúvidas sobre essa força, no final de semana passado, Cardi B usou um recorte da faixa Fica de Quatro, de Pedro Sampaio, durante sua apresentação bombástica no Grammy. Isso virou notícia mundial, meme, tiktokice, trend topic e por aí vai.

Para fechar, depois desse passeio, deixo o link da playlist oficial de Chill Baile no Spotify para você entrar de cabeça nesse estilo que tanto promete.

A música conecta.

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