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Editorial | Por que o Daft Punk acabou?

“O homem é menos ele mesmo quando fala na sua própria pessoa. Dê-lhe uma máscara e ele dirá a verdade.” Oscar Wilde

Minutos de reflexão sucederam após a leitura dessa frase. Escrita pelo irlandês em 1981, ela reverbera impecavelmente em tempos presentes e extremos, onde relações superficiais e redes sociais ocultam vidas e personalidades reais em uma capa de perfeição e glória para olhos alheios. O ser humano é fruto do meio em que vive pois, mesmo com o livre (ou não tão livre) arbítrio de seus atos e pensamentos, sem até mesmo perceber que é capaz, reproduz condutas, pensamentos e ideologias sob influência de um conglomerado de fatores sobre os quais não convém tratar no momento.

Fato é que, rumando em direção contrária à massa, ao longo da história da humanidade existiram mentes inquietas, idealistas e rebeldes que, mesmo sofrendo resistências em sua grande maioria, influenciaram gerações, criaram novos movimentos e, em um âmbito muito mais complexo, mudaram o rumo de muitas histórias. Uns fizeram através de suas lideranças, outras de obras literárias, publicações de estudos, por invenções e descobertas revolucionárias e também através da arte, capaz de transmitir tantas ideias, pensamentos e sentimentos genuínos sem proferir ou escrever uma palavras sequer, ou sem até mesmo identificar seu autor ou autora.

Sem proferir uma palavra sequer: foi assim no epílogo publicado pelo duo francês Daft Punk nesta segunda-feira (22), em um anúncio do encerramento do projeto após 28 anos de existência. No vídeo de praticamente oito minutos não há uma troca de palavra, não há expressões corpóreas carregadas. Em sua grande parte também não há música, mas a mensagem é limpa como o céu que pinta o cenário e causa certa ansiedade, surpresa, angústia e emoção. Foi um anúncio muito bem pensado e com uma mensagem que ao final abraça e faz um convite à esperança. Brilhante, assim como tudo que norteou o trabalho da dupla.

Aos que imaginaram que esta era uma produção inédita, ledo engano. O vídeo faz parte do filme Electroma, produzido por Daft Punk em 2006, em colaboração com Paul Hahn e Cédric Hervet. A obra original conta a história de dois robôs que desejam ser humanos e, diante do fracasso, decidem aniquilar sua existência em um fim bem mais pesado do que o exibido no curta desta semana. Mas foi justamente o filme, lançado em Cannes dois anos após o terceiro álbum da dupla, Human After All, que nasceu o primeiro rumor de que o Daft Punk chegaria ao fim.

Naquela época, cogitar essa possibilidade também chocou toda a comunidade artística e fãs pelo mundo, afinal, a dupla já era considerada simplesmente um ícone absoluto da Dance Music que, desde o seu primeiro álbum, Homework, fez a música eletrônica respirar de outra forma. Não apenas pela revolução sonora que acompanha cada álbum, mas o impacto causado em todo o cenário, elevando o estilo a um patamar nunca visto antes neste meio, sem perder em momento algum o nível do trabalho, mas invadindo rádios, TVs e, é claro, incontáveis pistas de dança.

Mais do que isso, o Daft Punk também já carregava uma importante mensagem consigo quando foi capaz de alcançar o cume da montanha através de personagens robóticos, velando seus rostos com capacetes, negando um conceito  “hollywoodiano” da música que crescia – e cresce – cada vez mais ao longo dos anos, onde a notoriedade faz dos artistas superestrelas e não raramente afasta-os do que realmente importa: a própria música. Para os franceses, a ideia sempre foi compartilhar seu som mais verdadeiro, não importando quem estava por trás dele, e não se renderam à fama através da própria imagem até o fim.

Agora, aos que imaginam que aqui se contará a trajetória de Thomas Bangalter e Guy Manuel de Homem-Christo, mais um engano. Discorrer e analisar essa história obrigaria um espaço dedicado apenas a ela e hoje basta digitar o nome do projeto em qualquer plataforma de pesquisa para encontrar centenas de materiais sobre o assunto. Nós mesmos dedicamos um episódio do programa 4×4 comigo e Kaká Franco para homenagear a dupla e nele você encontra também fatos curiosos, comentários sobre suas obras e escuta faixas que simbolizam seus anos de existência. 

Após os rumores de 2006, houve ainda outros momentos em que se pensava que nada mais seria produzido por eles. Agora, o anúncio da ruptura foi feito oficialmente e a pergunta que fica é: por que o Daft Punk acabou? Em meio às tentativas de responder esse questionamento, grandes sentimentos de pesar, poucas (mas existentes) críticas em tom de alívio e duas outras perguntas surgiram: “mas o Daft Punk já não tinha acabado?” e “será que realmente acabou?”. Aqui – assim como em qualquer outro veículo de comunicação existente neste planeta Terra – não se encontrará resposta oficial ou precisa, mas sim uma análise do seu trabalho que pode trazer alguns indícios e um desenrolar da introdução reflexiva apresentada. Valerá à pena, confie.

O Daft Punk não esperou o susto do Electroma tomar força e em 2007 eles realizaram o que é considerada uma das – se não a mais – famosas apresentações do festival Coachella, que deu início a uma gigantesca tour mundial através do show Alive. A produção era algo jamais visto para a época e mostrou a força que a dupla ainda tinha. Em 2010 a aparição veio através da trilha sonora de Tron: O Legado, mas trabalhos autorais vindos do seu estúdio nunca mais aconteceram desde 2005, reforçando uma ideia de que não aconteceriam novas e expressivas produções da dupla.

Eis que 2013 chega de forma arrebatadora com a apresentação de Random Access Memories, que já em sua campanha traz referências do cenário da música dos anos 70 e 80. Entender o conceito por trás do álbum, seu processo de produção em estúdio e as enormes colaborações em algumas faixas levantam alguns indícios e questionamentos em torno da ideia de que eles já soubessem que aquele seria o grand finale do projeto e, em uma das raríssimas entrevistas fornecidas pela dupla, Bangalter reforça uma ideia de fechamento de um círculo, um retorno ao início e um certo descontentamento com o rumo que tomou a música.

A começar pelo título “Acesso a Memórias Randômicas”. O álbum é um retorno completo aos anos 70 e 80 em todo o seu processo, seja criativo ou de produção. New Wave Pop, G-Funk, Disco em sua versão mais alegre, um Funk mais emotivo, referências psicodélicas e até mesmo Trap estão entre os estilos que compõem a obra. A intenção da dupla era trazer as sonoridades que tocavam nos clubs mais emblemáticos da época, como o Paradise Garage, em Nova York, em um resgate do que precedeu a música eletrônica, ou seja, seu início.

A produção veio acompanhada de lendas da música e ícones da cena contemporânea para trabalhar em colaboração com um conjunto de instrumentos analógicos jamais vistos na música da dupla. Aqui mais um momento de “fechamento”, mas dessa vez também parece haver um peso muito pessoal de sua história. Os veteranos Nile Rodgers, Giorgio Moroder, Todd Edwards e Paul Williams, além de representarem brilhantemente o período musical desejado, são ídolos do Daft Punk desde o início da carreira. 

Destaque para o ator, cantor e compositor Paul Williams, que atua e assina a trilha sonora do filme Phantom of the Paradise (1974), obra responsável pela ideia de cobrir seus rostos enquanto artistas. Aliás, a faixa Touch, cantada por Williams e escolhida para ser a única tocada no epílogo, é considerada por eles o centro de todo o álbum e passa uma mensagem de memórias e amor reconfortante em tempos tão nebulosos.

Realizar um sonho de atuar juntamente com figuras tão importantes para a dupla, além de levá-los ao início de suas carreiras, pode dar uma ideia de “dever cumprido” ou de que não haveria mais para onde evoluir com um feito tão imponente em sua trajetória, considerando também que o álbum, apesar de algumas críticas, foi uma explosão mundial, ganhando simplesmente cinco Grammys, incluindo melhor música e álbum de 2013.

Outro fator para considerar é que todo o processo de produção foi realizado quase que integralmente da mesma forma que nos anos 70 e 80, gravado em estúdios tradicionais e em uma fita analógica. A justificativa vem carregada de um desagrado do Daft Punk sobre o caminho tecnológico seguido pelo cenário que roubou a mágica da criação musical. Para eles, o mistério é parte imprescindível na concepção da arte e hoje, com a acessibilidade da tecnologia, qualquer um pode criar e saber de que forma a arte se fez e, no momento em que se sabe como a mágica acontece, não há mais mágica.

Random Access Memories também é para eles uma forma de resgatar estilos musicais e de vida esquecidos com uma rotina em meio aos computadores. Disse Thomas na entrevista que citei acima que “é muito estranho como a música eletrônica se formatou e esqueceu que suas raízes são sobre a liberdade e a aceitação de todas as raças, gêneros e estilos de música nesta grande festa”, o que poderia alertar para um cansaço ou desistência do cenário que os desestimularam a trabalhos futuros.

Há também a possibilidade dessas suposições serem apenas teorias malucas como as das séries de TV famosas e misteriosas que o mundo acompanha hoje, e eles apenas decidiram encerrar os trabalhos sem motivo aparente. Mas se tem algo que acompanha a carreira de Daft Punk desde muito cedo é a assertividade de suas decisões e aparições. Disse Pharrell Williams no documentário Daft Punk: Unchained (2015) que “tudo é conciso. Existe uma razão para tudo. Nada é feito por coincidência, acidente ou erro, é sempre uma intenção real e verdadeira, feito para servir um propósito”.

Isso nos leva a indagar também se a cena de Electroma reproduzida no epílogo já tinha seu propósito lá em 2006. Não se sabe, assim como muito não se sabe sobre Daft Punk que não seja o que eles querem de fato que saibamos. O que se sabe realmente é que eles acabaram. Mas, será mesmo? Estamos vivendo o fim de uma era musical ou está aqui mais uma sacada de marketing brilhante da dupla? Ficou o mistério, palavra que acompanhou a dupla em todo o caminho.

Garimpar todas essas informações e tentar interpretá-las possibilitou conhecer muito mais sobre conceitos por trás do duo e, ao final, tem-se a certeza de que não, não é o fim. Assim como grandes líderes da história e gênios da ciência e arte, vai-se o tangível, fica o legado. E o que Daft Punk deixa é muito valioso e ultrapassa barreiras musicais. Em termos artísticos, mostraram que, mesmo encontrando uma “fórmula” de sucesso, eles nunca se ativeram a ela e cada álbum demonstra claramente isso. A inquietude foi força motriz para um caminho de experimentações, gostando o público ou não.

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O sucesso não deveria, nunca, estacionar mentes criativas e fazê-las produzir mais do mesmo – ainda que seja o próprio mesmo – em um conforto criativo para manter posição e notoriedade no mercado. Enxergar um movimento como esse é ver também uma estagnação do forte poder da mente humana de traduzir sentimentos em manifestações que, além de apresentarem infinitos conceitos, carregam vida, mensagens e sentimentos capazes de gerar identificações importantes na sociedade.

Também é notável a confusão entre artista e persona no meio da música e o que hoje é um grande mercado foi tomado por superficialidades, deixando muitas vezes de lado a razão de existir da arte. Precisamos de fato saber o que artistas têm no seu armário e qual seu produto de pele preferido? Não. Precisamos mesmo é voltar a entender a música como grande companheira para todos os momentos, influenciadora de ideologias e unificadora de tribos. Em um mundo tão conturbado, a arte é a única coisa que precisa remanescer neste mundo de robôs que vivem em um cotidiano automático, pois ela é capaz de nos tirar do centro e impulsionar o questionamento do que e quem nos cerca.

Foi escondendo suas personalidades que eles falaram pouco ou nada de suas próprias pessoas e muito – e verdadeiramente – através de capacetes robóticos. Talvez seja de fato isso. Não são apenas Daft Punk os robôs, mas sim todos nós, e lá estavam eles, rebeldes como o Punk sempre foi, tentando resgatar o que de humano temos dentro de cada um, em um pacote sonoro intenso, com letras profundas e que celebram a vida, a dança, as memórias, as relações e, principalmente, o amor. 

Que possamos, através do seu legado, sermos mais livres através da música, celebrar com união e dançar, mais uma vez, e outra, e outra, e outra.

Music’s got me feeling so free
Celebrate and dance so free
One more time

A música conecta.

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