Global Underground Series: História e Legado

É impressionante acreditar que toda a história da música eletrônica, desde o primeiro disco girado em uma turntable, é compreendida em um espaço de tempo inferior a 50 anos. Mais incrível ainda é saber que a consolidação mundial dessa indústria aconteceu em meados dos anos 90, o que permitiu a muitos de nós acompanhar toda a curva mais expressiva de seu desenvolvimento desde o início. 

Não é fácil apontar um único fator ou acontecimento que catapultou a cena eletrônica de um ato de resistência de minorias sociais, reservado a pequenos porões escondidos em algumas metrópoles, para a potência musical que assume hoje em nível mundial. Nem seria justo. Porém, é possível destacar alguns players que marcaram sua contribuição nessa história, como fez a gravadora britânica Global Underground.

Em uma época em que os DJs não passavam de figuras pouco conhecidas, responsáveis apenas por mixar algumas faixas atrás dos decks e fazerem a pista dançar, Andy Horsfield, fundador do label, entendeu que era preciso dar mais protagonismo aos artistas que garantiam a lotação dos clubs por onde passavam. Sua ideia principal foi mudar a estética das capas de CD – lembre-se que estamos falando de 1990 – substituindo as artes que davam ênfase total à gravadora responsável pela sua assinatura por uma versão que valorizava mais a presença do artista.

Em novembro de 1996, foi lançada a primeira edição da Global Underground Series: um set de Tony de Vit gravado ao vivo no club Alenbi 58, em Tel Aviv. Um retrato de meio rosto de Tony de Vit ocupava a porção principal da capa, acompanhado de seu nome e do nome da gravadora. No encarte que recheava o CD era possível encontrar mais detalhes sobre o set e a locação escolhida.

Parece uma mudança pouco significativa, mas esse formato criado por Horsfield alterou toda a dinâmica da comercialização de música eletrônica na época e seus reflexos são percebidos até hoje. A Global Underground Series estipulou as regras fundamentais para a gravação de mix series de sucesso e com relevância atemporal. 

Lugares inusitados ao redor do globo, artistas escolhidos a dedo, munidos do que havia de melhor em sua maleta de CDs, e uma sessão de fotos em formato editorial no destino escolhido formavam a receita que deu vida a todas as edições seguintes da série. O material era apresentado sempre em dois CDs e acompanhados pelo clássico encarte com algumas fotos do artista e do destino onde foi gravado o set.

Entre as 43 edições publicadas de 1996 até hoje é possível encontrar nomes como Nick Warren, Solomun, Sasha e John Digweed, para citar apenas alguns. Muitos dos quais estavam ainda no estágio inicial de sua carreira e conseguiram chegar ao estrelato graças ao empurrãozinho oferecido pela Global Underground.

Em 2010, após fusão da gravadora com a Ministry of Sound e alguns contratempos internos, o label interrompeu as produções da Global Underground Series por alguns anos. A primeira edição após esse hiato trouxe a poderosa participação de Solomun em sua cidade natal, Hamburgo, em 2014. 

Apesar de continuar ativa até hoje, sendo a participação mais recente de Joris Voorn com um set gravado em Rotterdam e lançamento agendado para o dia 30 de outubro, a icônica série britânica perdeu força desde meados dos anos 90, principalmente por causa do seu formato, que já não se adequa tanto ao atual hábito de consumo da grande maioria dos ouvintes atualmente.

Embora a Global Underground sustente sua filosofia de lançar todas as edições da série em CD até hoje, o selo também passou a disponibilizar as faixas pelos principais serviços de streaming e todos os sets, desde a primeira edição, estão disponíveis na íntegra na plataforma do MixCloud. Já as edições físicas, ganharam maior reforço de imagens e informações no catálogo e passaram se posicionar como verdadeiros artigos de colecionador. 

A música conecta.