Editorial

Editorial | O que explica a longevidade de alto nível dos veteranos do House e Techno

O que explica a longevidade de um artista? Simples, sua paixão pela música de pista e seu comprometimento pela arte da discotecagem. Espero ter ajudado! 

Brincadeiras à parte, parece uma pergunta bem fácil de se responder, mas acabei descobrindo que não é. A primeira resposta que me veio à cabeça quando me fizeram essa pergunta se baseava em um argumento só: porque ele/ela é foda!

Tá, mas e aí? Só isso? De fato, um(a) artista conseguir manter sua carreira viva por décadas não é tarefa fácil e esse feito por si só ja o(a) torna foda, mas obviamente que tem muita coisa pra ser entendida aí. O “porque ele/ela é foda” nada mais é que um bosquejo de toda uma trajetória percorrida por um artista entre seus altos e baixos. Às vezes a trajetória em si nem é a causadora de tal longevidade, um único acontecimento na vida de tal artista pode bastar para garantir uma carreira longa ou algo perto disso.

Há também casos de artistas que passaram a ter essa tal longevidade após suas vidas, e por mais bizarro que isso possa soar, é algo bem comum e rola em todas as áreas. Quem aqui nunca descobriu o trabalho de alguém já falecido e ficou imaginando o quão legal seria prestigiar tudo isso ao vivo? Te dedico essa, Freddie Mercury

Mas, como essa pergunta pode escalonar para um papo filosófico e contemplativo – o qual eu adoro -, vou sintetizar através de exemplos que fui adquirindo nessa década e meia como DJ e produtor musical do que entendo como uma carreira longeva, importante e de singularidade dentro da House Music e do Techno. Eu não tenho dúvidas de que você que está lendo esse texto vai sentir falta de algum artista nesse editorial, mas os exemplos que vou dar aqui são os que estão na minha estante de discos, logo são os que me vem a cabeça mais rapidamente possível, tudo bem? No hard feelings, right? 

Underground Resistance

Do I Have A Life Or Am I Just Living? |

Na carne, visceral e sem medo. Foi contrariando todas as estatísticas que o Underground Resistance se tornou um marco dentro do Club Culture. Inicialmente formado por Jeff Mills, Mad Mike e Robert Hood em 1989 na cidade de Detroit, o UR é creditado por ser responsável por esculpir a sonoridade que o Techno vindo de Detroit teria. Por sua vez, o Techno de Detroit influenciou sonicamente as sonoridades que o Deep House, o Dub Techno e o Tech House – para citar alguns – teriam.

Outro ponto importantíssimo a ser levantado sobre a relevância e longevidade do UR, é a forma de como o grupo usa da música para protestos e reivindicações das mais variadas frentes. Seja contra o governo, seja contra a indústria da música ou até mesmo contra você mesmo, o Underground Resistance tem um significado em todas as suas faixas, a exemplo Transitions, música lançada em 2002 e que pra mim tem uma das letras mais legais de todos os tempos.

O grupo sempre se renovou, servindo como uma espécie incubadora e trabalhando a personalidade musical de muitos artistas que hoje são considerados deuses dentro do cenário internacional. Claude Young, DJ Rolando, Blake Baxter, Galaxy 2 Galaxy, DJ 3000 fizeram suas passagens pelo UR além de, claro, os já citados Mills, Hood e Banks.  Outro grupo que fez parte do Underground Resistance e que quero dar destaque é o Drexciya, grandes fomentadores do Electro dentro da roupagem de música feita para a pista.

É meio óbvio entender o porque do nome Underground Resistance perdurar por tanto tempo assim, já que basicamente tudo o que nós gostamos de escutar dentro e fora das pistas foi criado ou influenciado por eles, direta ou indiretamente.

Com isso, a gente pode chegar a primeira conclusão sobre a longevidade dos veteranos: pioneirismo.

Todd Terry 

To The Batmobile Let’s Go!

Saindo de Detroit, outro camarada que tem uma carreira duradoura dentro da música de pista é o nova iorquino Todd Terry. Sua visão musical foi imprescindível para colocar a House Music em patamares que hoje estamos acostumados. Sim, outros artistas como David Morales e seus mixes e remixes também contribuíram para transformar a House Music de um movimento a um produto, mas o escolhido de hoje será Todd e você entenderá o porquê.

Bom, quero começar com o que talvez vai ser A bomba para a grande maioria das pessoas: sem Todd Terry, o Masters At Work de Kenny Dope e Louie Vega não existiria. E digo mais, o próprio Todd Terry já foi o artista responsável pelo nome Masters At Work. Sabia dessa?

Tudo começa quando Dope, que já era próximo de Terry no fim dos anos 80, emprestou o nome de uma de suas festas de rua – a Masters At Work – para ele lançar algumas de suas faixas. Como agradecimento, Todd apresentou Kenny Dope a um cara que, segundo ele mesmo, tinha tudo a ver com Kenny, e esse cara era ninguém menos que Louie Vega. 

Tá curioso pra saber como era o Masters At Work pela mão de Toddy Terry? Eu te ajudo:

Além desse feito de ter unido Dope e Vega, Terry é somente o maior remixer de todos os tempos, onde Technotronic, Daft Punk, Garbage, Jamiroquai, The Cardigans… enfim, toda e qualquer banda/grupo que fez sucesso nos anos 90, recorria a ele para ter uma versão que fosse tocada nos clubs. Tudo isso acontecendo enquanto Todd mantinha suas gravadoras como a Freeze Records – que é um marco dentro da House Music nova iorquina – além de também conduzir ao menos 50 – cinquenta! – projetos paralelos como o TNT, Black Riot, CLS e o meu preferido, Sax.

Eu precisaria de pelo menos mais quatro editoriais para contar sobre os feitos que Todd Terry tem dentro da House Music, e só da House Music, pois ele também atuava fazendo Rap e Hip House. Enfim, o cara é uma máquina que segue calibrada e  funcionando até hoje. 

Logo, temos a nossa segunda conclusão sobre a longevidade dos veteranos na cena: consistência. 

David Guetta 

We Can Be Heroes Just For One Day

Por essa você não esperava né? Eu, Caio Stanccione, usando fucking David Guetta como exemplo de veterano com carreira almejável. Pois é, o cara é pica e nós todos temos que aceitar isso.

Guetta tem sua história conectada com a música de pista desde meados dos anos 80, onde era DJ de músicas variadas em um club não muito expressivo em Paris. Aquele famoso barzinho que você se recusa a ir ver seu amigo tocar, sabe? Era tipo isso. Não demorou muito para a febre do Chicago House chegar por lá e, quando Guetta ouviu pela primeira vez Farley “Jackmaster” Funk, sua vida mudou, segundo ele em uma entrevista. 

Uma das primeiras faixas que Guetta lançou foge bem do escopo que estamos acostumados, onde, pasmem, o Deep House era a sonoridade que ele fazia. Quer um exemplo? Ok. Se liga nessa faixa que ele lançou em 1994 com Robert Owens chamada Up & Away. Dá pra ver que Guetta e um grande fã de Chicago House, já que a faixa claramente foi influenciada pela sonoridade de Larry Heard  através do alias Mr. Fingers.

Como o próprio David Guetta disse em uma de suas várias entrevistas, os anos 90 foram generosos com ele em termos de carreira, mas ele nunca alcançou o que queria alcançar durante aquela época. A própria Up & Away foi um hit em Paris no seu tempo de lançamento, mas nunca o projetou de forma internacional.

Após Up & Away, Guetta passou a buscar novas formas de se conseguir aquilo que ele tinha como realização profissional, o que o levou a tocar em Ibiza e outros locais tidos como pólos da vida noturna na Europa nos anos seguintes. Como produtor, Guetta entrou em um hiato de sete anos e somente em 2001 ele volta a lançar algo autoral. 


O primeiro álbum de Guetta, Just a Little More Love, é um perfeito retrato da música que rolava na França da virada do milênio. Um misto de French House vindo de Étienne de Crécy, Cassius e Daft Punk com pitadas do Electroclash americano que foram herdadas de artistas como Les Rythmes Digitales, Fischerspooner e Larry Tee. O álbum mostrou a todos que ele era um novo artista, onde sair de sua zona de conforto foi necessário para remodelar sua música. 

E aí meus amigos, após esse primeiro álbum de estúdio de Guetta, a vida dele mudou e a nossa também. O mundo descobriria que a fórmula musical que o Techno e a House Music tem desde seu início era mais que perfeita para músicas com apelo comercial. A partir daí o vimos lançar uma infinidade de hits como The World Is Mine, Love Is Gone, Sexy Bitch e sei lá quantas outras faixas dele atingiram pico em charts, programações e levaram premiações. O cara é um monstro quando se trata de música eletrônica comercial. 

Sendo assim, chegamos em nossa terceira e última conclusão desse editorial sobre carreiras longevas: mudanças.

Qual o segredo para ser como eles? 

Como eu disse no começo deste texto, são muitos fatores que podem levar ou não um artista a se tornar um veterano de cena e consequentemente ter uma carreira duradoura, mas uma peça aí é essencial e está presente em todas as situações que eu trouxe, você consegue adivinhar qual é?

Todos os artistas citados não tiveram medo de seguir seu coração na hora de fazer o que mais gostam e conquistar o espaço que desejam. Seja o Underground Resistance, Todd Terry ou Guetta, todos foram atrás de criar o seu próprio espaço, conquistar seu próprio público e tocar a música que mais lhe agradava. Não existe longevidade vivendo a sombra do trabalho dos outros.

Se você busca longevidade em sua carreira, seja original!

A música conecta. 

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