O papel da MTV na introdução da música eletrônica para a grande massa

Bonecos de esqueletos e robôs se movimentando em uma coreografia esquisita, subindo e descendo escadas eternamente em um arco ao redor de um disco alto e central com múmias dançantes em cima em um conjunto visual que te deixa paralisado, inebriado. Pode parecer completamente nonsense o que escrevi, mas faz todo sentido quando você sabe que estou descrevendo (ou tentando descrever) o videoclipe da faixa Around The World, do Daft Punk.

O mundo nunca mais viu a música da mesma forma. Calma, não é por conta do clipe da dupla francesa em si, apesar da sua grande relevância na história dessa cultura. Eu estou querendo falar do veículo de comunicação que transmitiu essa e outras inúmeras obras e que foi responsável pelo primeiro contato de uma parcela massiva da juventude dos anos 90 e início dos anos 2000 aos beats, sintetizadores, reverbs, samples e outras composições sonoras que ouvimos e dançamos hoje em dia: a MTV.

Para falarmos sobre essa relação entre um dos canais mais importantes do entretenimento e o gênero musical, vamos voltar brevemente a um período em que nem se pensava no termo música eletrônica. No dia 1º de agosto de 1981, nos Estados Unidos, apareceu uma nova emissora de TV na programação paga, onde suas primeiras imagens mostravam um lançamento de foguete da NASA e, após a famosa contagem para o início da missão, a voz de John Lack ecoava: “Ladies and Gentlemen, Rock and Roll”.

Yeah, baby! Nascia a MTV, o canal televisivo que faria toda uma geração abandonar seus rádios e grudar os olhos na caixinha para acompanhar a maravilha que era música + imagem em sincronia e coerência – ou zero coerência também. A ideia dos seus fundadores era transmitir videoclipes 24 horas por dia, 7 dias por semana e o foco era 100% Rock’n Roll, que predominava os ouvidos da juventude à época.

Pouco tempo depois a MTV passou a introduzir mais estilos em sua programação, dando espaço às sonoridades mais populares. A partir daí o canal foi ganhando tamanha relevância que o status de artista ou faixa de sucesso basicamente tinha que vir acompanhado de um videoclipe. Foi por conta da MTV que músicos passaram a se dedicar na entrega visual de suas composições e clipes icônicos como Thriller, de Michael Jackson, nasceram, revolucionando a história nesse novo formato de música na mídia.

A música eletrônica também nascia nos primeiros passos da década de 80 e nos anos seguintes já apareceram projetos vanguardistas com videoclipes, como a banda Kraftwerk – imagina se não, né…-, um dos primeiros projetos a criar esse tipo de arte e disseminá-la por aí. Mas foi nos anos 90 que a cultura raver começou a crescer exponencialmente no mundo e impactar a juventude da época. Termos como House, Techno, Electro e Trance não saíam da boca e ouvidos daquela geração e ecoavam nas casas noturnas e festas raves, popularizando a cultura da pista de dança e, é claro, integrando a programação da MTV.

Não demorou para que a emissora criasse seu próprio espaço dedicado à música eletrônica e eis que, em 1996, nasce AMP, um programa de uma hora, sem a presença de apresentadores (os famosos VJs da MTV), apenas com clipes do estilo. O AMP era transmitido no início da madrugada, direcionado ao público underground. Aliás, além de transmitir os vídeos, foi um dos pioneiros a televisionar essas festas malucas a céu aberto chamadas raves e entrevistar artistas que estavam se apresentando. Moby estava entre essas figuras.

O AMP ganhou popularidade e, junto com ele, também explodiu um dos projetos de maior referência da história desse relacionamento entre a vertente e a emissora: The Prodigy. Ainda não cheguei na parte brasileira dessa história, mas posso dizer que quando a ideia de escrever sobre MTV + música eletrônica apareceu, a primeira referência que surgiu em minha mente foi o clipe Firestarter. Eu não fazia a mínima ideia do que era música eletrônica e demoraria muito para recordar desse fato na minha vida, mas, assim que aconteceu, a lembrança foi nítida.

O clipe em preto e branco filmado em 1996, em uma antiga estação de metrô, logo de cara mostra o eterno vocalista da banda, Keith Flint, se movimentando como se estivesse alterado por algum tipo de droga. Ele é provocativo, obscuro, incomoda um pouco (imagina para a época), mas não te deixa trocar de canal. Fui além e resolvi perguntar para amigas amantes e profissionais da música e o The Prodigy foi unanimidade entre as referências da música televisionada.

O grupo, junto com outros poucos projetos eletrônicos, inspirou muitos artistas a colocar sua arte na TV e, a partir de então, abriram-se realmente as portas para que a música eletrônica arrombasse a MTV. Para se ter ideia, foi logo no ano seguinte que surgiu o videoclipe dos esqueletos e robôs do Daft Punk que citei no primeiro parágrafo e, pouco a pouco, a emissora foi colocando artistas undergrounds da cena eletrônica em espaços mainstream, sendo uma das responsáveis por torna-los superstars.

Anos 2000 e a coisa já era explosiva. O AMP foi deixado de lado (o programa acabou em 2001) e a música eletrônica já estava completamente inserida na programação normal da emissora. E aí, meus queridos, chega a ser triste e injusto colocar os nomes de artistas e projetos que apareceram na MTV (resolvi colocar alguns clipes no final desse editorial, não deixem de dar aquele playzinho ixperto), mas para se ter uma ideia do tamanho da emissora e sua importância no nosso cenário, certamente o mundo não conheceria a banda eletrônica de animação Gorillaz se não fosse esse canal. O estilo também ganhou categoria própria nas premiações anuais do canal, com apresentações icônicas, como a do Kraftwerk no European Music Awards, em 2003.

MTV em terras tupiniquins

Ok, vamos ao Brasil então. Por aqui, a MTV iniciou sua programação em outubro de 1990 (depois de inúmeras tentativas frustradas que antecederam a Constituição de 1988), sendo a primeira “filial” da emissora a funcionar em um canal aberto. Ainda que tivesse os próprios programas, a MTV Brasil também transmitia conteúdos americanos e o AMP foi um deles. A transmissão aconteceu de 1998 até 2005 aos sábados, a partir da meia noite, e funcionava exatamente no mesmo formato que o original, sendo também um dos canais pioneiros a colocar para a grande massa imagens de raves e festivais de música eletrônica. Destaque para o período em que o programa contou com a apresentação do DJ Marky, olha só:

Paralelo ao AMP, o canal brasileiro tinha como carro chefe o programa Disk MTV – um suspirão de saudade para o Disk MTV, quem mais? – que transmitia diariamente os 10 clipes mais votados pelo público. A votação acontecia pelo telefone então imagine quantas vezes se ligava no dia na esperança de ver o clipe favorito na TV e ainda ter ele nas melhores posições do ranking (eu era dessas que ligava com frequência). Mais uma vez fica difícil colocar o tanto de projetos que passaram por ali – incluindo artistas total mainstream como Calvin Harris, David Guetta, e outros – mas não posso deixar de destacar o The Chemical Brothers e seus inúmeros clipes muito bem produzidos, Fatboy Slim e clipes divertidos como Push The Tempo, Kylie Minogue e seu super hit Can’t Get You Out Of My Head e o brega, porém explosivo, Benni Benassi com Satisfaction.

Com o passar dos anos, a MTV (tanto a americana, quanto a brasileira, quanto a latina, e por aí vai) passou a inserir outros conteúdos e ainda por um tempo influenciou toda uma geração, colocando a juventude para pensar através da abordagem de temas sem papas na língua, como AIDS, sexo e drogas e trazendo reflexões importantes para o público. Para mim, foi o canal que, de forma curta (um tanto quanto grossa) e direta, me mandou desligar a TV e ler um livro. Com razão.

E aí vieram outros realitys e o De Férias com o Ex. Não que eu esteja julgando o programa (ou esteja, lide com isso), mas a fala é de uma pessoa que foi muito influenciada musicalmente pela emissora e que sentiu uma nostalgia gigante em todo o escrever desse editorial, dos VJs, programas musicais, comerciais, etc., que tiveram um papel importante no meu comportamento e de tantos outros jovens. A emissora lançou outros canais pelo mundo que traziam mais conteúdos musicais porém, honestamente, nunca foi a mesma coisa. No caso da MTV Brasil, no ano de 2013 a emissora encerrou suas operações e foi substituída por um outro canal na TV paga, administrado pela Viacom, uma empresa americana. 

Para a nossa sorte, com a evolução da tecnologia veio a internet e, mais especificamente, nosso querido YouTube, que justamente me auxiliou em todo esse editorial. Eu passei horas e horas viajando em clipes e mais clipes, escavando tantas informações, achando tantas curiosidades que te cansariam de tanto colocá-las por aqui. Ainda que hoje a cultura do videoclipe tenha mudado, a era eletrônica no canal de música é um período de grande importância para nosso cenário, pois não só emergiu a vertente em âmbito global como influenciou a minha e outras gerações, sendo a porta de entrada para esse estilo de uma forma que jamais acontecerá novamente.

“Ladies and Gentlemen, Eletronic Music”

The Prodigy – Breathe

Mr Oizo – Flat Beat

Moloko – Sing it back

Fatboy Slim – Push The Tempo

Gorillaz – Feel Good Inc.

The Chemical Brothers – Salmon Dance

Kylie Minoque – Can’t Get You Out Of My Head

Roger Sanchez – Another Chance

A música conecta.