Editorial

Editorial | O futuro da cena eletrônica em SP no pós-pandemia

Pouco mais de um ano atrás, mais precisamente no final de fevereiro de 2020, os noticiários informaram o primeiro caso de coronavírus no Brasil na cidade de São Paulo. Um fato previsto, já que ao mesmo tempo a Europa e a China anunciavam milhares de casos, preocupando assim o resto do planeta. Mas quando o COVID-19 chegou pela primeira vez em terras brasileiras, arrisco dizer que grande parte do nosso país ainda não tinha uma verdadeira noção da proporção da crise. 

Para nós, artistas, promoters, trabalhadores da noite e entusiastas da música eletrônica, a pandemia resultou em gigs e festivais cancelados, casas noturnas com portas fechadas, eventos paralisados e uma indústria, que movimenta bilhões de dólares, congelada. Vimos São Paulo, a capital das festas eletrônicas do país, com suas pistas vazias sem perspectiva de quando suas luzes acenderiam novamente.

As casas noturnas e casas de show da cidade amargam um prejuízo que já se acumula ao longo dos últimos doze meses, e sem incentivo ou suporte do governo federal, muitas delas não possuem outra alternativa a não ser fechar suas portas definitivamente. Cerca de 40% dos clubes e casas de shows de lá decretaram falência e viram seus anos de história e tradição chegarem ao fim. Um dos exemplos é a lendária Love Story, veterana da noite paulistana que acabou encerrando definitivamente suas atividades devido ao prejuízo.

No caso do D-EDGE, um dos clubes mais emblemáticos da cena eletrônica nacional, a casa permanece firme apesar dos percalços decorrentes da pandemia. Para Renato Ratier, fundador da casa que completou recentemente 21 anos de história, a falta de subsídios e de ajuda governamental é um dos entraves para driblar os desafios decorrentes da pandemia: “Não existe fórmula mágica ou fácil, não temos ajuda nem subsídios do governo, estamos lutando através de nossas associações para impactar o governo na necessidade de auxílio ao setor”.

Ainda sobre a sustentação do D-EDGE em meio a esse período de crise sem precedentes, Ratier completa que “realmente a palavra é essa: superação. Não medimos esforços para manter o clube vivo, como também manter a equipe sem demissão dos colaboradores. O clube D-EDGE, bem como eu, tem o compromisso e a responsabilidade com 26 anos de atuação no mercado, uma marca que tem seu nome gravado na história de clubes e da música eletrônica, não só no Brasil mas mundialmente. É muito amor e dedicação envolvido”.

Em Valinhos, a 90km de distância da capital paulista, os célebres Âme e Laroc Club também permanecem firmes diante das intercorrências geradas pela pandemia. Segundo o sócio e fundador de ambas as casas, Fauze Abdouch, a repercussão da crise reflete principalmente na grade de conteúdos artísticos do clube: “Acredito que a crise que estamos vivendo tende a afetar mais a nossa rotina em relação a conteúdos artísticos, principalmente se levarmos em conta a influência do câmbio em algumas contratações e eventuais reflexos econômicos que possam afetar a todos de um modo geral, afinal com uma economia fragilizada talvez enfrentemos dificuldades na demanda. Excluindo esses dois fatores, acreditamos que o público está sedento por festas e louco para voltar a curtir como antes!”.

Se os clubs que possuem uma estrutura mais organizada no gerenciamento de eventos estão passando por períodos desafiadores durante esta crise, os núcleos de festas independentes da capital paulista estão ainda mais expostos aos agravos decorrentes da paralisação das atividades.  Sem rendimentos, sem cachês e sem subsídios financeiros para manter viva a chama de seus projetos, as festas independentes da capital passaram a buscar alternativas para atenuar o baque. As lives e os eventos virtuais funcionaram como uma boa alternativa para levantar arrecadação, sobretudo nos primeiros meses da pandemia, com o objetivo de auxiliar seus artistas e demais trabalhadores da noite através da doação do público.

No entanto, sempre foi de senso comum a máxima de que “os eventos seriam os últimos a voltar”. Mesmo com a flexibilização do isolamento em setembro de 2020, os grandes shows e festivais não tinham perspectiva de retorno, e algumas festas e projetos buscavam formas de se adaptar aos novos moldes. Adotando as devidas medidas sanitárias, com público restrito e distanciamento social, núcleos como Gop Tun e Carlos Capslock chegaram a realizar algumas edições em formatos reduzidos, com público sentado em suas mesas, trilha sonora suave e um panorama bem distantes dos clássicos formatos triviais de pista. 

A esperança com a chegada da vacina soava como uma luz no fim do túnel para 2021, e o período de flexibilização já desembarcava parte do horizonte dos promotores que começavam a pensar em uma possibilidade de retomada. O ano chegou com a vacina, mas junto dela uma nova cepa do vírus. Casos disparando novamente, óbitos em recordes trágicos, necessidade de paralisação em todas as partes do país e o controle da pandemia indo por água abaixo novamente. E agora?    

Para Bruno Protti, um dos comandantes da label party paulistana Gop Tun, as incertezas repousam sobre os próximos passos a serem efetuados quando as atividades forem retomadas: “Já fizemos alguns planos de retomada, mas como nosso cenário no momento ainda está muito incerto, é um tanto complexo, estratégias mutáveis são necessárias. Não podemos criar tanta expectativa mesmo se animando com as nossas novas ideias, então seguimos com um passo de cada vez, conhecendo o caminho conforme formos avançando”. Para Bruno, por enquanto os planos da Gop Tun se concentram em eventos para o público curtir de casa: “Tem um novo projeto que está nos animando muito no momento que é sobre um festival online com atrações e parcerias que até então não existem, e que de alguma forma são inéditas, sendo exclusivas ou nascendo nesse festival. Tudo isso será filmado de uma forma diferenciada das nossas últimas experiências de evento online, tudo isso para se tornar um material com um maior conteúdo cultural, e um registro atemporal. O que torna ainda mais interessante para quem vai assistir isso em casa”.

Quem trabalha com festas acreditava que, antes da pandemia, 2020 seria um ano de glória, com público maior e mais diverso na cena underground paulistana, com bons rendimentos através de eventos lotados com até três mil pessoas a depender da festa, gerando um lucro médio para os produtores de até 20% em cima do investimento. Porém, o cenário mudou radicalmente com a crise sanitária, econômica e política do país, quando agora em 2021, ainda nem sabemos como e quando teremos uma festa novamente. Diante disso, é possível prever o que será da cena de São Paulo e região, bem como do resto do Brasil, no pós-pandemia?

Para a artista e produtora dos núcleos Pitaya e Planet Ibiza, Mia Lunis, é pouco provável que as festas retomem o conceito do “normal pré-pandêmico” em um futuro próximo. “Acredito que esse período de isolamento mexeu muito com as pessoas, com questões de comportamento e consequentemente com seus projetos na cena musical. Acho improvável que as festas aconteçam nos mesmos moldes de antes e entendo a ansiedade do público e de alguns produtores de eventos querendo retornar ao que fazíamos.” Ainda segundo Mia, alguns aspectos básicos passarão a se tornar prioridade na condução da retomada de eventos: “Muito se falava, por exemplo, sobre redução de danos – o que é de suma importância -, agora a questão é higiene, aglomeração, utilizar máscara do jeito certo, lavar as mãos, utilizar alcool em gel, medir temperatura, são várias coisas que se acrescentaram a nossa rotina e que mesmo com a vacina eu não acredito que vá mudar, então não seria diferente no ramo de eventos que foi o que mais sofreu prejuízos com a pandemia”.

É inevitável não falarmos sobre as grandes transformações que tanto a cena de São Paulo, como de todo o Brasil – e quiçá do resto do mundo – sofrerão em seus próximos passos. Para  Nicolli Penteado a.k.a Nikkatze, DJ e produtora da festa BLUM, a pandemia proporcionou uma reinvenção nos formatos de rentabilização, além de abrir uma possibilidade para crescimento e visibilidade da comunidade artística via internet, já que o virtual tornou-se o meio principal e único de divulgação dos projetos. “Acredito também que a pandemia tornou a internet algo ainda mais presente, o que além de ampliar nossa rede de intercomunicação, possibilitou o crescimento e a visibilidade de muitos artistas, através do excesso de lives e podcasts. Muitos novos projetos surgiram, e vêm se fomentando de maneira sólida, porém tivemos uma queda brusca financeira. Muitos locais de eventos, bares, clubes tiveram suas portas fechadas ou estão sobrevivendo de maneiras precárias, além de que muitas festas perderam seus investimentos e agora se encontram numa situação delicada, incluindo os profissionais da área com situações mais vulneráveis que sem dúvida foram os mais prejudicados”. 

Festa BLUM – SP

Os prejuízos advindos da pandemia são inúmeros e ainda não conseguimos contabilizar ao certo, mas temos a noção de que o resultado deste processo necessariamente repercute em mudança de planos. Por exemplo, o intercâmbio de artistas internacionais certamente não será tão comum como o cenário pré-pandêmico, tendo em vista a enorme crise sanitária e financeira deflagrada sobre o Brasil neste momento, obrigando promoters a buscarem atrações entre os próprios talentos nacionais.  Para Protti, o fluxo de intercâmbio de artistas internacionais tende a diminuir nos palcos da Gop Tun logo que os eventos voltarem, concentrando assim a atenção aos artistas nacionais: “No meu ponto de vista isso é algo que já vinha acontecendo, e esse caminho nos anima muito, tem muito talento nacional que merece ser melhor explorado”. Igualmente para Ratier, a vinda de artistas gringos para as pistas do D-EDGE tendem a encontrar também um fluxo reduzido: “Acho que o intercâmbio será muito difícil pois todos estão descapitalizados com a taxa de câmbio está nas alturas, isso implica diretamente nos economics do negócio”.

Mais de um ano após o início da pandemia, a prefeitura de São Paulo, através da Secretaria Municipal da Cultura anunciou um plano de R$ 100 milhões para apoio à cultura e suporte ao setor privado, como casas noturnas, casas de shows e centros culturais. Com o percentual de 10% da verba destinado às casas noturnas e espaços culturais, o plano pretende atingir 200 centros culturais com capacidade para receber até mil pessoas, visando apoiar estabelecimentos que possuem histórico de realizar atividades culturais voltadas às linguagens Hip Hop, Forró, Samba, Choro, Reggae, música eletrônica, sound system, audiovisual, fotografia, moda, capoeira, poesia, slam, sarau, teatro, circo, dança, artes plásticas e outras linguagens artísticas, assim como pontos e pontões de cultura.

Segundo a Secretaria Especial de Comunicação do Município de São Paulo, no momento atual da crise imposta pelo coronavírus, a Secretaria Municipal de Cultura entende que é seu dever reconhecer e apoiar espaços com atividades voltadas às diversas linguagens, e que se faz urgente fortalecer, por meio de apoio financeiro, locais que possuem esse histórico. O prazo de inscrição para o edital vai até o dia 3 de maio de 2021, e pode ser efetuado através das informações no Diário Oficial do Município de São Paulo.

A música conecta.

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