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Editorial | O impacto das grandes guerras no desenvolvimento cultural

Nesses últimos dois anos, quando parecia que o planeta Terra enxergava uma luz no fim do túnel com o controle do COVID-19, outra espécie de escuridão ganhou força latente nas últimas semanas: o crescente conflito bélico imposto à Ucrânia pela Rússia. É importante reforçar que além da problemática entre os países mencionados anteriormente, a informação de que existem outros 28 países que estão enfrentando conflitos ou combate armado entre forças governamentais — isso só no início de 2022 — também ganha força. Afeganistão, Etiópia, Iêmen, Iraque, Mianmar, Nigéria, Síria e Somália são apenas alguns deles.

O conflito entre os países da antiga união soviética reacendeu um debate que jamais deveria ter sido deixado de lado: as consequências das guerras sob a humanidade e suas incontáveis esferas. O editorial de hoje se debruça sobre os desdobramentos destes períodos no que tange ao desenvolvimento cultural da sociedade. As três grandes guerras que já aconteceram foram a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial e por último, a Guerra Fria. Relembraremos brevemente cada uma delas e quais os seus respectivos efeitos sobre a arte e especialmente sobre a cultura. Em tempos em que o mundo parece se tornar cada vez mais hostil, recapitular o passado faz-se essencial. 

A Primeira Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial aconteceu entre os períodos de junho de 1914 e durou até meados de novembro de 1918. De maneira geral, os principais fatores que contribuíram para o início da Primeira Guerra Mundial foram as disputas imperialistas, a onda nacionalista dos países europeus, suas alianças militares e a corrida armamentista. As forças beligerantes foram divididas em dois grupos: Tríplice Entente e Tríplice Aliança. O primeiro era composto pela Alemanha, Áustria-Hungria, Império Otomano (atual República da Turquia) e posteriormente Itália. França, Estados Unidos, Reino Unido e a União Soviética formavam o segundo.

Os combates aconteceram majoritariamente no continente europeu, divididos em duas fases, sendo a segunda a pior. Foram dois anos entre trincheiras que eram consideradas “terra de ninguém”. A Tríplice Entente foi derrotada e o fim da guerra marcou uma significativa reconfiguração do mapa europeu e diversas novas nações surgiram. A consequência é a triste estimativa de que 10 milhões de vidas foram perdidas neste período de quatro anos que deixaram incontáveis sequelas. Em meio à morbidez que assolou o mundo, a música ganhou força como uma resposta à tragédia geral ocasionada pela guerra — principalmente pelas mãos de incontáveis compositores da época que foram para os campos de batalha.

Curiosamente, os primeiros discos de Jazz foram lançados em Nova York em março de 1917, um mês antes de os Estados Unidos entrarem na Primeira Guerra Mundial. Os europeus já tinham experimentado as sonoridades do precursor do Jazz, o Ragtime, mas com a guerra e a chegada da tropa americana constituída majoritariamente por soldados negros, chegaram também sonoridades que eram mais viscerais, com instrumentos de sopro assumindo um novo caráter pungente e inebriante. Enquanto se desenvolvia latentemente durante a guerra, os EUA, país que viria a ser a maior potência global, injetava a energia do Novo Mundo na cultura do Velho Mundo, formando uma onda inevitável de modernidade que transformaria absolutamente tudo.

(Livery Stable Blues foi o primeiro disco de Jazz lançado, composto pela banda Original Dixieland Jass Band. Uma importante pontuação é que as gravadoras ignoravam os intérpretes negros, único motivo que levou uma banda branca a ser a responsável pelo primeiro lançamento do gênero de raiz afro americana)

A Segunda Guerra Mundial

A segunda grande guerra teve início em setembro de 1939 e terminou no segundo semestre de 1945. A disputa ocorreu entre os países Aliados e os países do Eixo. Os Aliados eram novamente França, Estados Unidos, Reino Unido e a antiga União Soviética, enquanto os países do Eixo eram Alemanha, Itália e Japão. Historiadores dizem que o início da segunda guerra se deu com os vetos impostos à Alemanha pelo Tratado de Versalhes (que pôs fim à primeira guerra). O expansionismo alemão de Adolf Hitler surge inicialmente pela necessidade de obtenção de mais matérias-primas para o país, o que mais a frente se transformaria na crença doentia de unir e exaltar a “raça” ariana.

A disputa territorial com a Polônia foi o estopim para que a guerra começasse de fato, vindo a terminar após longos seis anos e um extermínio estimado entre 40 a 70 milhões de vidas. Com o revanchismo da Alemanha crescendo e a busca por domínio territorial, o senso de sobrevivência global aumentava desesperadamente conforme o avanço de Hitler e sua ideologia purista, o que levou à mobilização extrema por parte dos Aliados e outras nações. Entre as mais significativas mudanças que aconteceram no período, o papel da mulher é o principal. Foi neste período que as mulheres começaram a assumir incontáveis funções e posições que anteriormente eram destinadas apenas aos homens. Essa tomada de posicionamento não só foi decisiva para a manutenção e sucesso dessas atividades, mas também para a prosperidade das nações ainda no período de guerra e no pós.

(O Grande Ditador é uma sátira de Charlie Chaplin ao nazismo. Um filme estadunidense de 1940, sendo o primeiro filme inteiramente sonorizado do humorista)

Marcam o período de guerra a invenção da máquina que culminou no computador e também a atenção governamental à esfera do entretenimento, que passou a ser encarado como uma espécie de apoio às intenções de guerra. As formas de entretenimento mais populares da época eram o rádio, o cinema e a música, que juntos se tornaram ferramentas essenciais para manter os cidadãos entretidos, informados sobre os esforços de guerra e motivados — ali entenderam o potencial de manipulação que o entretenimento tinha. Por ser muito mais acessível, a era da radiodifusão crescia fortemente e assim, as agências governamentais passaram a pressionar os músicos à colaboração. 

Estima-se que a guerra também gerou a migração de aproximadamente 15 milhões de pessoas que deixaram seus respectivos países e oportunizaram a disseminação de diferentes estilos musicais e culturais, principalmente estilos afro americanos. As invenções do período de guerra organicamente chegaram à música por meio de sua tecnologia. A tecnologia de fita magnética da Alemanha tornou-se um marco na produção musical depois que foi capturada e instituída pelos países Aliados. A gravação de som em fita magnética permitiu que produtores independentes produzissem sons de alta qualidade sem a ajuda de grandes gravadoras, o que possibilitou o impulsionamento da indústria fonográfica.

(De acordo com a Billboard, Sentimental Journey de Les Brown e Doris Day foi a faixa mais tocada de 1945. A música retrata a jornada sentimental da saudade de casa)

A Guerra Fria

A Guerra Fria foi o período que marca o ápice do conflito político-ideológico que foi travado entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética, entre 1947 e 1991. O entrave entre esses dois países foi responsável por polarizar o mundo em dois grandes blocos: um alinhado ao capitalismo e outro ao comunismo. O resultado foi uma série de conflitos diretos e indiretos de diversas escalas em diferentes locais do mundo. Esses conflitos eram movidos pelo envolvimento também direto ou indireto dos EUA e URSS, a partir do financiamento, da disponibilização de armas e do treinamento militar. Aqui no Brasil, uma das grandes consequências foi o período da Ditadura Militar sabidamente financiada pelo Tio Sam — pauta para um futuro editorial, quem sabe?

(Janis Joplin foi uma das headliners do Woodstock de 69. No vídeo, você assiste um trecho de sua apresentação, considerada uma das mais memoráveis do festival)

Fato é que foi durante esse período, que a cultura popular começou a despertar para o criticar sobre o que começava a ser visto como um período de repressão e retraimento intelectual. A rejeição do conformismo e a busca por paz se intensificaram nas décadas de 60 e 70 com a ascensão da contracultura e as delícias subversivas que começam a ganhar força, impulsionadas por movimentos como o incomparável Woodstock Festival e o clamor por paz que ecoava nas letras de lendárias bandas, como os Beatles. O Woodstock, a Guerra do Vietnã, a rebelião de Stonewall que aflorou manifestações LGBTQIA + em Nova York e o movimento dos Direitos Civis contribuíram para o vibrar da contracultura.

(Revolution, dos Beatles, é um dos hinos que embalaram o período de ascensão da contracultura e inconformismo à violência)

A herança

Em todas as épocas que o mundo enfrentou momentos de escalada de conflitos, ficam evidenciados os esforços humanos de incontáveis esferas da sociedade, mas principalmente da cultura, em amenizar as tristes consequências destes períodos e atos pelo globo. Guerras promovem atentados diretos à vidas inocentes, além de inibir povos a formarem e desfrutarem de suas identidades e culturas — duas grandes violações a dignidade humana. Não só a população da Ucrânia, mas de outros 28 países, neste momento em que você está lendo este editorial, estão impossibilitados do usufruto de quaisquer atividades sociais, o que vai refletir em incontáveis sequelas para suas populações.

Pouco mais de cem anos nos separam desde o primeiro grande conflito bélico entre nações até a atualidade. Apesar de gigantescos saltos evolutivos, a essência autodestrutiva humana de alguns agentes governamentais parece não reduzir. Em mais um momento histórico de escalada da violência mundial, que a cultura siga como uma fonte de refúgio e conservação de movimentos culturais que constantemente são ofendidos e violados. E que regularmente a humanidade relembre seus erros ao longo da história, para que eles não se repitam sob pressupostos mascarados de atuais.

Ao longo deste editorial, estão dispostos conteúdos produzidos em período de contexto conflitual e que se tornaram grandes referências por documentar ou refletir os anseios e feitos históricos de nações e gerações.

A música conecta.