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Editorial | Pelo o que 2021 vai ser lembrado?

Não há dúvidas que 2021 foi um ano que entrará para a história. É interessante como durante a linha do tempo do último século, também encontramos alguns anos fatídicos que também ficaram marcados drasticamente, e serão lembrados até mesmo por quem não viveu. Podemos falar sobre 1922, que marcou a semana da Arte Moderna, 1929 com a queda da bolsa de Nova York, 1945 com o fim da 2º Guerra Mundial, 1964 com o golpe militar, 1985 marcando a volta da democracia no Brasil, enfim anos que marcaram altos e baixos na vida dos brasileiros, e da humanidade como um todo.

E podemos dizer que a dobradinha, 2020 e 2021 – e em especial o ano ainda vigente -, conseguiu somar os altos e baixos em uma turbulência frenética de uma só vez. No ano passado, nessa mesma época, estávamos confiantes na chegada da vacina, e que a pandemia logo teria seu fim, abrindo caminho novamente para a retomada da normalidade no Brasil e no mundo. Não estávamos totalmente enganados, porém não imaginávamos que muitas águas iriam rolar até que isso de fato se encaminhasse. 

Iniciamos este ano de 2021, com a notícia da primeira enfermeira brasileira vacinada contra  Covid-19, e uma forte esperança encheu nossos corações de felicidade e confiança. Parecia que ali já podíamos ver a luz no fim do túnel. Os eventos já estavam em pé de retomada gradual, algumas festas de verão estavam acontecendo nos moldes da segurança sanitária, a Europa dava sinais de um retorno da vida pulsante, e naquele momento estávamos confiantes que poderíamos rever nossa família, amigos e entes queridos com tranquilidade. 

No entanto, não contávamos que a campanha de vacinação no nosso país não caminharia às mil maravilhas. Não contávamos que o pior ainda estava por vir. A luz que víamos piscando devagar no fim do túnel, de repente desapareceu no segundo mês de 2021. 

É realmente muito difícil discorrer sobre os meses de fevereiro, março, abril e maio deste ano. Para mim, pessoalmente, foram meses que gostaria que fossem apagados da minha memória. E acredito que para outras famílias de mais de 600.000 brasileiros que perderam suas vidas decorrente da pandemia, também não seja um período fácil de relembrar. Foi uma tempestade sem precedentes, onde pudemos ver, sofrer e sentir uma grande tragédia tomando conta de nossa realidade de uma forma muito próxima, sem podermos fazer absolutamente nada, a não ser se proteger dessa guerra invisível. 

Quando alguém diz que a música, assim como todas as formas de arte, tem o poder de salvar vidas e curar emoções, acredite nessa máxima. Aqui vai um pequeno testemunho pessoal: a música foi o que me curou desses tempos difíceis, e ainda permanece me curando, já que certos tipos de dores e perdas não são reparáveis.

É nesse momento que podemos ver a grande tarefa de um artista, de um músico, de um DJ, de um produtor. Se o médico é uma figura extremamente imprescindível para a cura física, nós dos campos das artes, somos imprescindíveis para a cura emocional. 2021 provou isso, quando em meio à turbulência sangrenta e ao período de silêncio, pudemos nos desconectar da realidade, ouvindo uma música especial, que nos deu forças para continuar. Quando tudo parecia estar perdido, o poder da música nos levou a acreditar que em breve estaríamos de volta, e gratos por estarmos vivos. Por isso, sim meus caros leitores, é verídico que a música é uma ferramenta de cura. 

E é verídico também, que nós seres humanos, precisamos estar em constante contato com outros seres humanos. E o contato virtual não é o bastante. O nosso mesmo 2021, provou isso também, assim que tomamos a segunda dose da vacina. Além do grande alívio e da gratidão por termos conseguido chegar até esse momento, nosso pensamento estava em quem seria a primeira pessoa que poderíamos visitar, abraçar, dançar, tocar e beijar, sem medo de matar ou morrer. Parecia que ali estávamos vivos novamente. 

Quando as primeiras portas das festas se abriram e os primeiros DJs tocaram seus primeiros sets pós-catarse, lágrimas escorreram involuntariamente dos olhos de muitos de nós. Pudemos sentir pela primeira vez, de forma consciente, o poder das relações interpessoais, o poder da energia de uma pista, o poder de dançar, sorrir, agradecer e deixar nos curar pela vibração de uma coletividade em êxtase. Ali foi o êxtase da própria vida, que nos fez aprender a valorizar cada momento como se fosse o único. A pandemia fez isso conosco, nos ensinou a olhar de uma maneira mais profunda até mesmo para acontecimentos que antes já corriam no modo automático.

É interessante como a tempestade, pode ao mesmo tempo, se tornar uma força motriz produtiva. Vimos uma grande leva de artistas darem um salto quântico em suas carreiras, durante esse mesmo período sombrio, labels começando novas histórias, novos nomes surgindo com grande potência, e uma nova realidade se formando no cenário eletrônico. Pudemos ver produtores concentrando todas suas forças em seus trabalhos musicais, nos presenteando com milhares de pérolas que nos ajudaram a vencer a quarentena. Aprendemos também, que música eletrônica não precisa necessariamente ser música de pista, e que música de pista também pode ser aproveitada fora dela – mas que se puder ouvir em alto e bom som no dancefloor, melhor.   

2021 mostrou que a força da coletividade faz a diferença. Vimos festas arrecadando fundos para ajudar suas equipes, grandes produtores arrecadando fundos para ajudar seus clubes, e os clubes arrecadando doações para ajudar seus DJs. Aprendemos que o peso de um suporte, pode mudar a vida de um pequeno artista, e que muitos pequenos artistas podem fazer uma grande diferença na hora de levar mais longe, o trabalho de um expoente.

Aprendemos que esperar é preciso, e se cuidar também. Vimos que este retorno à normalidade, e a retomada de nossos clubes e festas favoritas, se tornou uma verdadeira celebração à vida, às nossas próprias vidas. E que hoje, temos a oportunidade de vivê-la com mais consciência.

Durante esse texto, direcionamos nossos aprendizados de 2021 para os contextos relacionados ao nosso cenário musical, porém se formos dimensionar os aprendizados gerais que esse ano nos deixa, são definitivamente incontáveis. Podemos citar em especial: gratidão, resiliência, fé, esperança, reconstrução e principalmente, o valor para com as pessoas que amamos, com o nosso corpo, com a nossa vida e com os pequenos momentos. É preciso lembrar, que estamos sujeitos a todo instante, ao ciclo da vida. Altos e baixos vão acontecer, e que enquanto estivermos por aqui, é necessário confiar e persistir. Nada é para sempre, nem mesmo o ano de 2021. 

E que venha  2022, estamos preparados!

A música conecta.