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Editorial | Por que ainda temos poucas mulheres dentro do estúdio?

Pauline Oliveros, americana, acordeonista, compositora e uma das figuras centrais nos primeiros trabalhos de desenvolvimento da música eletrônica, escreveu um artigo para o The New York Times intitulado “And Don’t Call Them ‘Lady’ Composers” (em portugues, “E Não Chame Elas de ‘Senhoras’ Compositoras”). Nele ela questiona: “que tipo de autoimagem as meninas podem ter, então, com metade de seus pares as desprezando porque foram desencorajadas da chamada atividade masculina e enroladas em cobertores rosa?”

O artigo foi publicado em setembro de 1970 e hoje, 50 anos depois, a citação continua fresca. É possível contraditar a ideia de Oliveros sob o fundamento de que tempos são outros e atualmente a mulher tem cada vez mais conquistado seu espaço de direito . Este é um ponto inegável, mas fato é que a disparidade entre homens e mulheres no universo profissional – em especial no mundo da música – ainda é evidente e, sendo assim, discutir o tema é necessário.

Este editorial é um convite a homens e mulheres. Um convite à reflexão, vislumbre do panorama contemporâneo do cenário da música, análises de problemáticas, propostas de mudanças e incentivo para que elas se concretizem. Para tanto, as ideias foram construídas através da colaboração de 10 profissionais do mercado, baseados no Brasil e países exteriores, que atuam nas áreas de produção musical em diversos âmbitos, agenciamento, comunicação, profissionais do ensino, label bosses e outras funções que abrangem o campo da música. 

Mas afinal, por que ainda temos poucas mulheres dentro do estúdio de música eletrônica? Este questionamento pode se tornar ainda mais intrigante quando se sabe que, além de Pauline Oliveros, muitas outras mulheres foram determinantes para a concepção das sonoridades difundidas através de um equipamento eletrônico. Este processo iniciou-se em meados de 1920, décadas antes do surgimento das músicas para a pista de dança. Clara Rockmore, Wendy Carlos, Bebe Barron, Laurie Spiegel e as brasileiras Jocy de Oliveira e Maria Rita Stumpf são apenas alguns dos nomes que ao longo dos anos se envolveram com a música eletrônica até ela tomar as proporções gigantescas de hoje.

Certo seria um aumento significativo de mulheres atuando no mercado durante a evolução dessa história, porém a realidade ainda é outra. Erika Lôbo, compositora, produtora musical, fundadora e administradora da própria empresa de produção musical, trilha sonora e mix & master e professora da AIMEC Campinas (Academia Internacional de Música Eletrônica) relata que “nas turmas da AIMEC a média é 10% de mulheres, mas é um número crescente. Já tivemos turma com 25% de mulheres”. A DJ, produtora e professora de produção musical Ágatha Prado conta que ainda não há um volume expressivo de mulheres realizando cursos de produção: “ainda vejo as salas de aula em uma proporção de 10 alunos homens para uma mulher dentro da sala, e muitas vezes turmas sem nenhuma mulher”.

Já o produtor, compositor e instrumentista Laércio Schwantes, mais conhecido como L_cio, que realiza cursos, mentorias, finalizações de faixas e desenvolvimento de live acts, relatou que, desde o início da oferta dos programas “houve procura, mas bem menor que de homens (30 homens, 2 mulheres). Trabalhei com a Elisa Audi e com a Paola Vigorito, que inclusive que foi sorteada em uma vaga que abri para mulheres – e também teve um aluno LGBTQIA+.”

Os homens são de Marte e as mulheres são de Vênus?

Os fundamentos para esse baixo número são diversos – assim como são os clichés em torno deles – e começam muito antes da busca pelo envolvimento com música, quando o ser humano sequer saiu do ventre materno: a crença limitante de que homens e mulheres são biologicamente diferentes e, portanto, possuem habilidades específicas para determinadas funções. Homens são mais aptos a trabalhos de força, mulheres dominam melhor os afazeres domésticos… a lista é extensa e gera um estereótipo de gênero que muitas vezes não é confrontado.

Entrar em uma discussão científica sobre o tema requer um conhecimento profundo e encontram-se diversos estudos com ideias conflitantes. A questão é que todos, enquanto seres humanos, são capazes de realizar qualquer tarefa que lhes interessem, mas não foi essa a ideia ensinada. Desde os primeiros momentos de vida, mulheres e homens são direcionados a atividades diferentes. Enquanto meninos ganham carrinhos e videogames, meninas ganham bonecas e mini cozinhas. 

Dentre as atividades que não seriam da “natureza” da mulher estão as vinculadas à tecnologia, matemática e ciência. Esta errônea ideologia consequentemente gera um desinteresse por atividades dentro da área. Mateus B, profissional de ensino da discotecagem e produção musical há aproximadamente 11 anos, ministrando aulas na AIMEC Curitiba e em cursos on-line, diz que “no geral, as mulheres têm menos interesse por botões, manuais, tecnologia”. 

Muitos professores e pais costumam subestimar essas habilidades das meninas desde a pré-escola. A educação infantil desempenha um papel crítico para o desenvolvimento das meninas, preparando o terreno para seu nível de interesse, confiança e realizações, já que as mensagens que recebem durante sua educação na infância e pré-adolescência moldam suas decisões e escolhas mais tarde na vida .

Mais do que um desinteresse, as mulheres que se sentem atraídas por esse universo geralmente são desestimuladas e se sentem incapazes de buscar uma qualificação profissional no ramo. Erika Lôbo possui formação em Produção Fonográfica e Educação Aplicada à Performance Musical e conta que a participação de mulheres é mínima, sendo a única no primeiro curso e entre poucas no segundo. Este panorama criado pela sociedade é a primeira fagulha para um incêndio negativo no mercado, que é ainda maior quando falamos em mulheres negras e LGBTQIA+.

Elas que lutem!

Com o passar dos anos, mais e mais mulheres decidiram encarar esse tabu, mas a estrada é sinuosa e por diversas vezes acarretam em mais desistências durante o caminho. A maioria das mulheres se divide entre multifunções na sua jornada diária. A DJ e produtora potiguar Brisa Fernandes, a.k.a B-Waves, comenta que “como produzir música demanda tempo e dedicação, diante de uma sociedade machista, a mulher muitas vezes lida com uma jornada dupla (ou às vezes tripla) de trabalho e isso acaba sendo também uma dificuldade para conciliar as demandas”. Trabalho, atividades domésticas, criação dos filhos e por aí seguem outros impeditivos.

E se tempo lembra dinheiro, não se pode esquecer que mulheres recebem salários e cachês bem menores que homens. A exigência na excelência de trabalho para ganhar espaço no mercado da música é grande e como cursos, equipamentos, softwares e outros aparatos necessários para garantir um alto desempenho na profissão tem custo elevado – principalmente no Brasil – muitas mulheres acabam desencorajadas e não levam a proposta adiante, mantendo o mercado majoritariamente masculino.

Diante desse cenário profissional dominado por homens, os campos tendem a perpetuar culturas inflexíveis e que, ainda que esteja caminhando lentamente para um estado igualitário, na maioria das vezes não apoiam mulheres e minorias e – em uma sociedade regida pelo patriarcado e machismo – atuam diretamente para evitar o crescimento do mercado feminino, provocando medo, insegurança, auto expectativa elevada, descrença no próprio trabalho, entre outros sentimentos nocivos para a evolução das artistas, gerando, acima de tudo, a ausência de pertencimento dentro desse meio. 

Joyce Muniz, brasileira radicada na Europa desde a infância e que hoje é reconhecida mundialmente como DJ, produtora e label boss do Black Diamonds Records comenta que “já é difícil, independente do gênero, quando uma pessoa passa por alguma rejeição, mas quando se sabe que você, sendo mulher entrando em um mundo praticamente masculino, a insegurança muitas vezes fala mais alto”. 

O panorama pesa ainda mais para artistas negras e LGBTQIA+. A DJ e produtora travesti Malka Julieta conta que quando iniciou seu contato com a música “tinha dificuldade já em lidar com o fato de que a música era algo dominado por um sentimento não só machista, mas de que também existia um certo conjunto de regras implícitas do como e o que você deveria tocar. Minha vontade sempre foi de misturar, principalmente ritmos brasileiros de um som mais de quebrada ao Techno e House tradicional. Isso gerou muitos atritos na época e me levou a desistir de tocar em ambientes de música popular, seja eletrônica ou orgânica”.

A DJ e produtora EVEHIVE também comenta sobre a dificuldade de inserção que a comunidade negra encontra no relacionamento com labels: “É totalmente perceptível nos catálogos, já tem o clube do bolinha formado e normalmente uma ou duas DJ’s mulheres (brancas) compondo pra qualquer coisa poder soltar aquele “mas…”, e complementa que “têm os obstáculos que colocam pra gente e também as nossas próprias inseguranças quanto pessoas que estão sempre sendo rotuladas ou subestimadas. Não é fácil ultrapassar isso e colocar a cara pra fazer o corre”. 

Ella de Vuono, DJ, produtora musical e fundadora do label Diversall, que apresenta o primeiro EP de lançamento da gravadora em alguns dias, traz sua visão sobre o tema:

“Muitas pessoas já partem do pressuposto de que aquela produtora tem um ghost producer ou então que a qualidade do som não é tão boa assim. (…) A gente passa uma vida sem espaço, então quando uma finalmente consegue, somos condicionadas a sentir que não há espaço suficiente para outras mulheres. E que se a gente não tomar cuidado, outra mulher vai chegar e roubar nosso lugar”.

Mayra Garcia, brasileira também radicada em Berlim, é Head of Partnerships na BE-AT.TV e agente na label/ festa. Monasterio (Moscow) e traz um dos pontos mais complexos dentro desse cenário: “Eu sinto que as dificuldade que ainda encontram estão mais relacionadas a julgamentos quanto à imagem e postura, essa expectativa de que devem se enquadrar em um certo estereótipo para que sejam reconhecidas… e isso vem principalmente pela parte de muitos puritanes/ dinossaures da cena, mas também do público, que não deixam passar nada. Se uma mulher fala uma vírgula fora do lugar, é sexy demais, é sexy de menos, comete qualquer mini-erro ou não corresponde com o que se espera, são julgadas e muitas vezes canceladas numa dimensão desproporcional, enquanto isso acaba passando mais batido quando se trata de um homem”.

“Autonomia é tudo, principalmente em um meio que acha que se a gente for linda e gostosa é o suficiente”, de Vuono complementa.

O comentário de Mayra ganha ainda mais força através do livro O Mito Da Beleza, obra de Naomi Wolf. A escritora defensora do movimento feminista afirma que, pós Revolução Industrial, as mulheres passaram a reivindicar seu espaço no mercado de trabalho e, para lhes sugar o excesso de energia e reduzir a confiança, intensificaram a ideia de que beleza era essencial. “Quanto mais perto do poder as mulheres chegam, maiores são as exigências de sacrifício e preocupação com o físico. (…) Vocês agora estão ricas demais. Logo, nunca chegarão a estar magras o suficiente”.

Abusos, chantagens e coerção são relatados com frequência. A competência muitas vezes é relacionada ao masculino. A cantora, compositora e instrumentista Joyce foi intitulada “Chico Buarque de saias”, para validar a qualidade do seu trabalho. Mulheres são mais criticadas, mais questionadas, recebem mais orientações e tantas outras condutas que colocam ela em uma posição de vulnerabilidade e insegurança. Como se sentir pertencente neste cenário?

Se ela dança, eu danço

Pauline Oliveros, assim como todas as outras pioneiras da música eletrônica, certamente inspiraram e inspiram muitas outras mulheres que desejam conquistar seu espaço na música. Essas também se tornam inspiração e assim um gigante e infinito elo vai sendo construído através de referências femininas. Chega-se então no alicerce mais consistente para sustentar a determinação de uma trajetória feminina no mercado da música.

“A representatividade é essencial, seja para artistas mulheres, artistas negros e artistas LGBTQIA+. Quando uma mulher olha os catálogos das gigantes do mercado fonográfico eletrônico e só vê uma lista de homens com o mesmo estereótipo, ela não se vê representada ali. Porém, quando temos artistas como ANNA, Blancah, Peggy Gou, Miss Kittin, Joyce Muniz, Honey Dijon e The Blessed Madonna estampando as gravadoras de destaque, isso reverbera no desejo das mulheres também quererem estar ali”, diz Agatha Prado.

Erika Lôbo explica que “na real, as referências sempre existiram, mas estavam todas escondidas. Hoje estamos ocupando espaços de visibilidade. E vamos continuar crescendo porque todas as mulheres passam por situações de silenciamento e invisibilidade e por conta disso sentimos a urgência de mudar esse cenário”, que pode ser complementado com fala de Joyce Muniz, que também faz um comparativo entre o cenário do Brasil e Europa:

Hoje em dia temos muito mais mulheres nos Line-ups e lançando músicas. Na minha opinião não há grandes diferenças entre a cena no Brasil e no exterior. Poderia ter não apenas mais mulheres, mas também mais negras e transexuais na cena, que precisam de oportunidades, mas isso é um problema mundial que precisa ser evoluído. Quanto mais colorido, mais bonito.

Todas as mulheres que trabalham na música guardam com carinho e acompanham com atenção outras profissionais que desbravaram o mercado com afinco e determinação. A notícia boa é que, lentamente, esse número de mulheres tem crescido e aparecido cada vez mais, então…

Para trás nem pra pegar impulso!

Estamos mudando cada vez mais e para melhor. O panorama ainda não é ideal, teremos muitos desafios, mas o time hoje não é composto apenas por mulheres, mas também por homens que entendem o quão importante é o aumento da representatividade feminina no cenário da música. O sentimento de pertencimento e de capacidade impulsiona para os novos desafios, melhora a obtenção financeira, liberta mulheres de relacionamentos abusivos, integra o campo da diversidade criativa no cenário e faz crescer o universo da arte.

É através das palavras de cada participante desse editorial que vem uma visão positiva e mensagem de incentivo para que todos nós trabalhemos unidos por um cenário mais igualitário, não apenas no Brasil, mas no mundo todo:

Joyce Muniz | Talvez você não vai receber o melhor feedback na primeira música, mas o mais importante é dar continuidade, não parar de evoluir e nunca desistir. Com paciência você consegue encontrar seu próprio estilo. O importante é não copiar aquilo que já existe. 

Quando uma música não dá certo a maioria das vezes eu começo uma nova e tento não focar naquilo que não saiu como esperado e sim focar nesse novo projeto. Às vezes eu escuto algumas músicas minhas de uns anos atrás e não curto muito, porém nunca me arrependo de ter a lançado, pois assim fui ganhando experiência para melhorar dia após dia. E isso é um processo, e esse processo nunca para porque eu continuo experimentando e tentando progredir mais e mais, é o que não me deixa cair na monotonia.

L_cio | Somos a imagem das contradições e desigualdades da sociedade a qual vivemos e por isso temos essa desigualdade tão explícita. Acho importante destacar que não é uma situação estática, por isso temos ações que contrapõem essa situação, como o WME (Women’s Music Event – criado por Monique Dardenne e Claudia Assef) que dá protagonismo às mulheres na indústria musical e também é plataforma para conhecermos mais mulheres que atuam em diferentes áreas da música.

Malka Julieta| Muito esforço vem sendo feito por mulheres do áudio para se conectarem e expandir  seus horizontes. Movimentos que se espalham muito além da minha bolha em São Paulo. Temos a Deusa Coletivo, o projeto Guria e projeto Camomila do RN, Mulheres do Áudio e por aí vai. É importante demais que esses movimentos existam e que se naturalize nossa presença no estúdio para realização de trabalhos de áudio que vão inclusive além da produção e execução, também como mixagem e masterização e por aí vai. (…) Precisamos nos desprender das velhas fórmulas e enaltecer um espaço de convívio e criação musical mais capazes de absorver vertentes diferentes de sonoridade e pensamento. Somente entendendo e pontuando o que estamos fazendo de errado podemos enxergar um horizonte mais utópico para a criação musical e a presença de nossas corpas em todos locais.

Mateus B | Eu acredito que o espaço para elas é muito grande e, com certeza, as que se dedicam conseguem alcançar bons resultados. Temos menos mulheres produtoras e isso já faz com que desperte o interesse de todos quando descobrem uma nova produtora musical. Percebo que todos os professores, DJs e produtores incentivam as mulheres e também se prontificam a ajudar.

EVEHIVE | Os problemas são bem escancarados e acho que cada vez mais as mulheres têm procurado espaços que tem acolhimento e respeito com o trabalho destas. É bem mais possível encontrar uma rede legal hoje em dia, Acho que para as coisas continuarem melhorando para nós, isso tem que continuar acontecendo (…) Dê suporte, atenção e dinheiro para esses projetos que olham pra frente e querem fazer acontecer uma cena diferente. Sinceramente, espero que daqui 50 anos a gente consiga estar resolvendo outras coisas essenciais, não só na cena da música, mas em outras profissões.

Ágatha Prado | Uma sequência de fatores que vão contribuir para que essa inclusão aconteça de fato. E quando digo para prestar atenção e abrir espaço para artistas mulheres, não penso de nenhuma forma que isso é um favor que deve ser feito. E, sim, porque existem muitas, mas muitas mulheres que são excelentes artistas, com grandes talentos e com faixas de qualidade muitas vezes superior à de muitos artistas homens, que estampam catálogos por fazerem parte do estereótipo convencional. E assim reafirmo também que essa atenção vale não somente para artistas mulheres, mas também para artistas pretas e LGBTQIA+.

B-Waves | Venho percebendo que cada vez mais estão sendo criados coletivos que promovem esse estímulo, assim como criação de labels que o foco é a diversidade. Essas ações também se tornam fundamentais diante de um cenário tão difícil de mudança. Num âmbito individual, o que venho fazendo e sentindo efeito é ir estimulando as manas a aprenderem a discotecar e produzir, compartilhando o que eu sei e contribuindo com a divulgação dos seus trabalhos e inserção no mercado. Acredito que cada um fazendo sua parte, mesmo que produzindo micro-mudanças, é o início de uma grande transformação.

Ella de Vuono | Sempre digo que a mudança tem que vir do incomodado e não do acomodado. (…) Então tem que partir de nós, precisamos mesmo nos informarmos, precisamos estudar e saber muito de tudo que envolve música, pois daí não cairemos no papo de pessoas que dizem que sabem e que estão cuidando da nossa empresa para gente, quando na verdade não estão. (…) Conhecimento, profissionalismo, consistência, competência e união entre as minorias vai fazer o mundo ser mais igualitário.

Mayra Garcia | Acredito que evoluímos muito de uns anos para cá e hoje em dia, ao menos no circuito mais underground de música eletrônica, já há muito mais espaço para produtoras mulheres quando se trata de gravadoras/ agências. Há, inclusive, muito incentivo e procura por mulheres que tocam e produzem. (…)  Tem muita mana talentosa tocando por todo canto, lançando em label ou lançando sua própria label, e cada vez aparecem mais. (…) Ao meu ver, não existe artista mulher, artista homem – existe artista e ponto. Não devemos tentar nos enquadrar, o seu valor está em quem você é e na mensagem que quer passar, e não se restringe ao seu gênero ou expectativas alheias. Eu não gosto, por exemplo, quando vejo rankings de DJ mulher ou eventos especiais enfatizando o gênero, pois acredito que isso nos segrega mais do que inclui.

Erika Lôbo | Existem muitas iniciativas em prol do reconhecimento das mulheres profissionais da música. O movimento Women In Music acontece em diversos pontos do planeta. Eu faço parte do database da She Is The Music, uma organização sem fins lucrativos com o intuito de promover igualdade, inclusão, oportunidade e com isso aumentar o número de mulheres que trabalham com música – compositoras, engenheiras, produtoras, artistas e profissionais da indústria.

Aqui no Brasil tem a PWR Records que reúne um banco de dados de bandas e artistas mulheres de todo Brasil. Tem a plataforma da Sêla. E tem a Ostra que está promovendo um Festival de Mulheres Compositoras, onde inclusive vou dar um workshop de como produzir com pouco dinheiro. E elas vão lançar um documentário sobre o silenciamento das compositoras ao longo da história. Nós (duonz11) estamos produzindo um projeto chamado “Time is Up” que é uma colagem de discursos de mulheres da música e da política. E vou citar um trecho com falas de Madonna, Alicia Keys e Hillary Clinton:

“Busque mulheres para serem amigas
Para se alinhar
Para aprender
Para colaborar
Para dar suporte
Para se inspirar
E juntas vamos continuar lutando por oportunidade e dignidade
Por liberdade e igualdade
Pela participação total em nossa economia e nossa sociedade
Continuaremos a nos elevar até que nossas vozes sejam ouvidas
E vamos continuar dizendo ao mundo que
Os direitos das mulheres são direitos humanos”

A música conecta.

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