Editorial

Quais lições a cena eletrônica pode tirar do crescimento do Hip Hop nacional nos últimos anos?

O Hip Hop nacional e seus desmembramentos atravessam um período de colheita de frutos após um amplo trabalho semeador, que transformou um campo árido em fértil. Um trabalho que, além de muito bem construído, gera incontáveis aprendizados não só a música eletrônica, mas a qualquer nicho fora do mainstream que queira manter as engrenagens a todo vapor para que a máquina siga trabalhando. Fato é: a ascensão, transformação e crescimento que o Hip Hop atravessa, deixam muitas lições, mas principalmente para música eletrônica alternativa.

Antes de tudo, se o tema te soou aleatório ou você ainda não acredita que existam lições a serem extraídas, te convido a nos inclinarmos ao passado. O primeiro ponto de contextualização que apresento é a origem — tudo começa lá. O Hip Hop e a música eletrônica partem do mesmo ponto: a Disco. Há quem diga, inclusive, que o Hip Hop e House são irmãos, afinal, surgem do mesmo berço e com propostas muito semelhantes: dar voz à cultura negra, que enfretava períodos de extrema repressão.

Inclusive, as linhas que separavam a música eletrônica e o Hip Hop eram tão tênues que, à época, o Hip House surgiu, ganhando forças e grandes representantes — mas isso é assunto para outro dia. Então se você considerava as duas esferas distantes, reconsidere, pois não deveria — mesmo que tenham se desenvolvido em caminhos totalmente diferentes. É válido reforçar que até hoje, os pontos de convergência são incontáveis: do uso de samples até a preservação da cultura do DJ.

O Rap aflorou no Brasil no final dos anos 80, quase na virada para os 90. Narrando o cotidiano e as vivências da periferia de um país cruel e injusto, longe dos estúdios e ocupando locais públicos para ser reverberado, o ritmo ganhava representantes, adeptos e ao mesmo tempo que expandia, crescia também a ignorância e associação do Rap com o crime organizado e violência. Em 1993, com o lançamento de Raio X do Brasil, primeiro álbum de estúdio do Racionais MC’s e sua repercussão, o Hip Hop nacional dá mais um passo rumo à solidificação.

Da abertura de portas promovida por nomes como Facção Central, Thaide e o Racionais, à chegada de Sabotage e seu legado que reforça o compromisso, o desenvolvimento e flerte com o Funk, até a cena que hoje conta com nomes relevantes como Djonga, Don L, Febem, Glória Groove, Tasha & Tracie. Podemos relacionar também, a chegada ao mainstream com o avanço para o Trap, atualmente reverberado por MC Caverinha, MC Poze do Rodo, MD Chefe, L7NNON, Kyan, Xamã e claro, Matuê, entre muitos outros, onde o gênero ganhou novos representantes e desdobramentos que se adaptaram muito bem aos tempos modernos, sem abandonar as raízes e aspectos originais que o fazem o que ele é.

E tudo começa com uma estética bem acurada, individualmente ou coletivamente. Olhando para todos os projetos musicais mencionados acima, é possível notar, consensualmente, a solidificação de um conceito que corresponde não só a identidade musical, mas que também represente as vivências e características que dão forma a um caráter que vai para além da música. Um bom exemplo foi a longa parceria que o selo Ceia Ent (de Djonga, Febem, Kyan, Tasha & Tracie) desenvolveu com a Adidas Brasil. Durante pelo menos cinco anos, o selo foi patrocinado pela marca e desenvolveu incontáveis parcerias: de patrocínio de turnê a jogos de basquete.

Don Cesão, um dos fundadores da Ceia Ent, sobre a parceria com a Adidas

Inclusive, recentemente Kyan foi um dos responsáveis por uma revolução no mundo da moda — revolução mesmo. Cantar sobre a vitória de ter acesso a objetos de desejo é uma narrativa constante, inclusive para Kyan, que bateu mais de nove milhões de plays em Tropa da Lacoste. Mas em agosto do ano passado, em uma campanha nacional que visava abordar a diversidade, a Lacoste foi amplamente criticada por não incluir nenhum nome do Rap nacional, que tanto agrega visibilidade à marca no Brasil. Ao tentar consertar o erro, a Lacoste ofereceu permuta ao artista e novamente foi criticada pela ausência de investimentos.

Após toda a polêmica, a marca finalmente abraçou o nicho do Funk e Trap no Brasil, selando uma parceria com MC Hariel, um dos grandes fenômenos do Funk paulista. A Lacoste patrocinou o DVD de 10 anos de carreira do cantor, desenvolveu um boné exclusivo e segue dando sinais de que não vai parar por aí. Pela primeira vez, uma marca de grife internacional abriu espaços para esses representantes da cultura periférica nacional. E onde tudo começou? No estabelecimento de uma estética.

Além da estética muito bem acurada, o constante investimento em conteúdos audiovisuais foram essenciais para se conectar com a nova geração e conversar com a linguagem do mainstream. Do Funk ao Rap e Trap, nota-se a preocupação de conteúdos visuais para plataformas como TikTok e YouTube, o que, além de ser um formato largamente adotado pelo público, é mais uma ferramenta para o firmamento da estética proposta pelo artista. Vale ressaltar que também há uma leitura precisa sobre entregar bons conteúdos com a veia da acessibilidade, ainda muito forte para usuários do YouTube.

Além dessas lições de posicionamento e de, literalmente, “aprender a dançar conforme a música”, outra lição que os gêneros nos rendem é o constante apego às raízes. Não naquele sentido de “tiozão do rolê Nutella”, mas no sentido de honrar quem veio antes, como veio, porque veio e o que fez, agregando roupagens modernas, mas sem desvincular a arte e a cultura da política, de debates, questionamentos e provocações sociais. Bons exemplos são as constantes reinserções entre as novas gerações através de samples, como Tasha & Tracie fizeram em homenagem à MC Zoio de Gato ou como Glória Groove, em tributo à MC Daleste, conterrâneo e referência usada para a criação do hit Vermelho.

Nosso editorial de semana passada fala justamente sobre a inovação e evolução criativa, sobre o quanto, constantemente, necessitamos dessas ações. E é justamente nesse ponto que o Rap nacional e seus desdobramentos e flertes triunfam, pois são esferas que se transformaram com o passar dos anos, sem abrir mão da essência originária. Claro que ainda existem muitos espaços a serem conquistados, mas até aqui, o nicho já nos rendeu boas e preciosas lições a serem absorvidas.

A música conecta.