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Editorial | Como a ressignificação de uma estrutura industrial fortalece a cena eletrônica?

Você já deve ter ouvido falar do Gashouder, Berghain, Printworks, Victoria Warehouse e, até mesmo, da nossa versão brasileira, ARCA. Todos os citados acima são enormes estruturas – galpões e edifícios – que viraram casa de clubs ou festas de música eletrônica. São espaços adorados (até mesmo, sagrados) pelos amantes do gênero musical, do comercial ao underground. 

O mais interessante, e o que poucos sabem, é que todos compartilham de uma mesma coluna vertical, com histórias e propósitos muito parecidos – mesmo sendo empreendimentos de iniciativa privada, espalhados por diferentes cantos do mundo, construídos em anos diferentes e geridos por equipes não conectadas entre si. Está confuso? Vamos de uma aula de história rápida: 

O Gashouder, galpão construído em 1880 que abrigava o reservatório de uma antiga fábrica de gás, fazia parte do complexo Westergasfabriek (hoje conhecido apenas como Westergas), em Amsterdam. Após o fechamento da fábrica em 1967, a região, que já era altamente poluída, degradou-se mais ainda e os edifícios do complexo ficaram inutilizáveis. Porém, em 1990, empreendedores tomaram as rédeas de um grande projeto: ressignificar o espaço por completo. Encontraram soluções para lidar com a poluição do solo e a região foi revitalizada, transformando-se em um grande centro cultural holandês. O Gashouder, per se, abriga diversos tipos de eventos, mas é conhecido na nossa comunidade pelo festival Awakenings.

Berghain é um enigmático club de Berlim onde, além de fotos e vídeos serem proibidos, as chances de entrar no local são mínimas (se o segurança da fila não for com a sua cara, ele vai te barrar e não adianta fazer chororô). O espaço era uma antiga usina de energia construída em 1950. Em 2004, via iniciativa privada, o edifício, que estava abandonado há anos, abriu as portas como club. Os atuais proprietários não retocaram o aspecto trash e industrial do local – que bom! – mas ressignificaram seu propósito: de fábrica abandonada para epicentro da música eletrônica underground.

Já o Printworks era uma antiga gráfica localizada em Londres, construída em 1989, que foi responsável por imprimir os famosos jornais The Daily Mail e Metro. Em 2012, a empresa que geria a gráfica se mudou para outro edifício, deixando o espaço vazio. Cinco anos depois, empreendedores ressignificaram o local e abriram as portas novamente como Printworks London. Famoso pelas festas que acontecem no The Press Hall, é hoje um dos melhores clubs do mundo – as festas do label Afterlife são uma obra de arte à parte. 

Na cidade de Manchester, a 260 km de Londres, o Victoria Warehouse carrega uma baita história. Em 1932, durante o apogeu da indústria têxtil de Manchester, a Liverpool Warehouse Company construiu o Victoria Warehouse para armazenar algodão e tecidos. Porém, após um grande incêndio destruir o local em 1980, parte do prédio ficou inutilizável. Por anos, não houve alma viva por lá. Foi só em 2005 que um grupo de empreendedores propuseram um ambicioso plano de reconstrução, visando torná-lo em um dos melhores espaços de eventos do mundo – e assim fizeram. O Victoria Warehouse ficou conhecido pelos fãs de música eletrônica depois de abrigar o projeto britânico The Warehouse Project e, desde então, é comumente utilizado para festas.

Por fim – já que o final de qualquer história é sempre o mais aguardado – vem a majestosa ARCA. No coração de São Paulo, o galpão era uma antiga fábrica metalúrgica da Votorantim, construído em 1944 na Vila Leopoldina (São Paulo). Apelidado de a ‘Fábrica das Fábricas’, serviu como metalúrgica até o final do século 20, mas foi abandonado após a empresa desativar a fábrica. Décadas se passaram onde os únicos visitantes eram pombas e ratos. Porém, em 2017, os sócios Mario Sergio Albuquerque e Mauricio Soares – grandes nomes da cena eletrônica nacional – abriram as enormes portas de ferro e exclamaram: wow! O galpão tomou o nome de ARCA e se transformou em um espaço de eventos focado na indústria criativa. As festas não ficaram de fora dessa: já teve Solomun, Circoloco, Elrow e, ano que vem, será o espaço do primeiro Afterlife São Paulo (entre muitas outras labels nacionais e internacionais).

O processo de ressignificação de espaços abandonados, em especial galpões e edifícios industriais, é quase que crucial para a indústria da música eletrônica. Não que espaços menores e novos não sejam importantes – são, e muito – mas a graça dessas estruturas antigas é que não faltam metros quadrados para unir pessoas ouvindo boa música. Na ARCA, por exemplo, podemos juntar quase sete mil pares de pernas dançantes, amantes tanto do som underground quanto comercial. Existe espaço de sobra para imaginar, explorar todos os cantos da criatividade e fomentar a cena eletrônica. É, como sempre dizemos, uma ‘tela em branco’ onde festas e festivais podem ir além do esquema comum de entretenimento, onde as oportunidades para pensar fora da caixa e surpreender o público são inúmeras. 

Cada vez mais a cena eletrônica pede por inovação, por encanto, por êxtase para alcançar mais público. Mesmo que, muitas vezes, o line-up seja o potencializador de venda de tickets, um evento verdadeiramente extraordinário não deve colocar o line-up acima de tudo, mas sim a experiência. Por que e como esse evento vai ser diferente dos outros? Quais aspectos farão a vivência do público ser inesquecível? Nada como um enorme espaço para colocar as ideias inovadoras em prática.

Se não fosse pelo processo de ressignificação, esses tão aclamados centros da música eletrônica provavelmente não existiriam. Continuariam abandonados ou seriam demolidos para dar espaço a prédios, casas e escritórios – aquela mesmice. A partir da iniciativa empreendedora, essas construções ganharam vida, um novo propósito, para brilhar os olhos do público. Nas grandes cidades, em especial nos bairros bem localizados, é muito difícil encontrar edificações enormes para fazer grandes eventos – logo, a desafiadora transformação de um local abandonado em um espaço de eventos multifuncional colhe muitos frutos com o passar dos anos. 

Por fim, é importante lembrarmos da importância que os galpões industriais têm na história da música eletrônica. Foi dentro dessas estruturas de concreto e ferro, desgastadas e negligenciadas, que a House Music e o Techno floresceram. Lá no início, muitas dessas festas undergrounds eram consideradas ilegais, e era necessário um espaço low-profile, barato e inusitado para sua concepção. Pelo fato de serem locais ‘deixados de lado’ pelo Estado, acabaram se tornando atmosferas seguras para as minorias que construíram nossa cena.  

“Até os instrumentos que, hoje, são clássicos da música eletrônica, como a 808 e 909, são objetos ressignificados. A 808 foi criada para músicos usarem como acompanhamento para a prática, para imitar uma bateria, por exemplo. A 303, um instrumento que fez surgir o Acid House e influenciou muito o Techno, veio de um produto que não deu certo, que não era bom para fazer o que pretendia (imitar um baixo)”, diz João Machado, produtor musical, engenheiro de áudio e um grande amigo. 

A coluna vertebral da música eletrônica está intrinsecamente ligada ao conceito de ressignificação, seja de espaços ou instrumentos. Música eletrônica é sobre pensar diferente, sobre ressignificar. 

A música conecta.