Editorial

A histórica relação entre Santa Catarina e o House Progressivo

Já se passaram mais de 15 anos desde que a cena eletrônica catarinense se estabeleceu como um dos centros da Dance Music sul americana e mundial. Em toda cena de relevância, dentre os diversos estilos que ela recebe e produz, algum sempre acaba se associando com maior intensidade, criando  laços profundos e em consequência alterando a percepção musical de toda uma geração de clubbers. Em Santa Catarina, não aconteceu diferente. Quando olhamos para trás, é flagrante a ligação com o House Progressivo.  

Para compreender melhor o contexto envolvido e como surgiu essa relação de amor do público catarinense com o estilo, precisamos mergulhar em duas frentes: as origens eletrônicas de SC e a enorme influência de um lugar – o Warung Beach Club. Conversando com artistas e pessoas que fizeram parte desta construção local, uma dúvida pairava sobre minha mente: “já existia uma tendência do público ao estilo antes do “templo” ou foi algo que foi trazido pelo clube?” DJ Handerson, Daniel Kuhnen, Leozinho, Gustavo Rassi, Gustavo Zagonel, Danee, foram alguns dos nomes que me ajudaram a elucidar essa questão. Por unanimidade, todos falaram a mesma coisa: a cena progressiva se iniciou com o Warung.  

Origens

Tudo começou com o Baturité ainda no final dos anos 70, um clube pensado para receber uma quantidade de turistas cada vez maior em uma cidade de crescimento frenético. O ‘’Baturá’’, como era chamado, se tornou um símbolo da cultura de pista na região sul e após a estabilização da moeda nos anos 90, a região se consolidou como um vetor do turismo de luxo e automaticamente a procura por vida noturna de qualidade explodiu. Essa influência passou a tocar nas rádios da região através de patrocínios dos clubes, fazendo com que diversas pessoas de outras cidades passassem a se interessar pelo que estava acontecendo no litoral. 

Arquivo pessoal DJ Handerson : Foto 1 Baturité 1979 / Foto 2 Baturité 1998

Em paralelo a cultura clubber, existia uma cena rave underground consistente, também sendo favorecida pelo alto movimento turístico em busca de novas experiências. Podemos destacar as festas da Hypno no Porto das Águas em Porto Belo, que trazia importantes nomes do Psytrance como Infected Mushroom e Skazi. De fato, os primeiros grandes DJs internacionais a pisar neste solo, foram os pioneiros do psy.  

Ainda nos anos 90, o litoral norte tinha locais como o Café São Rock, Mein Bier, In-dustrya, Club Ibiza, Kiwi, Maria’s e claro, o lendário Baturité, quase todos localizados na Barra Sul de Balneário Camboriú, que durante muitos anos foi o point noturno com mais clubes por metro quadrado do país. Esses locais se alternavam abrindo quase todos os dias e recebiam certa influência dos DJs de São Paulo, que eram admirados como se fossem de ‘’fora’’, seja no Techno ou no House como Renato Cohen, Anderson Noise, Camilo Rocha, Renato Lopes, Mau Mau, etc.  

Foto arquivo pessoal DJ Handerson – Club In-dustrya, Barra Sul Balneário Camboriú

Ascensão da cultura de pista em SC  

Junto com a abertura do Warung em novembro de 2002, podemos dizer que se estabeleceu uma segunda geração de clubes no litoral norte. Vale destacar a Case, Djunn, Cult, Ayia Napa, Deseo, Parador e Dreams.  É importante ressaltar que a maioria desses locais eram de frente para o mar, onde o conceito de ‘’Beach Club’’ tinha uma força turística enorme. Por essas e outras, a região começou a ser chamada de ‘’Ibiza Brasileira’’ pela própria mídia internacional. 

Club Ibiza, Barra Sul Balneário Camboriú – anos 2000

Esse contexto pode ter sido determinante para elementos viajantes, melódicos e tribais que compõem o estilo progressivo caírem no gosto tanto do público da região que ia ao litoral em busca de festas, quanto dos turistas que muitas vezes não tinham muito conhecimento sobre música eletrônica, mas que estavam abertos a novidades musicais. 

Dreams Beach Club, Balneário Camboriú 2007 – Estaleirinho

Outro ponto importante foi que esses clubes começaram a trazer DJs argentinos convergentes ao House Progressivo com frequência, incluindo nomes como Hernan Cerbello, Lucas Abadi, Teclas, Deep Mariano, Spitfire e claro, o grande Ricky Ryan – talvez o argentino mais brasileiro de todos. Ryan influenciou toda uma geração de clubbers e DJs em SC, tocou por diversas cidades do interior como Brusque, Blumenau, Indaial, e por alguns anos fez parte do time de residentes do Warung, onde incontáveis vezes fechou o main room de forma sublime.  

Até 2010, a influência do que acontecia no litoral era tão grande, que a cultura de pista chegou a se estender para o vale do Itajaí até chegar no Oeste. Em Gaspar, o club Jungle recebia os residentes do Warung com frequência. O lendário Carambas em Indaial trouxe Funkagenda em 2007 e constantemente recebia grandes nomes do cenário. Em Blumenau, o clube OBS trouxe em 2009 nomes como Josh Wink e Paolo Mojo. Em Xanxerê, uma pequena cidade do extremo oeste, por anos se realizou o evento Harimusic, recebendo Chris Lake em 2008 e King Unique em 2010. Nos últimos 10 anos, o clube Amazon em Chapecó se destacou conseguindo levar lendas como Sasha, Nick Warren e Hernan Cattaneo – algo impensável para qualquer outra cidade desse tamanho no Brasil, não fosse a enorme influência que o litoral tem sob seus visitantes. Tantos clubes e DJs tocando todos os finais de semana fizeram de Santa Catarina ser considerada a meca da música eletrônica na américa do sul. 

Folder evento Hari Music Chris Lake 2008 / King Unique 2020

‘’A história do Warung e do House Progressivo se confundem ao longo do tempo devido a importância que os maiores DJs que já reproduziram esse tipo de música tem para o clube.’’

O templo e a inserção de um novo estilo musical  

Porém, nada seria como foi ou como é, não fosse uma aposta em uma cabana de madeira inspirada por uma viagem de surf na Indonésia. É consenso que existe um antes e depois para Santa Catarina depois que o Warung Beach Club foi destacado em uma matéria da lendária revista britânica DJ Mag em 2007. Sob o título de ‘’Paraíso encontrado’’ o clube da Praia Brava foi alçado a um dos 3 melhores do mundo. Esse acontecimento foi um carimbo nacional para uma cena efervescente, dinâmica, repleta de artistas internacionais chegando semanalmente para trazer o que havia de mais novo em termos musicais.   

Créditos: Fábio Mergulhão

Até chamar a atenção da mídia internacional, as pessoas em SC talvez nem se dessem conta do quão especial era tudo que estava acontecendo. Devemos também colocar no contexto que esse boom progressivo no estado, se deu também pelo casamento ideal do ápice do estilo no mundo (2000-10), com um tipo de música que combina perfeitamente com a vibe litorânea e espiritual que as pessoas buscam. Em resumo, antes do templo, havia uma cena difusa em SC, onde acontecia festas que iam desde o ‘’poperô’’, até Techno, House e Psy. Porém, foi com o advento do Warung que o público local e do sul pode ter contato com o que se entendia por House Progressivo no Reino Unido, EUA, e seus respectivos DJs pais fundadores. Como já disse o sócio fundador Gustavo Conti – ‘’o club foi feito para esse estilo’’, para receber os mestres de quem ele, o Leozinho e o João Mansur eram fãs.  

O som dos Ingleses 

1997, esse é um ano chave para entendermos o porquê desse estilo ser introduzido em SC. Foi quando Leonardo Arlant foi morar em Londres. Lá, ele obteve contato com uma cena em ebulição que transformou DJs em super astros. Caras como Paul Oakenfold, Danny Howells, Dave Seaman, Nick Warren, Darren Emerson, Layo & Bushwacka, Antony Pappa, e, principalmente, Sasha e John Digweed fizeram a cena em cidades como Londres, Manchester e Liverpool virar o epicentro da cultura clubber na Europa. Leozinho teve contato com álbuns desses artistas e descobriu um mundo novo. Mais precisamente estamos falando da série Northern Exposure, iniciada em 1996 por Sasha e John Digweed  e que deu o pontapé a tudo que mais tarde iria se consolidar como House Progressivo; se espalhando pelo resto do mundo. Era nada mais nada menos do que o melhor do Trance misturando com o melhor do house e formando um estilo anestésico, viajante e transcendental (do Trance) com linhas de baixo, groove e swing da House Music de Chicago.   

A série Northern Exposure foi sucesso de vendas em todo Reino Unido, sendo os primeiros CDs de música eletrônica da história a rivalizar com o rock nas paradas de vendas. Leozinho trouxe para o Brasil toda essa experiência e influenciou Gustavo Conti na abertura do club Rave em Curitiba. Em seguida, todo esse background foi transportado para a Praia Brava na concepção do clube.  

Recebendo os pais fundadores do estilo 

O cartão de visitas do templo foi logo com Timo Maas, e nos primeiros anos o clube recebeu Danny Howells, John Digweed, Lee Burridge, Hernan Cattaneo, Deep Dish, até chegar na noite de coroação do estilo no estado durante o carnaval de 2006 com um set de mais de 10 horas de ninguém menos que Sasha – o grande pioneiro do estilo.  

Folder de inauguração Warung Beach Club – 2002

Vale ressaltar que nos três primeiros anos, o Garden tinha a missão de equilibrar a demanda com DJs de Techno e Psy, afim de atrair um público local mais antigo e, pouco a pouco, literalmente convidá-los a subir (main room) para acessar a vibe inconfundível que a música progressiva fazia no pistão.  

Nesse momento, a contribuição do sol e a possibilidade de os DJs fazerem sets intermináveis ao longo da manhã foi algo fundamental. Um processo de educação musical do zero de um público que estava ligado a BPMs bem mais elevados. A partir desse movimento, SC pode criar uma identidade própria que perdura até hoje, mesmo com a ascensão do EDM e a volta do Techno ao mainstream, o público catarinense (podemos incluir o sul) ainda é capaz de dar sold out em uma noite de Hernan Cattaneo. Com o passar dos anos, basicamente todos os expoentes do estilo vieram para o Warung e para clubes da região. 

Sasha estreando no WarungCréditos: Fábio Mergulhão

A consequência? Um público super exigente, conhecedor como poucos no mundo de como os grandes DJs são capazes quando confrontados com a possiblidade de tocar por horas e horas. Pode parecer exagero, mas não é, são poucos os clubes no planeta que concedem mais de 5 horas para um DJ tocar. E mais, por quase 20 anos! Então, olhando para o lado da pista, os que estão indo no Warung consistentemente ano após ano, conhecem muito mais sobre a capacidade de um DJ, do que aquele público Europeu ou Americano, que assiste apenas as tradicionais 2 horas de set. A partir disso, a cena local fez emergir DJs e produtores catarinenses com essa base de ter visto como se conduz uma pista. Nomes como Daniel Kuhnen, Danee, ZAC e mais recentemente Blancah, podem ser considerados símbolos do que a influência dos sons com profundidade pode fazer. 

Futuro 

Após a ascensão do Techno ao mainstream nos últimos anos, um público novo emergiu ao som de Detroit com força no estado, abrindo espaço na programação dos clubes da região e festivais.  

A retomada do Warung pós pandemia deixa bem claro que a preservação de suas origens está mantida. Lendas da casa como Hernan Cattaneo, Sasha e Audiofly, marcam presença, enquanto nomes em alta como Guy J e Monolink são destaques da programação de verão 2022. Música com alma, melodias e groove continuam dando o tom. O Surreal Art Park, novo espaço em Camboriú voltado a sonoridades voltadas ao Techno, House e Minimal, tem em sua agenda nomes como Frankey e Sandrino, Be Svendsen, WhoMadeWho e Facundo Mohrr. Renato Ratier em sua entrevista de lançamento, deixou claro que o novo clube está aberto a todas as sonoridades e compreende a relação histórica que o House progressivo tem no estado.   

‘’Já disse várias vezes que mais do que um estilo de música, o progressivo é um estilo de tocar música, uma espécie de filosofia por trás de mixar e construir um set. E eu digo isso não para extrair valor disso como gênero, mas para transmitir que o progressive house  tem influências tão amplas que o torna muito adaptável a outros gêneros, especialmente, em tempos tão confusos. Poderíamos defini-lo como o gênero dos gêneros, porque você pode encontrar em sua composição um pouco de house e algo de techno, mas também trance, tribal ou breakbeat.’’ (Hernan Cattaneo no livro El Sueño del DJ, pág 207) .

A música conecta.