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Editorial | O sonho da dança coletiva está de volta à Europa: fato, otimismo ou ilusão?

Você ainda se lembra de como é estar em uma pista de dança? Sentir a pressão do sistema de som enquanto se esbarra em um mar de gente? Pois é, sensações essas que não vivemos há mais de um ano por conta da pandemia causada pelo COVID-19 e qualquer tipo de aglomeração segue completamente fora de cogitação no atual panorama. Daí que estamos aqui em nossos sofás e já há alguns dias surgem notícias de que clubs e festivais europeus estão com data para retorno. A inveja bate forte, pois aqui no Brasil ainda seguimos em um mar de dúvidas (apesar de alguns anúncios para o final do ano) sem nenhuma previsão exata de respostas.  

Já na Europa, países que desde o início da pandemia realizaram grandes esforços para conter a proliferação do vírus e que viram resultados positivos parecem dar seus primeiros passos para que a vida noturna possa voltar às suas atividades. Mais do que trabalhar em caráter humanístico, muitos dos países europeus compreendem a urgência desse retorno, já que o ramo do entretenimento é o que mais sofreu as mazelas do coronavírus. Uma pesquisa feita pela Oxford Economics em julho de 2020 projetou que o ano passado acabaria com perdas de US $45,3 bilhões no Reino Unido, com 102 mil pessoas sem emprego no segmento.

A indústria do cinema foi a mais afetada, mas a da música vem em segundo lugar. A pesquisa ainda aponta que, por mais que gravações em estúdio, lives e outras produções do tipo tenham ajudado a segurar as pontas, a expectativa ainda era de que, ao final de 2020, o Reino Unido sofresse uma queda de 50% no segmento, com quase US$ 4 bilhões de perda econômica e corte de 60% das vagas de emprego somente nesse setor. Lembre-se que estou falando apenas do Reino Unido. Consegue dimensionar isso em uma escala global?

Pois bem, chegamos em 2021, o estrago é imenso (nem vou tentar falar do Brasil por enquanto que o olho chega a marejar), mas tem quem é otimista e segue tentando trazer uma luz no fim do túnel para essa situação. O próprio Reino Unido foi um dos – senão o primeiro – a anunciar uma data de retorno dos eventos, 21 de junho. Claro que essa data só será cumprida se todo o planejamento de vacinação se mostrar bem sucedido. O governo britânico trabalha com a previsão de que até 31 de julho todos os adultos de lá já tenham tomado pelo menos uma primeira dose da vacina.

O epicentro do cenário eletrônico espanhol, Ibiza, também acredita ter um bom prospecto de retorno de suas atividades neste ano. O governo local informou que a vacinação de toda a ilha será entre abril e maio, preparando a população e estabelecimentos para uma possível retomada na temporada de verão. Vale lembrar que Ibiza não parou por completo no ano passado, os beach clubs e bares puderam seguir funcionando por serem ao ar livre, claro que respeitando as normas de distanciamento social e redução de capacidade.

Outra demonstração de que a Europa quer retornar o mais rápido possível às atividades noturnas foi um experimento de dois dias na Holanda – que está em lockdown em todo território nacional – no último fim de semana, onde 1500 pessoas, após testarem negativo para o vírus, puderam comprar seus tickets e participar de um evento. A ideia era demonstrar que, com um controle rígido sobre os participantes antes e durante os eventos, essas aglomerações não seriam responsáveis por uma onda de infecção. As medidas de distanciamento foram relaxadas, porém o uso de máscara era recomendado 

Com tantos acenos a uma volta à “normalidade”, os grandes festivais europeus estão otimistas e seguem anunciando datas para o verão 2021, como o Reading and Leeds Festival, que já tem 80% dos tickets vendidos. O Exit Festival, que acontece na Sérvia, também tem datas anunciadas e ingressos à venda, onde de Nina Kraviz a Sepultura se apresentarão entre os dias 8 e 11 de Julho. Ultra Europe, Tomorrowland, Creamfields, Mysterland, Amsterdam Dance Event, Parklife e MadCool também estão confirmados para acontecer este ano.

Há, claro, quem discorde de toda essa positividade que tenta pairar sobre o continente europeu. Os espanhóis Sónar e Primavera Sound foram alguns dos festivais que cancelaram a edição de 2021, justamente por conta do cenário que ainda é repleto de incertezas. Outros também preferiram se manter precavidos, como o Melt! e Rock in Rio Lisboa, e remarcaram os eventos para o ano que vem. Isso porque, mesmo com os esforços para vacinar a população, há outros fatores importantes nessa pretensa retomada, como a controle do trânsito de público entre países e evitar uma nova onda. A operação precisa ser inteligente, aplicável e com grandes fiscalizações. 

Outro fator importantíssimo é a necessidade de conscientização e movimentos a partir da população e, neste aspecto, infelizmente ainda encontramos uma parcela expressiva da sociedade que dificulta o progresso contra a pandemia, ao, por exemplo, realizar e participar de festas clandestinas. Se você pensa que é só no Brasil que rola isso, muito se engana. No caso da Alemanha, o governo está atuando desde o início da pandemia contra festas ilegais, e quando digo festas, são festas de verdade. Houve um caso reportado pelo jornal DW onde uma festa ilegal em julho passado contava com mais de três mil participantes, algo totalmente irresponsável e egoísta. A passagem de final de ano também aterrorizou outros países como a França, onde encontraram um evento clandestino com mais de 2.500 na comuna de Rannes. Assim como esses dois, diversos outros países relatam, desde o início de 2020, movimentações ilegais e desrespeitosas.

Essa é uma das barreiras enfrentadas por todo o mundo e não apenas através das aglomerações clandestinas, pois é evidente a falta de responsabilidade e egoísmo das pessoas em descumprir normas que visam minimizar o contágio da doença. Ações essas que são embasadas na “liberdade de ir e vir” ou então até mesmo na minimização e negacionismo do momento que vivemos, algo completamente inconcebível em pleno 2021. 

Mas como todos esses festivais estão otimistas perante um cenário nem tão otimista assim? Planejamento e gerenciamento. Diferente da realidade brasileira, os países europeus além de abordarem a realidade com calma e estratégia, não se esqueceram que o mercado do entretenimento é gigantesco, movimentando muito dinheiro e gerando empregos diretos e indiretos. Inglaterra e Alemanha são exemplos de governos que subsidiaram auxílios às mais diversas frentes dessa indústria, fazendo assim com que as mesmas pudessem se planejar melhor e explorar outras formas de monetização sem ser as que seguem proibidas como as festas.     

Outro exemplo de planejamento é a implementação de um passaporte (ou certificado) de vacinação para os países que fazem parte do bloco econômico, prevendo  justamente o alto fluxo de viajantes nessa possível retomada de eventos. A medida ainda está sendo desenvolvida e portanto não existem muitos detalhes sobre como seria emitido ou fiscalizado esse tal certificado, mas é algo discutido como prioridade máxima pelos integrantes da UE. 

Você até pode tentar comparar a situação de nosso país com o continente europeu, mas essa comparação será completamente injusta e obtusa. São muitos fatores que acarretam o momento que enfrentamos. Não existe planejamento ou gerenciamento em âmbito geral no país. Além disso, não há respaldo governamental para a nossa indústria. O governo brasileiro tem uma abordagem completamente diferente do que os países europeus – e de todo o resto do mundo, convenhamos -, afinal, ainda temos que ver governantes defendendo tratamentos contra COVID-19 sem comprovação científica e lutando contra as medidas de isolamento, uso de máscara e lockdown.

E claro, não dá pra negar que nós também temos nossa parcela de culpa nisso, umas vez que descumprimos, em algum momento, as restrições indicadas pelos especialistas. Churrascos na casas de amigos, viagens à praia e até mesmo aqueles que têm coragem de ir nessas festas clandestinas, que infelizmente não são poucas e contam com suporte de muita gente. Festas de todos os tipos, tá? Funk, Sertanejo, Eletrônico, a falta de civismo e compaixão com o próximo não é restrita a um nicho só. 

Não podemos esquecer que, infelizmente, o processo de vacinação aqui no Brasil está longe de ser como está sendo em países que sempre entenderam que a vacinação é a única saída, diferente daqui, onde alguns políticos chegaram a sugerir pulverizar as cidades com álcool em gel através de aviões. Chega ser tragicômico. Um dos reflexos dessa falta de seriedade na hora de encarar uma situação emergencial como uma pandemia foi o desenvolvimento de uma cepa super resistente e muito mais contagiosa do vírus, a tal cepa da Amazônia, o que complica ainda mais quando tentamos pensar em um panorama positivo.

A Europa pode até sentir uma esperança do gostinho do “antigo normal” nesse verão que se aproxima, mas será que o Brasil poderá desfrutar do mesmo no verão de 2021? Eu gostaria, mas duvido.

A música conecta.

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