Consistência, qualidade musical, boa curadoria e identidade são algumas maneiras de evidenciar de maneira justa o trabalho que a Totoyov faz há mais de seis anos. A label, comandada por Arthur Thalison, ou Arthus, já passou a marca de 50 lançamentos, jogando luz em cima de talentos da música Minimal em suas mais diversas possibilidades. Seu catálogo, além de promover boa música de nomes nacionais e internacionais em vários momentos de carreira, também usa com perspicácia os estímulos visuais de uma personalidade artística que nos faz transportar por OVNIs até galáxias desconhecidas: as músicas propriamente ditas.
O próximo lançamento do selo sugere uma celebração em dose dupla. Primeiro, o retorno da magnífica parceria musical entre os DJs e produtores portugueses Rowan e Bessone. Segundo, e não menos importante, a revisitação da Totoyov aos terrenos do vinil, projeto que foi intitulado Totoyov Gold Series e havia gerado um lançamento no primeiro semestre de 2021. Agora, para o seu lançamento TGS002, os amantes de bolacha entrarão em contato com o EP Ragnarök. As duas faixas originais de Rowan e Bessone, Ragnarök e Apokalyps, ainda vieram a ganhar novas visões pelas mentes dos remixers Vern, romeno, e Kirik, ucraniano.
Artistas integrantes do Home/made Sound, coletivo de DJs e produtores portugueses que faz bom uso do apelo comunal da dance music para reforçar e impulsionar seu desenvolvimento e oportunidades no cenário, Rowan e Bessone desembarcam nas piras intergalácticas da Totoyov em grande estima. São excelentes produtores, apaixonados pelo que fazem e têm muitas boas ideias para levar adiante. Agora que estamos com este lançamento, faz sentido conversarmos com eles, em um papo em dupla que pode esclarecer esta parceria musical contundente. Vamos lá.
Oi Rowan, oi Bessone! Vamos ser diretos: Por que o Minimal? O que lhes atraiu nesse estilo?
Rowan – Olá! Bem, para falar a verdade, descobri o Minimal há mais ou menos 4 anos. Eu estava num curso de produção de música eletrônica e já ouvia alguns artistas que também tocavam Minimal, mas não só, como tINI, Apollonia, o trio [a:rpia:r] (Raresh, Rhadoo e Petre Inspirescu), Sonja Moonear, entre outros. O que mais me atraiu no Minimal, em particular, é o fato de não ser um estilo pré-definido. É sim, como o nome indica, majoritariamente minimalista, mas tem influências de House, Techno ou até Breakbeat e Electro. Isso traz sonoridades mais frescas e novas à cena da música eletrônica.
Bessone – Olá a todos! O Minimal tem um som muito próprio, super intimista, que nos faz sentir a música de forma diferente. Consegue beber da fonte de várias influências. Ainda me lembro quando, há uns 4 anos, um dos meus melhores amigos me convidou para ir ao OffSónar, em Barcelona. Participamos da festa da [a:rpia:r]. Nessa festa foi quando me deu o ‘click’, e tudo virou. A forma como o trio conduziu o set me fez despertar toda a atenção. Desde então, fui mudando a minha forma de fazer, procurar e tocar música. Tudo fazia sentido.
Rowan e Bessone demonstraram-se uma parceria musical bem prolífica. Foram várias as colaborações de vocês. Por quê? Vocês têm aspectos em comum sobre foco de carreira, gostos musicais, referências?
Rowan – Sem dúvida, podemos dizer que foi uma parceria bem prolífica em dois anos apenas. Conheci o Bessone pela Internet, devido a amigos em comum. Partilhamos os mesmos gostos musicais, isto em plena pandemia. Isso fez com que as colaborações em projetos surgissem naturalmente, devido ao fato de os clubs estarem fechados e haver mais disponibilidade para tal. Desde então, ficou um irmão para a vida, não só na música.
Bessone – Tínhamos muita coisa em comum a nível musical; ideias, metas e etc. Foi tudo de uma forma natural e divertida. Quando reparamos, já estávamos trocando ideias todos os dias, finalizando algumas tracks e pensando como seria quando tudo voltasse ao normal. Hoje em dia falamos muito sobre isso. É sem dúvida um prazer ver e ouvir tudo o que aconteceu ao longo destes 2 anos. Uma parceria que trouxe resultados e tenho muito orgulho dela.
Agora sobre a parceria com Arthus, da Totoyov, com quem colaboraram algumas vezes também, a exemplo de Caboclo. Como se deu essa amizade musical com ele?
Rowan – O Arthus eu conheci através do Bessone pouco depois, porque ele já tinha enviado promos para a Totoyov e já conhecia o trabalho da gravadora, então ele me falou do Arthus e do projeto. Já tínhamos algumas tracks finalizadas, enviamos para o Arthus e assinamos este disco que vai sair agora. Assim se criou logo uma amizade com o Arthus, e então decidimos começar a trabalhar os três em tracks, isso tudo enviando stems pela internet e trocando ideias por videochamadas. Acabamos assinando várias faixas em VAs e um EP na label Afterme, do artista russo Ki.Mi.
Bessone – O Arthus tem o mesmo pensamento que nós e um coração enorme. Assim surgiu a nossa amizade. Criamos o nosso método de trabalho e as tracks foram aparecendo. Dessa colaboração surgiram 6 tracks, das quais ficamos super felizes com o resultado final. Com certeza foi uma parceria que trouxe resultados e ainda tem muita coisa boa por vir.
E como rolou essa oportunidade de lançar com eles novamente, agora em vinil?
Bessone – A oportunidade surgiu quando o Rowan e eu estávamos enviando umas promos para o Arthus e ele adorou uma track específica, “Ragnarok”. Falava com ele todos os dias e ele dizia que a track não saía da cabeça. Até que ele ligou e disse que estava fechando o TGS002 e queria muito que a ‘Ragnarok’ saísse no disco. Ficamos super felizes com o convite dele e por lançar um EP em disco na Totoyov.

Quais são as principais diferenças, na experiência de vocês, entre as cenas de Portugal e do Brasil?
Rowan – Posso falar mais em relação à cena aqui em Portugal. Felizmente, nos últimos anos teve uma evolução enorme no sentido de apostar mais no valor de artistas nacionais. Sempre houve muitos e bons clubs, principalmente em Lisboa e no Porto, que já traziam artistas respeitados da cena eletrônica underground. No entanto faltava esta aposta no produto nacional, que tem muita qualidade. Do Brasil, apenas pelo que vejo e pelo que o Arthus vai falando, penso que aqui na Europa acaba tendo mais facilidade em ter acesso à comunidade e à cena underground em geral. No entanto, no Brasil tem excelentes DJs e produtores, bem como clubs e festivais, mas penso que acaba por ser mais centrado em São Paulo e no Rio de Janeiro. Acabei já conhecendo na Internet coletivos brasileiros focados no Minimal com excelente trabalho, o pessoal da Plantae e da Eso.teric, em Curitiba.
Bessone – A cultura da música eletrônica em Portugal já existe há mais tempo do que no Brasil. Daí que se sinta alguma diferença. Em Portugal a cena está ficando forte outra vez, felizmente, como em outros tempos. Mas sinto que, cada vez mais, o Brasil tem ficado forte no panorama. Muitos artistas da Europa têm visitado o Brasil para tours e voltam daí contentes com tudo o que tem acontecido e visto. Do que tenho acompanhado, fico feliz com tudo o que está acontecendo por aí em nível de clubs, produtoras de eventos e festivais. A cena eletrônica está deixando de estar focada só em São Paulo e indo cada vez mais para outros estados, o que é muito bom.
Quais são os outros artistas brasileiros, além do Arthus, é claro, que vocês acreditam se destacar em qualidade de produção?
Rowan – Anthony, Caio R e recentemente descobri o trabalho da Marcela Dias Sindaco, que é muito bom.
Bessone – Há muitos bons produtores no Brasil. Anthony, Allan Blue, Beckhauser, Caio R, Lipp são exemplos.
Vocês fazem vários lançamentos via Bandcamp. O que torna a plataforma tão atraente para artistas independentes?
Rowan – Bandcamp revolucionou, porque acaba funcionando muito bem como intermediário direto do artista com o comprador sem passar pela label e, como é óbvio, a quota baixa que a plataforma cobra por esse serviço, o que nos permite vendermos a nossa música com maior margem de lucro. Me vejo cada vez mais fazendo digging e comprando música no Bandcamp. Penso que no futuro irão surgir ainda mais plataformas deste gênero.
Bessone – Sem dúvida é a maneira como eles fazem a divisão das taxas. Os artistas que não são do alto circuito da produção ‘finalmente’ conseguem obter algum retorno em relação à sua música. Isso já não acontece em outras plataformas de venda. Cada vez mais a melhor música digital é encontrada no Bandcamp. As pessoas são livres para expor a sua música e já não é preciso haver intermediários para tudo.
Como costuma ser o processo de criação de uma faixa para vocês? Por onde geralmente começam?
Rowan – Normalmente preciso de uma base rítmica para iniciar o processo criativo, ou seja, começo pela bateria, algo simples para depois começar a trabalhar a parte harmônica da track, como synths, bass, etc. No entanto, às vezes posso até já ter uma ideia melódica de uma linha de baixo, por exemplo, até um simples glitch noise pode gerar o processo criativo, ou até estar experimentando algum VST novo e surge uma ideia para uma track nova.
Bessone – Geralmente começo pela parte rítmica para começar a sentir a track. Depois passo para as partes harmônicas, principalmente pelo bass. Gosto muito de trabalhar também os pormenores da track, como os glitches, noises e etc. Faz a track às vezes ganhar um corpo que, ao colocar outras camadas, pode não ganhar (render).
O que pretendem para suas carreiras daqui em diante?
Rowan – Tenho vários projetos que felizmente estão evoluindo cada vez mais, quer o meu projeto pessoal, Rowan, pelo qual vou lançar ainda este ano vários EPs em labels bem conhecidas da cena, bem como o apoio de vários artistas como Janeret, Maher Daniel, Raresh, Prichindel, Crihan, entre outros, que vêm tocando algumas das minhas faixas mundo afora. Depois, tenho o projeto Scienza X, que terá o primeiro lançamento ainda este ano, em vinil, pela Apolo Records na [loja de discos parisiense] Yoyaku. Por fim a Home/Made, do qual o Bessone faz parte desde o início e que se tornou um coletivo de artistas portugueses que se conhecem bem e se entreajudam a evoluir musicalmente, o que fez com que a label crescesse bastante nos últimos dois anos também. Essencialmente gostaria de ver estes projetos atingirem o sucesso, o que fará também com que eu atinja os meus objetivos individuais. Quero continuar lançando música, vinil e digital, em gravadoras nas quais me vejo e que já lançaram artistas que eu admiro. Possivelmente, no futuro, começar a minha própria gravadora também.
Bessone – Seguir o trabalho no nosso coletivo Home/Made para que continue a crescer da forma que tem crescido. Tem sido um orgulho enorme poder juntar tantos amigos e talentos que temos no nosso país. Mostrar que se todos estivermos juntos, conseguimos criar coisas bonitas. Portugal é um paraíso! Fazer muita música e trabalhar com artistas que gosto. Isso também é um ponto chave na minha carreira. Não há nada melhor do que poder ver a nossa música rodar por este mundo e ser tocada por artistas que admiramos. Continuar a tocar, ser feliz e fazer as outras pessoas serem felizes na pista… sempre.
Bessone, você faz parte do coletivo Home/Made Sound, que reúne mais nomes portugueses. Há interesse em trazer cada vez mais artistas de lá para o Brasil?
Bessone – Com certeza. A label lança apenas músicas de artistas portugueses. Queremos mostrar os grandes talentos e artistas que o nosso país tem e com isto ajudar a divulgar os seus trabalhos. Um exemplo de artistas do coletivo que mostraram um pouco do trabalho no Brasil foi o Reu.Ven, a convite do Arthus, em um remix para o TOT059, do Delator. É um orgulho enorme ver essa conexão dar frutos.
Rowan, você está no duo Scienza X. Quais são as características artísticas deste duo, em diferença ao seu trabalho solo?
Rowan – O Scienza X surgiu pelo convite do Nuno Carneiro no seguimento do lançamento da label Apolo Records. Explora mais o House, Electro e Breaks com influências principalmente dos anos 90, quando predominava um som mais quente e cru, algo que vem ressurgindo já nos últimos anos com uma nova abordagem. Está nos nossos planos também preparar um live act no futuro.
Por fim, o que a música representa na vida de cada um de vocês?
Rowan – Não vivo sem música! 🙂
Bessone – Simplesmente.. tudo! <3
A música conecta.