Skip to content
A música conecta

Claude VonStroke em um bate-papo exclusivo sobre a nova fase de sua vida e carreira

Por Alan Medeiros em Entrevistas 19.01.2026

Claude VonStroke é um dos nomes centrais para entender o sucesso expansivo da música eletrônica nos Estados Unidos rumo ao mainstream ao longo dos últimos 20 anos. Com raízes em Detroit e um carreira que se desenvolveu intrinsecamente ligada a San Francisco, ele e sua gravadora Dirtybird se tornaram um dos grandes fenômenos musicais que o país já produziu. Quando vendeu sua participação na gravadora em 2022, Claude VonStroke decidiu mergulhar em um processo de aprofundamento dos seus interesses criativos, sem qualquer pressão de fazer algo para o mercado. Um sonho na vida de qualquer criativo, não é mesmo?

Depois de se aventurar com projetos variados lançados sob seu nome de batismo, Barclay Crenshaw, ele voltou a lançar como Claude VonStroke no ano passado. O ano da retomada ganhou um capítulo final em dezembro com o EP Noche Clara pela Crosstown Rebels, lendária gravadora de Damian Lazarus, para quem Claude havia feito uma promessa de ser parte do catálogo há mais de 10 anos. Noche Clara é um EP de duas faixas que exala esse momento criativo mais livre, lúdico e minimalista de VonStroke, ainda assim muito longe de perder sua irreverência que o tornou famoso. Aproveitamos o release para um bate-papo exclusivo e bastante interessante em torno de assuntos que são parte do momento de sua vida e carreira:

Alataj: Depois de mais de duas décadas com uma identidade fortemente associada à Dirtybird, sua estreia pela Crosstown Rebels carrega um peso significativo. O que esse lançamento representa para você neste momento da carreira, tanto artística quanto pessoalmente?

Claude Vonstroke: Para mim, esse lançamento soa mais como um realinhamento. A Dirtybird foi um capítulo enorme da minha vida — não apenas uma gravadora, mas um ecossistema incrível, uma comunidade e um compromisso criativo gigantesco. Mas agora que segui em frente, não tenho mais nada para provar para mim mesmo, eu já fiz tudo — então estou simplesmente vibrando com aquilo que me faz bem. Esses novos lançamentos que venho colocando na rua soam honestos e alinhados com uma nova fase do Claude. Como eu era extremamente independente e muito focado em ser dono de todos os meus masters, raramente me aventurava fora. Mas existem várias gravadoras “bucket list” por aí, e a Crosstown sempre esteve no topo dessa lista.

Você já comentou que prometeu ao Damian Lazarus um lançamento pela Crosstown Rebels há mais de dez anos. O que precisou mudar — em você e no seu som — para que esse momento finalmente acontecesse agora?

Sinceramente, talvez tenha sido até mais tempo do que isso. Acho que ele começou a falar comigo depois de um remix que fiz chamado Warpaint, lá por 2008. É difícil lembrar. Mas durante todo esse período eu estava sempre forçando muito a barra, construindo minha própria marca e atuando quase como um CEO incansável. Recentemente, comecei a perceber que eu não fazia realmente parte da comunidade como um todo, justamente por estar tão isolado dentro do meu próprio selo. Quando essa pressão diminuiu, comecei a me reconectar com as pessoas e ver o que ainda é possível por aí no mundo. Felizmente, algumas pessoas como o Damian respeitam o que consegui construir e estão dispostas a ouvir novas músicas e novas ideias que eu tenho.

Noche Clara carrega uma atmosfera que remete aos seus primeiros trabalhos, sem soar nostálgica. Como você equilibrou esse “retorno às origens” com a necessidade de seguir avançando criativamente?

Eu raramente produzo dessa forma, mas uma das minhas faixas favoritas de todos os tempos é Beau Mot Plague, do Isolee. E eu sentia que todo aquele som simplesmente tinha desaparecido da cena. Não é uma cópia, mas dá pra ouvir claramente a influência direta nas escolhas que fiz. Gosto de ouvir músicas e me perguntar: “por que eu gosto disso?”. Considere isso uma homenagem, com sonoridade atualizada e uma vibe diferente, mas claramente influenciada por aquela faixa incrível. Para mim, música é sobre criar uma sensação, não sobre a produção perfeita com todos os EQs impecáveis. A faixa precisa soar certa para que eu a lance — sentimento acima de tudo, sempre.

O EP também marca sua colaboração com Honeycomb em Bam Bam. O que te atraiu nesse encontro criativo e como essa parceria se conecta com a fase criativa que você vem explorando recentemente?

O Honeycomb estava comigo em um evento privado onde éramos os únicos dois artistas contratados por algumas pessoas muito ricas, em uma mansão/spa no meio do deserto. Ele cria seus sets ao vivo, então eu estava ouvindo o set dele quando entrou um groove que durou uns 90 segundos — peguei o celular e gravei na hora. Depois perguntei se ele tinha gravado o set, e ele disse que sim. Então ele foi lá, encontrou o groove e me enviou os stems. A faixa já nasceu forte desde o início. Peguei esse pequeno loop e transformei em uma track completa, minimalista e com uma vibe meio sinistra — quase como se viesse da mesma era da outra faixa, mas com um clima mais sombrio. O disco acaba ficando como um lado A ensolarado e um lado B mais ominoso, o que eu adoro.

Nos últimos anos, você falou abertamente sobre um reposicionamento artístico — se afastando de fórmulas e focando mais no processo. Como sua relação com o estúdio mudou depois de tantos anos produzindo música para a pista?

Antes, o estúdio parecia um lugar onde eu roubava algumas horas para conseguir brincar com faixas. Eu ficava muito estressado e, se um dia inteiro fosse ruim, à noite eu ficava péssimo, simplesmente por não ter tido tempo suficiente para trabalhar com calma e ser totalmente criativo. Agora, o estúdio virou um espaço de exploração. Estou menos interessado em perfeição e mais na vibe das músicas. Hoje não encaro nada como vida ou morte — é só dance music, é divertido fazer faixas e, por isso mesmo, tudo fica muito mais fácil. É meio irônico que quanto mais tempo livre e menos pressão eu tenho, mais rápido e fácil fica produzir.

Esse lançamento antecede seu próximo álbum de estúdio, previsto para 2026. Noche Clara pode ser visto como uma ponte entre o legado que você construiu e o território que pretende explorar nesse novo trabalho?

Acho que sim, mas isso não cabe muito a mim julgar. O próximo álbum definitivamente tem uma vibe diferente dos meus discos anteriores. Antes, eu me dizia: “ok, preciso de um grande banger, uma faixa de dirty funk, uma de bass mais cavernoso, uma melódica” — e literalmente ia ticando essas caixinhas. Nesse álbum, não fiz isso. Simplesmente deixei a música se escolher sozinha, qual é a melhor faixa. Esse disco é um pouco mais orientado ao groove e… bom…

Depois de tantos ciclos — gravadoras, festivais, cenas e gerações — como você definiria quem é Claude VonStroke hoje, não em termos de carreira, mas de motivação criativa? O que ainda te move a continuar produzindo e se reinventando?

Com as redes sociais se tornando tão importantes, quase perdi o rumo algumas vezes. Eu amava a era do mistério e da intriga, quando você não sabia qual era a marca de roupa favorita de cada DJ. Ainda assim, acho que existe um espaço para mim. Sempre gostei de ser uma ponte entre o ultra underground e o que é acessível. Não sou o mais underground, mas definitivamente não sou o mais comercial — especialmente agora. Não gosto nem um pouco do rumo que o house comercial tomou, então talvez eu esteja aqui em forma de protesto, oferecendo uma outra maneira de ouvir música para quem não quer escutar sempre a mesma coisa.

A MÚSICA CONECTA 2012 2026