É, o cenário brasileiro revelou mais um grande nome de Techno na cena internacional. O DJ e produtor Marcal virou notícia por aqui no final de 2019 estrelando na coluna Who? por um motivo bem especial: o lançamento de seu EP Shutdown na label de Sam Paganini, a Join Art Music (JAM), marcando o que, até então, era seu release mais importante da carreira. Neste trabalho, ele recebeu suportes recorrentes não só do headlabel, mas de outros medalhões como Len Faki, Amelie Lens, Adam Beyer e Charlotte de Witte.
E se o jogo já estava bom, o placar ficou ainda mais elástico com seu novo release. Marcal acaba de lançar um EP de cinco faixas pela renomada Rekids, comandada por Radio Slave. Reduction Pt. 1 é um projeto especial da gravadora famosa por já ter assinado trabalhos de Laurent Garnier, SRVD, Marco Faraone e outros gigantes. A sensação de dar o play neste EP é a de que você está entrando numa caverna escura, apertada, sem saber exatamente o que virá pela frente. Mas vamos deixar você mesmo tirar suas impressões enquanto confere todos os detalhes nessa entrevista com ele:
Alataj: Marcal! Nem vamos perguntar se está tudo bem porque… bom, motivos não faltam pra isso [risos]. Conta pra gente qual foi a sensação quando você recebeu o sinal verde da Rekids para assinar este EP…
Marcal: Puro êxtase! Um sonho pra mim lançar numa das gravadoras mais relevantes da cena eletrônica e de tanto sucesso como a Rekids, as vezes parece que a ficha ainda não caiu [risos].
E como exatamente rolou essa conexão? Você já havia enviado trabalhos anteriormente para eles? Quando você produziu as faixas deste material, já mirava alguma label grande ou coisa do tipo?
Nunca havia enviado nada para eles pra ser sincero, por mais que seja a Rekids o selo nunca esteve nos meus planos. Tudo começou de uma maneira muito inusitada com o próprio Radio Slave entrando em contato comigo pela minha fanpage do Facebook em fevereiro deste ano (antes dessa loucura toda começar), dizendo que havia tocado minha faixa Magic em seu radioshow na Rinse.FM. O agradeci, e logo em seguida ele me disse que seria legal me receber na Rekids/RSPX neste ano… e depois de alguns meses de aguardo, aqui estamos!
Como foi o processo de construção das tracks? Elas flutuam bem entre o lado industrial e hipnótico do Techno… tem alguma referência específica por trás disso?
Meus olhos e ouvidos vem se fechando pros sons mais ‘big room’ dentro do Techno e atualmente me vejo totalmente imerso em sonoridades mais loopadas, minimalistas e inteligentes. Sons que trazem padrões rítmicos complexos, texturas elaboradas e que tenham um sound-design exótico tem me cativado cada vez mais. Inevitavelmente isso refletiu nas minhas novas produções e também no processo de criação das tracks desse EP. Também venho me inspirado bastante em artistas como Ben Klock, Marcel Dettmann, DVS1, Ben Sims, Rodhad e também outros gênios que também vem se destacando como Vinicius Honorio, Arthur Robert, Rene Wise, William Arist, YANT, TWR72, Flaws…
Sendo assim, creio que quem esperar uma similaridade comparada aos meus trabalhos lançados na JAM ou quaisquer outros realizados no passado, talvez possa sentir diferença.
Você não está sozinho neste EP. Em Estado de Transe Gabal e Andc colaboraram, já em Renoir, tem uma contribuição do Hosben. Qual a história por trás dessas collabs?
Quarentena! [risos] Quem me conhece sabe que eu não sou muito fã de colaborações, mas com o “novo normal” que estamos vivendo e, consequentemente, com o tempo de sobra em casa, não demorou muito para que algumas collabs saíssem. Em Estado de Transe lembro-me que o Andc havia mostrado pra mim e pro Gabal, em um grupo nosso no WhatsApp [risos], uma ideia inacabada a qual achamos bem maneira e logo em seguida falei “O que acha de fazermos essa juntos?”. Com o Hosben não foi diferente, ele havia me mostrado uma faixa finalizada com uns chord stabs (muito lindos!) e como já estava nos nossos planos fazer um collab, falei pra ele me mandar alguns stems da faixa com a ideia de reciclarmos, realizar umas modificações no intuito de finalizar uma nova faixa e assim chegamos no resultado final que agradou bastante que é a Renoir.
Infelizmente as pistas estão paradas, caso contrário provavelmente veríamos essas bombas sendo tocadas por alguns Techno heads, assim como aconteceu em Shutdown. Como o cenário de pandemia atingiu você e seu trabalho como músico? Pra você o “tempo livre” pode ser visto como um saldo positivo?
Atualmente me dependo exclusivamente da música, então com o número de gigs indo a zero as coisas vem sido mais difíceis. Felizmente nos últimos dias venho conseguindo outros tipos de trabalho que estão ajudando a me manter e a continuar produzindo. Mas, não nego que o “tempo livre” que a pandemia proporcionou nos primeiros meses me ajudaram a finalizar muitas faixas, creio que finalizei em torno de 20 faixas em 2/3 meses. Agora estou dando uma pausa, indo com mais calma, pra por minha cabeça no lugar e não deixar a ansiedade dominar enquanto as coisas não voltam ao normal.
Além deste EP pela Rekids, você lançou anteriormente pela Liberta, deixou alguns remixes na conta… o que vem pela frente para fechar o ano com chave de ouro?
Meus próximo lançamento é a última parte da série de EP Reduction Reduction Pt. 2 que ainda não tem data definida, o meu EP Timeless que sairá na Planet Rhythm no dia 26 de Outubro – e já conta com o suporte antecipado de players como Ben Klock, Marcel Dettmann e Developer -, e pra finalizar, um remix da faixa Heartbeat do Vinicius Honorio pela Liberta e também ainda sem data.
Por fim, uma clássica do Alataj: o que a música representa na sua vida?
Meus atos, minhas opiniões, o que eu vivo e o que eu sinto. A música é uma linguagem e todas as pessoas que a amam se comunicam através dela, pelo ritmo, pela dança, pela liberdade de expressão.
A música conecta.
*Foto de capa por Thiago Daher