Histórias da Noite

Histórias da Noite | Eli Iwasa: O começo de tudo

Quando fiz 17 anos, resolvi comemorar meu aniversário em um club que todo mundo comentava na época chamado Massivo. Gostava de Rock Gótico, EBM, e queria ir para um lugar diferente… eu era super ingênua, e quando entrei na casa da Alameda Itu, um universo novo se abriu para mim. As pessoas montadas, gays, lésbicas, drag queens, as gaiolas, as almôndegas, a pegação. Muitas experiências e questionamentos aconteceram a partir de lá, que definiram valores importantes na minha vida. Aos poucos a indumentária dark foi dando lugar a looks coloridos, lembro da expectativa durante toda a semana para chegar a quinta ou sábado. E era uma jornada: pegava ônibus, metrô, e voltava para casa de manhã quando a estação abria.

Eu percorria a Augusta a pé até a esquina com a Estados Unidos, onde o Columbia ficava, e o primeiro afterhours de São Paulo acontecia – batizado inicialmente de Velvet Underground, para se tornar o Hell’s Club quando Pil Marques assumiu a promoção, com DJ Mau Mau e Guilherme M como residentes. Passei a acordar às 4h, me arrumar, e partir para o Hell’s no domingo de manhã. Era um ritual parar na carrocinha de cachorro-quente na frente do club, sentar na calçada e esperar para entrar – enquanto fazia amizade com tanta gente que permanece na minha vida até hoje. Eu era uma novata, não era da “turma”, e lembro que sempre me intimidava com a presença da Roberta e da Ana na porta – a última a responsável por me proporcionar minha primeira gig profissional anos mais tarde.

Um pouco depois, começaram as primeiras festas rave em São Paulo. Depois de uma viagem minha para o exterior, meus amigos me contaram que tinham ido a algo completamente diferente, ao ar livre, em um sítio afastado da cidade, com uns DJs e promoters ingleses – era a Naga Naja. Eles foram insistentes em falar que eu tinha que conhecer, e resolvi ir a uma festa no instituto de química na USP. Quando pensava no que contar para vocês, percebi que este foi um daqueles momentos decisivos, que transformaram minha relação com a música e este estilo de vida. Talvez tenha sido a combinação entre beats, lisergia, e as pessoas que amava ao meu lado: a descrição de uma viagem perfeita, e que neste caso, não teve mais volta.

Ali conheci pessoas como o Camilo Rocha, que foi um dos meus grandes mentores, sempre generoso e paciente em compartilhar conhecimento e música, e um dos primeiros amigos DJ que fiz; vi artistas de pirofagia na pista, inundada pelo cheiro de querosene. Voltei para casa querendo ouvir mais, conhecer mais, e como toda boa colecionadora, minha pesquisa começou a se aprofundar. Eram CDs e mais CDs, desde o Alive, do DJ Mau Mau, Christian Vogel e Underworld a coletâneas de Goa Trance ou do selo React, numa confusa salada musical até começar a lapidar meu gosto pessoal. No começo, a curiosidade me levava a escutar de tudo, cada selo ou artista que descobria em sets ou em conversas empolgadas nos afters da vida.

Entre o Hell’s Club e as diversas festas que começaram a acontecer em sítios em Caucaia do Alto, em Embu das Artes, em Maresias – seguindo mapas nos flyers, as plaquinhas pelo caminho (que caíam no meio da noite!), ou baixando o vidro do carro para ouvir em que direção estava o som, eu terminava a faculdade, e aos poucos, ia abandonando a ideia de trabalhar em uma agência de publicidade. Quando me formei, falei pro meu pai que iria fazer uma festa. Juntei as economias que tinha, me reuni com o DJ Alex S, e fundamos a Groove Nation.

O primeiro vinil de Techno da minha coleção foi um presente do inglês Chris Liberator, figura-chave do Acid Techno, da cena underground inglesa, fundador do selo Stay Up Forever – e minha discoteca começou ali, entre discos da SUF e Routemaster. Quando pensamos na festa, tinha muito claro que queria fazer algo que fosse de encontro a tudo que eu e meus amigos gostávamos: Techno, som de qualidade, uma iluminação bacana, em um lugar que era querido por ravers como eu. Tive a sorte de contar com a ajuda do Alex, que me ensinou muito do que sei, de ter um olho em todos os aspectos da produção, desde o bar até a divulgação – muitas vezes ele me levava para distribuir flyers com a equipe para ter certeza que o trabalho seria feito – e eu detestava!. E também do Camilo Rocha, que era super próximo de toda turma de Londres, e fez a ponte para a construção do primeiro line up dos sonhos da minha carreira: juntar Chris Liberator e Dave The Drummer ao vivo, este fazendo sua estreia no Brasil. Lembro do banner com o logo da Groove Nation, pintado a mão pelo Ronaldo Vectro, que decorou nosso palco nas edições seguintes. Da tenda branca. Das caixas penduradas em torno da pista, algo incomum na época. O resto lembro vagamente, como muita coisa que aconteceu no final dos anos 90. Memória de clubber sofre.

O prejuízo da festa foi enorme. Coloquei meus amigos para trabalhar na portaria e no bar, e lógico que depois das 5h da manhã, nem eu tinha mais controle de nada, porque estava na pista bombando em frente à cabine. A festa foi linda e nunca me esqueço da sensação boa de ver tudo aquilo acontecendo. Poucos sentimentos são tão poderosos quanto ver uma pista lotada de gente feliz.

As motivações do meu trabalho mudaram muito pouco. É a mesma vontade de ver DJs que respeito, e o senso de comunidade que sempre busquei em minhas noites e clubs. É ter a oportunidade de compartilhar algo que amo com as pessoas. Talvez por isso seja tão difícil fazer concessões, ou algo que não acredito – não foi assim que aprendi, e não foi assim que escolhi viver. É maluco pensar na coragem que tive ao abandonar a perspectiva de uma carreira sólida, para me jogar de cabeça no que parecia uma aventura na época. Meu pai nunca falou nada, caladão do jeito que é, e quando estávamos na van a caminho da minha apresentação no Rock In Rio, ele falou que não cabia a ele questionar. Seu apoio foi incondicional, mesmo não sabendo o que era ser DJ, e de seu desconforto nas reuniões de família, quando me perguntavam com que trabalhava. Imagino como deve ter sido difícil para ele.

No meio de uma pandemia, a música sempre esteve aqui, mas sem exercer sua força agregadora, sua capacidade de reunir pessoas, parece esvaziar-se do maior sentido que ela a tudo dá. Ainda bem que ela é como uma máquina do tempo, que me leva a percorrer todas estas lembranças que contei para vocês. E através dela também vislumbro o futuro, aos poucos se desenhando em sonhos, planos, e o desejo profundo de estarmos juntos novamente.

Que este futuro não esteja distante. 

A música conecta.

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