Iconic

Iconic | Depeche Mode – The Sinner In Me (Ricardo Villalobos Conclave Remix)

Todo mundo tem aquele clássico que remete ao início da sua aventura com a música eletrônica. Aquele que pega no coração e abre uma caixinha mental de lembranças e que quando toca em qualquer pista pode até mesmo arrancar uma lágrima. Ô tempo bom, você pensa… aquele tempo onde todo final de semana era final de semana pra pegar uma festa sem hora pra acabar e sem pensar que segunda é dia de tomar litros de café e pagar boletos. Cringe assumida.

Mais do que essa inconsequência deliciosa, esse tempo me remete muito à palavra descoberta. Porque no conjunto de good vibes que fornecem os momentos em que você escuta uma música saudosista, também estão os momentos em que você ouve uma faixa marcante pela primeira vez. Você se lembra do momento em que escutou uma de suas músicas preferidas pela primeira vez? Eu me lembro. De muitas delas, aliás. E, felizmente, esse entusiasmo me acompanha até hoje quando sou surpreendida.

Mas a coluna é Iconic e a regra é desengavetar clássicos da pista de dança que influenciaram gerações, então vou rebobinar a fita para 15 anos atrás e trazer uma história sobre uma das faixas que mais marcaram nos meus primeiros anos de pista. Para a minha sorte, logo nas primeiras experiências sonoras, a vida tratou de cruzar meu caminho com o de pessoas fantásticas nesse meio e com um vasto conhecimento sobre música eletrônica, então tive professores incríveis. Como nasci e cresci ouvindo brasilidades e Rock, tudo era novo, até mesmo Depeche Mode, pasme.

A banda britânica de Rock eletrônico alternativo, Synth-Pop e New Wave não me foi apresentada até os meus 17 anos e, aliás, a primeira vez que ouvi a voz inconfundível de Dave Gahan ecoar foi em uma rave de Psy Trance, através daquele outro remix classicão de Enjoy The Silence. De lá pra cá muitos outros remixes da banda fizeram história para mim e para milhares de pessoas – inclusive, uma originalzinha do Depeche Mode já foi homenageada aqui por Caio Stanccione, mostrando que a banda por si só já daria um bom material.

Mas, neste episódio, vou adicionar a essa história outro personagem icônico da cena eletrônica e esse artista faz jus a denominação por vários motivos. Ricardo Villalobos, o chileno-alemão que vive entre anjos e demônios, é considerado por muitos um gênio, por outros um louco e por todos uma lenda viva. Conhecido por seus long sets cabalísticos ao redor do mundo e igualmente por seu trabalho em estúdio, Villalobos mantém uma identidade extended em tudo o que faz, característica que gera até uns bons memes nas redes sociais.

Ricardo é amplamente conhecido por ser um dos maiores representantes das sonoridades minimalistas, colocando em sua música um bocado de percussão, elementos sinuosos e sintéticos, abandonando muitas vezes qualquer melodia em favor dessa experiência sonora longa, repetitiva e construída aos poucos. Mais do que isso, ele é considerado um dos remixadores mais audaciosos já vistos, pois é capaz pegar qualquer material e girá-lo a 180 graus Villalobos, dando sua própria estética a qualquer faixa, mesmo se ela for um Rock eletrônico alternativo melancólico, de batidas lentas e atmosfera pesada.

Escrevi até agora pra chegar justamente aqui, pois Villalobos fez algo que muita gente acreditava ser praticamente impossível, e mais uma vez em diversos sentidos. The Sinner In Me foi lançada juntamente ao álbum Playing The Angel, em 2005, e, em 2006, a faixa recebeu um remix surpresa de Ricardinho. E quando eu falo surpresa, é a mais pura verdade. O Conclave Remix de Ricardo Villalobos foi prensado em poucas centenas de discos, sem gravadora e sem nenhuma autorização da banda para tanto. Te surpreende?

Talvez o ato não tivesse feito tanto estardalhaço se Villalobos não tivesse assinado o remix com seu próprio nome e se o resultado não tivesse ficado absurdamente chocante – e genial. Há 15 anos não se imaginaria um artista misturando estilos dessa forma. Ainda que Depeche Mode seja uma grande influência na música eletrônica desde aquela época, fundi-lo com o Minimal era algo completamente inimaginável, uma linha sonora praticamente livre de vocais e muito distante do Rock eletrônico.

Em uma completa reviravolta de métodos tradicionais de um remix, Ricardo Villalobos constrói uma viagem tradicionalmente longa, profundamente percussiva, com linha de baixo e graves que brincam com o cérebro, linear e sem melodia qualquer por mais de três minutos. Eis que, após um pequeno break, surge a voz de Dave Gahan praticamente sem tratamento, num acapella de The Sinner In Me que dá um contraste incrível com o arranjo de baterias e grave. Apenas após a metade dos praticamente 13 minutos de faixa é que Ricardo traz um discreto jogo de acordes que dá um tom meio que latino para a composição.

Com o passar dos minutos, vão aparecendo elementos mais atmosféricos – alguns um tanto quanto desengonçados – e pequenos breaks, como bem pede uma música de autoria de Villalobos. Sem palavras. É claro que uma composição como essa não passou despercebida e os discos foram vendidos e difundidos às pistas de dança rapidamente. 

Rapidamente também foi a resposta do Depeche Mode, que não gostou nada de ver sua faixa remixada sem autorização e a bloqueou de qualquer possibilidade de comercialização oficial. Significa dizer que se você quiser baixar o remix de Villalobos para The Sinner In Me só conseguirá fazê-lo por meios alternativos, digamos. Nem mesmo o marketplace Discogs autoriza a venda das cópias que foram prensadas à época, informando na página que cataloga a faixa seu bloqueio no mercado. Vale dizer também que, quem tem a cópia do disco prensado em 2006 tem em suas mãos uma raridade que vale muito dinheiro, obviamente.

É claro que assim, uma gravação do vinil e a conversão para o digital e ela caiu na rede. E uma vez na rede, ela rodou o mundo. Ainda bem. The Sinner In Me é considerado um dos remixes mais emblemáticos da carreira de Ricardo Villalobos e também uma das faixas mais reconhecidas dentro do universo do Minimal, mas provavelmente é o primeiro e último remix do artista para o Depeche Mode que você verá em toda a história de ambos.

A primeira vez que ouvi The Sinner In Me foi em meados de 2008, eu acho. Como alguém que já conhecida a voz de Dave Gahan, quando escutei estava em uma pista entre amigos fiquei extasiada pela capacidade de transformação sonora que foi mostrada ali. Depois disso, poucas vezes tive o prazer de ouvi-la novamente em uma pista, acredita? Acho que duas apenas. Quem sabe não sou surpreendida e caio em lágrimas saudosistas nesse retorno tão aguardado…

A música conecta.