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5 coisas que talvez você não saiba sobre: funk mandelão

Por Alan Medeiros em Notes 16.10.2026

A história do funk paulista começou a ganhar contornos próprios muito antes do surgimento do mandelão. A partir dos anos 1990, a Baixada Santista desenvolveu um circuito de bailes e artistas que ajudou a estabelecer o gênero no estado. Nas décadas seguintes, a expansão para diferentes regiões da capital e o fortalecimento das cenas periféricas abriram espaço para novas interpretações musicais, que se desenvolveram paralelamente a movimentos mais conhecidos, como o funk ostentação.

Foi nesse ambiente que o mandelão ganhou identidade durante a segunda metade dos anos 2010. Fortemente associado aos fluxos da Grande São Paulo, o estilo desenvolveu uma linguagem marcada por graves intensos, repetição, distorções e montagens vocais. Sua evolução também deu origem a diferentes interpretações, como o ritmado e a bruxaria. Nesse circuito, DJs e beatmakers ocupam uma posição central, experimentando novas estruturas rítmicas e testando suas produções diretamente com o público dos bailes.

Nos últimos anos, artistas como DJ K, DJ Arana, DJ Blakes e DJ P7 ganharam projeção internacional, enquanto lançamentos pela Nyege Nyege Tapes e projetos de curadoria da NTS ampliaram a circulação do funk paulista dentro da música eletrônica global. Ainda assim, parte importante de sua história permanece pouco conhecida fora dos bailes. Da origem de seu nome a decisões de estúdio que consideram até o comportamento do público, reunimos cinco particularidades que ajudam a compreender melhor essa linguagem.

1. O nome mandelão está ligado a um baile da Baixada Santista

Embora atualmente seja associado principalmente aos fluxos da capital e da Grande São Paulo, a origem do termo mandelão é frequentemente relacionada ao Baile do Mandela, realizado em Praia Grande, na Baixada Santista. A associação aparece inclusive em pesquisas acadêmicas. Originalmente vinculado a um baile específico, o nome passou gradualmente a identificar produções de diferentes regiões, adquirindo um significado musical mais amplo. Isso não significa que o gênero tenha sido criado exclusivamente naquele local, mas demonstra como a identidade de uma festa acabou ultrapassando seu território e se transformando em referência para toda uma linguagem.

2. O mandelão deu uma nova vida a gravações de outras gerações do funk

Em 2020, uma tendência já movimentava os fluxos paulistas: DJs começaram a recuperar gravações de anos anteriores, criando novas versões adaptadas à linguagem do mandelão. Um dos exemplos mais conhecidos foi a Sequência do Fiu Fiu, de DJ P7, que reutilizou vozes de MC Magrinho e Ludmilla, ainda da época em que a cantora utilizava o nome MC Beyoncé, em uma gravação de 2013. Segundo uma reportagem publicada pela KondZilla naquele período, diversos produtores apontavam a montagem de P7 como uma das responsáveis por impulsionar essa tendência. O processo permitiu que músicas de outra geração voltassem às pistas, agora adaptadas à linguagem rítmica e sonora do mandelão.

3. A mixagem é pensada para a pressão física dos paredões

Uma sessão de estúdio entre DJ K e JLZ, documentada pelo jornalista GG Albuquerque em 2022, revelou detalhes sobre a engenharia sonora do mandelão. Durante a produção de Viagem ao Oculto, os artistas identificaram um conflito entre as frequências graves da voz, da melodia e dos elementos rítmicos. JLZ decidiu retirar parte dessas frequências para reduzir a sobreposição com o kick e dar mais destaque ao elemento rítmico. O procedimento demonstrou como determinadas escolhas de produção são orientadas pela experiência física dos bailes, onde o grave precisa ser sentido pelo corpo e reproduzido em sistemas de som de alta potência. Até mesmo distorções e ruídos, frequentemente evitados na produção convencional, podem ser explorados deliberadamente como recursos estéticos.

4. Algumas faixas são produzidas para dar tempo ao público de começar a filmar

Na mesma sessão, DJ K explicou uma decisão de arranjo bastante particular. Ao trabalhar com o chamado beat passarinho, também conhecido como beat assobio, o produtor inseriu uma pequena prévia daquele som antes de sua entrada principal. O motivo estava diretamente relacionado ao comportamento dos frequentadores: ao reconhecerem o trecho, as pessoas teriam tempo de preparar os celulares, ligar o flash e começar a gravar. A antecipação passou, portanto, a integrar a própria estrutura musical. É um exemplo de como a relação entre produtor e público nos fluxos pode interferir até nos detalhes de uma composição, considerando não só o que será ouvido, mas também como aquele momento será vivido e registrado.

5. O mandelão passou a circular em selos e rádios ligados à música eletrônica experimental

A circulação internacional do mandelão ganhou força com o interesse de plataformas ligadas à música eletrônica experimental, que passaram a apresentar produções dos fluxos paulistas a públicos de outros países. Um exemplo é a Nyege Nyege Tapes, gravadora associada à cena eletrônica de Uganda, que incluiu artistas do funk brasileiro em seu catálogo. A rádio britânica NTS também contribuiu para esse movimento com a coletânea funk.BR – São Paulo, lançada em 29 de março de 2024, reunindo 22 faixas inéditas de diferentes vertentes do funk paulista. Antes do lançamento, a organização promoveu, em 2 de março, um evento no Baile do Helipa, em Heliópolis, com nomes como DJ K, DJ Blakes, DJ P7, DJ Dayeh e DJ Menezes, em colaboração com iniciativas locais como Ritmo dos Fluxos. Com curadoria de Felipe Maia e Jonathan Kim, a compilação também ganhou edição em vinil.

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