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A música conecta

Breather: uma nova escalada ao sucesso 5 anos depois

Por Elena Beatriz em Notes 11.02.2026

A ascensão recente de Breather, colaboração entre Chris Stussy e SAM, não pode ser lida apenas como um retorno inesperado de uma faixa lançada há cerca de cinco anos. O fenômeno aponta para algo mais amplo: a dualidade entre a dinâmica acelerada do mercado contemporâneo e a capacidade que certas músicas têm de existir fora do tempo imediato do hype. Em um cenário onde lançamentos passam a ser tratados como descartáveis em questão de semanas, Breather nos relembra que nem toda música nasce para cumprir ciclos curtos.

Lançada em 2021, no álbum Get Together pela Up The Stuss, acompanhando outras sete faixas, Breather surgiu em um momento em que o House europeu vivia uma retomada mais orgânica e até mesmo progressiva. Dito isso, ela não foi construída como uma faixa de impacto instantâneo. É uma música pensada para maturar na pista, com elementos que aparecem sem pressa ao longo da faixa, não para disputar atenção imediata em charts ou playlists editoriais. Durante anos, ela permaneceu circulando de maneira mais tímida, sendo absorvida por curadores que prestam atenção à construção de narrativa — até que, recentemente, voltou a ocupar espaço nos sets de Stussy e, de maneira quase natural, alavancou nos rankings do Beatport, entrando novamente no Top 100 da plataforma.

No sistema atual de streaming, a expectativa de novidade contínua impõe uma sensação de obsolescência precoce: lançamentos com poucas semanas de vida passam a ser tratados como ultrapassados, enquanto artistas são pressionados a alimentar algoritmos com frequência. Nesse fluxo contínuo, o valor de uma faixa costuma ser medido pelo seu desempenho imediato, e não pela sua capacidade de permanecer relevante ao longo do tempo. Assim, a ideia de que uma faixa possa ser trabalhada, testada e ressignificada parece quase anacrônica, ainda que a prática da discotecagem, historicamente, sempre tenha caminhado para essa direção.

Um caso semelhante pode ser observado na trajetória da faixa de What’s a Girl to Do, de Fatima Yamaha. Lançada originalmente no início da década de 2010, a track levou anos para atingir um reconhecimento amplo, circulando lentamente entre DJs, rádios e pistas até se consolidar como um clássico contemporâneo após ser amplamente tocada em uma temporada de verão em Ibiza. Assim como Breather, não se tratava de uma faixa desenhada para o consumo rápido, mas de uma obra cuja força na atmosfera, na emoção e na capacidade de criar um estado prolongado de atenção e imersão na escuta. 

No caso de Breather, ao insistir na faixa ao longo dos anos, Stussy não apenas resgata um lançamento do próprio catálogo, mas reafirma a ideia de que uma música pode — e talvez deva — ser trabalhada continuamente. Em vez de ser descartada após o ciclo inicial de promoção, ela ganha novas camadas de significado conforme passa a envolver diferentes pistas, horários e públicos. Além disso, pode servir como inspiração para que produtores musicais comecem, voltem ou insistam a direcionar suas criações para o que realmente os inspira e, principalmente, aprendendo a ter paciência para o percurso do que deve acontecer. Quanto mais autenticidade houver no caminho, mais diversa e interessante a cena vai ficar.

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