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A música conecta

Carta aberta de um produtor musical que superou a recuperação de um AVC através da música eletrônica

Por Redação Alataj em Notes 07.04.2026

Algumas obras não nascem apenas de um impulso criativo, mas de um processo mais profundo de reconstrução. O álbum Fragments of Renewal de Barchi parte justamente desse lugar. Lançado em Fevereiro deste ano, ele foi composto durante sua recuperação de um AVC. O álbum transformou um período de reabilitação física e emocional em matéria artística, canalizando dor, disciplina e recomeço em linguagem sonora.

Dedicado à sua mãe, pelo apoio incondicional ao longo de todo o processo, o projeto também marcou o lançamento oficial da Mind Tone Records, selo próprio que consolida sua independência artística e busca uma visão de longo prazo. A seguir, publicamos uma carta de Walter Barchi sobre esse percurso, em um relato que aproxima música eletrônica, cura e resiliência.

Carta por Walter Barchi:

Enfrentei o maior desafio da minha vida quando tive um AVC, fiquei 33 dias na UTI e tive o lado esquerdo do meu corpo paralisado. Ouvi de médicos previsões pessimistas de que eu ficaria debilitado. Mas a música, que sempre foi minha guia, se tornou meu combustível para rasgar esse diagnóstico como se fosse papel. Hoje, não tenho qualquer limitação. Minha mente e minha criatividade estão mais fortes do que nunca.

O processo de retomada foi marcado por parcerias essenciais. Além do apoio de uma grande amiga psicóloga, tive o suporte emocional fundamental do Ney, da Oficina DJ. Ele foi uma base importante nos momentos de incerteza, me ajudando a manter a força para focar no que realmente importa: minha arte.

Foi nesse período que decidi que não deixaria mais nenhum projeto guardado na gaveta. O gás como produtor voltou de forma absurda. Assinei com a My Choice Records, label do Souveq, e lancei um trabalho de deep house pela Café De Anatolia. Ver meu som sendo aceito por selos desse porte só reafirmou que estou em uma fase muito forte técnica e criativamente. O que me levou a produzir um álbum. 

O conceito desse trabalho é tecer uma tapeçaria sonora que é ao mesmo tempo sombria, tribal e intensamente melódica. Mais do que apenas música, ele é uma jornada introspectiva guiada por batidas percussivas hipnóticas, que ecoam como rituais antigos. As melodias, por sua vez, funcionam como luzes-guia, iluminando caminhos internos em direção à renovação.

Essa energia também me levou a fundar minha própria gravadora, a Mind Tone Records. O selo nasce com o propósito de refletir a minha jornada, tendo a cura como um de seus pilares centrais. Como marco inicial, dediquei um ano e dois meses de trabalho intenso para produzir meu álbum de estreia, composto por 10 faixas que narram essa transição e minha total recuperação.

Hoje, olho para esse processo e vejo que superei todas as expectativas médicas, iniciando um ciclo de criação sem precedentes na minha carreira.

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