Andrew Shobeiri, conhecido artisticamente como Rene Wise, consolidou-se como uma das figuras mais metódicas e autênticas do techno contemporâneo. Nascido em Brighton e criado em um ambiente onde o ritmo era o pilar central — graças à influência de seu pai, um baterista profissional —, Wise desenvolveu desde cedo uma compreensão intrínseca da percussão e da estrutura sonora. Sua música é frequentemente descrita como primal e hipnótica, focada em um minimalismo que não perde o impacto, operando em um nível subconsciente para conectar impulsos com um design de som austero e refinado.
Uma das camadas mais densas e curiosas de sua identidade artística é a influência de experiências psicodélicas em sua percepção sonora. Para Wise, substâncias como cogumelos e LSD abriram dimensões e perspectivas inéditas, revelando o que ele descreve como uma “outra camada de consciência” que permite enxergar a realidade através de novas texturas. Ele não vê essas vivências como meramente recreativas, mas como ferramentas que permitem uma visão quadridimensional da música, onde o som deixa de ser apenas auditivo para se tornar uma experiência sensorial completa e profunda.
No estúdio, essa sensibilidade traduz-se em um foco obsessivo no design de som e em sequências rítmicas que buscam evocar sensações físicas intensas. Wise utiliza suas memórias psicodélicas como referência para criar timbres e atmosferas que buscam colocar o ouvinte em um estado de transe. Seu objetivo final é que o público experimente uma sensação de estar “high” apenas através do som, atingindo um estado hipnótico mesmo estando completamente sóbrio. Para ele, o techno mais potente é aquele que utiliza a sônica para desorientar e guiar a mente de forma simultânea.
Essa relação com o psicodélico atingiu um ponto crítico durante um bootcamp de DJs em Portugal, onde ele experimentou tocar sob o efeito dessas substâncias em um ambiente privado. Embora prefira atuar sóbrio para garantir o máximo profissionalismo, Wise relata que, após um início confuso onde os nomes das faixas pareciam apenas letras desconexas, ele atingiu um estado de hiperfoco. Ele descreveu a sensação de estar atrás dos decks como a de “controlar uma espaçonave”, sentindo uma conexão divina ao guiar o público através de uma jornada musical complexa e transformadora.
Apesar dessa exploração de estados alterados, Wise defende que a técnica de um DJ nunca será completa se ele não mantiver viva a perspectiva da pista de dança. Sua própria trajetória foi definida por uma epifania no clube Fabric, em Londres, ao ouvir um set de seis horas de Ben Klock, momento em que compreendeu o techno como uma narrativa contínua e não apenas faixas isoladas. Para ele, o DJ deve ser um com a multidão, buscando o equilíbrio do que descreve como “triângulo sagrado” — DJ, som e luz — e lembrando-se sempre de que a inspiração mais pura vem do ato de estar do outro lado, perdendo-se na música como um ouvinte.