Em junho de 2023, pouco antes do duo DJ HEARTSTRING começar sua apresentação no Boiler Room do AVA Festival, em Belfast, o apresentador dirigiu um agradecimento à dupla: “Eles me ajudaram a voltar a sentir depois da pandemia”. A declaração antecedeu uma hora de set formada por produções próprias, recebidas entre gritos, cantorias, abraços e celulares erguidos ao redor da cabine. Além de anunciar uma atração, a frase do apresentador localizava Jonas e Leo dentro de um momento específico da vida noturna.
O retorno das festas foi acompanhado por uma procura crescente por vertentes de altas velocidades, como trance, hard techno, drum and bass, Eurodance e referências dos anos 2000. Depois de meses de restrições, o isolamento deu lugar à intensidade e a um público interessado em recuperar o tempo distante dos clubs. Era hora de descomprimir, exagerar e voltar a sentir coletivamente. A Pitchfork relacionou essa aceleração diretamente ao período pós-pandemia e citou DJ HEARTSTRING entre os artistas que passaram a reunir grandes públicos com sets rápidos, melódicos e assumidamente sentimentais.
Jonas e Leo começaram a produzir juntos quando esse retorno ainda era incerto, em 2021. Na época, as faixas precisavam funcionar em casa, nos fones ou durante uma caminhada, pois não existia uma pista na qual pudessem ser testadas. Eles buscavam o oposto de uma simples DJ tool: queriam músicas que prendessem a atenção do início ao fim. A saudade dos clubs acabou entrando nas melodias, nos vocais e na maneira como cada produção construía expectativa.
Mais tarde, o duo passou a chamar essa combinação de trance dance music, ou TDM, uma definição ampla o suficiente para reunir a velocidade do trance, a pressão do techno, o apelo melódico da Eurodance, a comunicação direta do pop e o espírito coletivo da rave. O termo, porém, não nasceu de uma pesquisa deliberada sobre o trance: quando decidiram experimentá-lo, Jonas e Leo não eram ouvintes dedicados do gênero nem sabiam exatamente como produzi-lo, chegando ao som que definiria o projeto a partir das referências que já possuíam e das tentativas feitas durante o isolamento.
A emoção também não nasceu de uma fórmula previamente discutida. Em 2025, Jonas contou à Mixmag que os dois sempre procuraram despertar sentimentos intensos, embora no início nem conversassem sobre isso. A composição costuma avançar a partir da reação provocada por um sample ou por uma melodia. Depois, eles procuram o que apelidaram de “molho”: um acorde, uma sequência rítmica ou uma nova camada capaz de produzir aquela mudança perceptível no corpo quando entra no momento certo.
Com o tempo, a intenção se tornou mais clara. Jonas afirma que não quer apenas observar mãos levantadas diante da cabine. Prefere que alguém se volte para o melhor amigo ou para a pessoa com quem se relaciona e diga o quanto a ama. O desejo encontra correspondência nos relatos recebidos pelo duo: pessoas contam que suas músicas as ajudaram durante períodos difíceis ou fizeram com que se sentissem melhor diante de alguma situação.
O crescimento de DJ HEARTSTRING, portanto, não parece resultar apenas da retomada do trance ou da procura por BPMs mais altos. O duo chegou às pistas quando muita gente queria voltar a dançar, mas também reencontrar as próprias vontades, os amigos e a sensação de pertencer a algum lugar. Suas músicas oferecem uma forma de dançar rápido, cantar junto, abraçar alguém e experimentar euforia sem negar a melancolia que também acompanhava aquele momento e os dias atuais.
O que o crescimento de DJ HEARTSTRING ajuda a perceber é que depois da interrupção da vida coletiva, a vontade de dançar com maior intensidade também carregava o desejo de recuperar a dimensão emocional do encontro. Ao aproximar euforia e melancolia, a dupla respondeu a essa procura com músicas que não ofereciam somente descompressão, mas permitiam que a energia da rave viesse acompanhada de afeto, memória e vulnerabilidade.
Em um mundo que, apesar da conexão digital permanente, conduz as pessoas a rotinas cada vez mais individuais e à certa performance de repressão no lugar da sensibilidade, essa combinação assume uma importância que ultrapassa a preferência por determinado gênero. A pista não elimina a solidão encontrada do lado de fora, mas devolve aos sentimentos uma outra dimensão: quando a mesma música faz desconhecidos cantarem, chorarem ou se abraçarem, aquilo que poderia permanecer restrito à experiência particular passa a integrar um movimento coletivo. O sentimentalismo não reduz a intensidade; ele ajuda a explicar por que essa intensidade se tornou tão desejada.
A relevância do duo está em tornar visível uma vontade coletiva que se tornou mais evidente depois do isolamento. Ao reunir energia e vulnerabilidade sem tratá-las como opostas, Jonas e Leo ajudam a lembrar que não precisamos performar indiferença diante daquilo que nos comove. A pista de dança serve justamente a essa catarse coletiva: o que cada pessoa carrega encontra uma saída e pode ser vivido na presença das outras, sem que seja necessário esconder a emoção para parecer menos vulnerável.