Hernan Cattaneo está de volta ao Brasil. O maestro argentino retorna ao país para o que deve ser uma de suas gigs mais importantes, talvez a mais importante, de toda sua jornada até aqui. Isso por que ele está escalado para ser a última atração de toda a história de quase 25 anos do Warung Beach Club. Hernan faz parte da programação da Closing Weekend e toca no sábado, justamente na última noite. Um set ‘from start to finish’ iniciando às 21h e indo até o amanhecer, sem horário previamente definido.
Além desta data, há também um outro compromisso importantíssimo já agendado em nosso país. No dia 19 de Setembro, Cattaneo traz pelo segundo ano consecutivo seu evento Sunsetstrip à São Paulo, novamente no Hangar Campo de Marte. A festa nascida em Buenos Aires e cada vez mais globalizada, chega para sua segunda edição ao Brasil com grande expectativa. Mais recentemente, Hernan lançou uma reedição de seu livro O Sonho de um DJ, com alguns novos capítulos que incluem, entre os destaques, um descritivo sobre sua relação com o Brasil nos últimos anos.
Em parceria com Jonas Fachi, responsável pela versão brasileira do livro, compartilhamos a seguir de forma exclusiva um trecho do livro, com as palavras do próprio Hernan. Aproveite a leitura:
O Sunsetstrip se transformou em algo maior do que uma festa ao pôr do sol. Tem identidade própria e uma de suas características é justamente ser muito inclusivo: vai gente de todas as idades. Felizmente, estão nos chamando de várias partes do mundo para fazer a festa. Em 2024, fomos a Montreal e, em setembro de 2025, fizemos no Brasil a primeira experiência sul-americana fora da Argentina e do Uruguai — e foi nota 10.
Sempre fui muito bem recebido e muito querido no sul do Brasil, graças ao Warung. Sou cidadão honorário de Itajaí, tenho prêmio, quadro, uma série de reconhecimentos que recebi por lá. Em São Paulo e no Rio toquei muitas vezes, mas era apenas mais um DJ, não havia um carinho especial e, inclusive, eu precisava trabalhar mais a pista com a música.
Quando o Cruz começou a pensar em levar o Sunsetstrip para fora, o Brasil surgiu como uma opção óbvia, pela proximidade. Mas havia várias questões a analisar. No sul está o Warung, a marca com a qual sempre trabalhei, e eu não queria fazer uma festa ao lado deles porque são amigos; não fazia sentido competir. São Paulo, por sua vez, era muito mais relevante para posicionar a marca Sunsetstrip e, para isso, nos associamos ao Luiz Eurico Klotz, um produtor com quem trabalhei bastante nos anos 90.
Fizemos o primeiro show em um aeródromo privado em São Paulo e foi ótimo. Recebemos um carinho enorme e isso, para um argentino no Brasil, não é tão comum. Todos os presentes sabiam o que era o Sunsetstrip na Argentina, porque tinham visto, tinham ouvido falar e alguns inclusive já tinham ido.
Além disso, coincidiu com um ótimo momento do progressive house no Brasil. Havia uma nova geração de agências, DJs desse estilo, produtores, revistas. Faltava apenas uma marca mundial, forte, que desse direção a todo esse movimento. E isso foi o Sunsetstrip. Acho que por isso nos receberam de braços abertos.
Percebemos que, ao mudar o horário, se abriu um universo muito maior. Encontramos uma forma de fazer com que todo mundo quisesse consumir isso que fazemos — e que acreditamos ser muito bom. O problema era que antes estávamos oferecendo no horário e no lugar errados. Tenho certeza de que a música era a mesma, mas o enquadramento mudou tudo.
Se você oferece boas condições para as pessoas, se a música é boa, se elas estão confortáveis, se o som é bom, elas sempre vão te escolher em qualquer lugar do mundo. Qual o valor de um grande momento que ficará para sempre na memória? É isso que queremos alcançar: que as pessoas olhem as fotos e os vídeos e sorriam por causa da diversão que tiveram naquela noite.
No Brasil, o drum and bass sempre foi muito forte, com o grande DJ Marky. Eles também têm muitos DJs de house mainstream muito populares. O Brasil é tão grande que, se você é o Cattaneo do Brasil, não precisa ir a nenhum outro lugar para tocar: o mercado local é suficiente, porque é enorme. Um DJ como eu no Brasil tem dez milhões de seguidores.
O progressivo era mais underground no Brasil, mas nos últimos anos ele cresceu em cidades muito importantes. Nesse processo, foi fundamental o trabalho do Jon Facchi, um jovem que, quando era apenas fã, disse um dia que o meu livro precisava ser editado no Brasil, correu atrás e fez acontecer; hoje ele tem uma agência de DJs. Vejo com prazer um futuro em comum, tanto para nós, os DJs, quanto para o progressive house brasileiro. E gosto da ideia de que isso beneficie os dois lados.
O progressive house cresceu muito no Brasil e o efeito dos turistas e imigrantes argentinos por lá também é evidente. Os maiores shows que fiz em 2025 foram no P12, em Florianópolis, uma cidade cheia de argentinos, quase como se fosse a Mar del Plata do Brasil. No ano anterior, toquei para seis mil pessoas; em 2026 fiz duas datas de oito mil cada uma. Esse exemplo mostra tanto o crescimento do gênero quanto o impacto da argentinidade. Os garotos levam bandeiras, camisetas da seleção, contagiam, enchem, voltam, são impressionantes. […]