A morte de Juan Atkins, anunciada em 1º de novembro, aos 64 anos, nos leva a revisitar uma questão central de sua música: o que era possível criar com a tecnologia numa cidade que também sofria com seus efeitos? Ainda adolescente, Atkins aprendeu a programar sons de bateria em um sintetizador. O mesmo instrumento lhe permitia experimentar timbres e preparar suas primeiras demos, sem precisar reunir os músicos com quem antes tocava funk. Nos arredores de Detroit, onde a automação industrial participava da eliminação de empregos, ele descobria nos equipamentos eletrônicos uma possibilidade de criação sobre a qual podia tomar suas próprias decisões e, a partir disso, transformar o futuro.
A relação entre esses dois processos estava presente na maneira como ele pensava Detroit. Em entrevista à etnomusicóloga Denise Dalphond, para a VAVA, Atkins observou que a substituição de trabalhadores por robôs afetara toda a cidade, para além das fábricas. A automação se somava à transferência de unidades industriais e ao fechamento de postos de trabalho, com consequências especialmente duras para a população negra, submetida também à discriminação no emprego, no crédito e na moradia. A promessa de progresso técnico convivia com a redução das oportunidades de quem vivia ali. Seu interesse por equipamentos eletrônicos se desenvolveu diante dessa contradição.
No quarto de Atkins, porém, o sintetizador respondia a uma dificuldade bastante específica. Depois da mudança de Detroit para Belleville, encontrar outros músicos exigia percorrer distâncias maiores. Com ajuda da avó, ele conseguiu comprar um instrumento e passou a desenvolver suas ideias sozinho. A diferença em relação à experiência de tocar numa banda estava tanto na organização do trabalho quanto nas possibilidades musicais. Podia experimentar partes diferentes, alterar sons e preparar gravações seguindo suas próprias decisões. A curiosidade já não precisava esperar pelo próximo encontro com alguém disposto a experimentar da mesma maneira.
O que o atraía nesse processo era a possibilidade de ouvir algo desconhecido. Atkins trabalhava a composição por improvisação, reconhecendo o resultado desejado à medida que ele aparecia. O sintetizador permitia criar sons sem equivalentes imediatos nos instrumentos convencionais; experimentar seus controles era também descobrir o que uma música poderia ser. Seu interesse pelo espaço e pelo futuro encontrava ali uma atividade concreta. Antes de ganhar títulos e conceitos, aquelas possibilidades eram testadas pela escuta: ele produzia um som, reagia ao que ouvia e continuava trabalhando.

Essa disposição tinha uma história musical. Atkins havia tocado baixo e guitarra, e acompanhava as transmissões de The Electrifying Mojo, que aproximavam o funk de Parliament-Funkadelic da eletrônica do Kraftwerk. A imaginação espacial de George Clinton já oferecia à música negra maneiras de inventar outros mundos. Os sintetizadores entravam nessa formação como instrumentos capazes de prolongar e modificar aquelas experiências. Isso ajuda a compreender por que a música de Atkins mantinha o vínculo com o funk mesmo ao propor sons pouco familiares: a novidade era construída por alguém que já tinha referências, preferências e uma relação com a dança.
O futuro também era um assunto que Atkins estudava. Na escola, uma disciplina chamada Future Studies incluía a leitura de Future Shock, do futurista norte-americano Alvin Toffler; mais tarde, ele procuraria The Third Wave. Nessas leituras, as mudanças tecnológicas eram examinadas por sua capacidade de reorganizar o trabalho e a vida em sociedade. Para alguém que crescia na região de Detroit, essas questões tinham consequências visíveis. Ao levá-las para seu campo de interesse, Atkins podia pensar os instrumentos eletrônicos como parte de uma mudança da qual também participava: além de acompanhar o que a tecnologia fazia à cidade, experimentava o que conseguia fazer com ela.
Em Techno City, lançada pelo Cybotron em 1984, a cidade tecnológica se tornava um lugar imaginado ao qual o ouvinte era convidado. O título aproximava duas preocupações de Atkins: o ambiente urbano e as possibilidades das máquinas. Sua Detroit podia ser reconhecida na questão que a música levantava, sem que a gravação precisasse reproduzir literalmente o som de uma fábrica ou descrever o desemprego em forma de letra. Criar também lhe permitia mudar os termos dessa relação. Uma cidade conhecida pela produção de automóveis podia produzir outras ideias sobre a vida tecnológica, formuladas por músicos negros que experimentavam o que fazer através da arte e das novas tecnologias disponíveis.
A criação musical não compensava os empregos perdidos nem resolvia as desigualdades de Detroit. Ainda assim, a experiência de Atkins impede que a história da cidade naquele período seja contada apenas pelo que ela perdeu. Em suas gravações, o conhecimento dos instrumentos eletrônicos se somava ao funk, à imaginação científica e à colaboração entre músicos para produzir algo que a indústria automobilística não poderia oferecer: outras maneiras de representar a cidade e imaginar sua vida. Detroit estava perdendo parte de sua capacidade industrial, mas seus músicos construíam uma referência cultural que seria ouvida e desenvolvida em outros lugares. O futuro que interessava a Atkins começava também nessa possibilidade de criar algo a partir da cidade, sem ficar limitado ao fracasso de suas fábricas.