Em 1995, Laurent Garnier tocava no Hell’s Club de São Paulo enquanto a internet era discada e a música eletrônica vivia sua primeira onda no Brasil. A gig só aconteceu por conta de esforços enormes de algumas pessoas, especialmente de Mau Mau, que chegou a pagar as passagens áreas do DJ nesta que foi sua primeira vez no país. “Eu nunca vou esquecer. Foi maravilhoso. Se tem uma festa que eu nunca esquecerei foi essa. Foi incrível. Acho que eu era a pessoa certa, no lugar certo, tocando para as pessoas certas”, disse Laurent em uma entrevista à Folha em 1999. Na época, a cena ainda era realmente underground, os clubes eram pequenos e não havia todo esse prestígio em cima da música eletrônica, como nos tempos de hoje.
Trinta e um anos depois, a cidade mudou radicalmente. A indústria se profissionalizou, algoritmos agora muitas vezes determinam o que as pessoas ouvem, os palcos são maiores. Garnier também vivenciou essa transformação, mas sua recusa em abrir mão (de sua essência) permanece a mesma de sempre. Agora, após oito anos desde sua última passagem pelo país, ele retorna a São Paulo no dia 17 de abril para tocar na festa Warehouse, que acontece na Sonora Garden, em São Paulo, com um lineup que ainda traz Eli Iwasa, Ratier, Pedro Gariani, Etcetera e Garupa DJs. Sua agenda ainda contempla o Warung Beach Club, no dia 18, e a festa RARA, no dia 20.
Ratier, inclusive, que está no lineup da festa da Warehouse, também tem uma relação antiga com Garnier. Em uma entrevista, ele contou que levou o francês para tocar no Tozen, club que abriu em Campo Grande no ano de 2005, logo após o D-EDGE fechar seu espaço por lá. Garnier foi um dos primeiros grandes headliners a se apresentar no espaço, que durou até meados de 2010.
É importante contextualizar que, antes de ser um ícone reverenciado globalmente, Laurent Garnier foi parte essencial de um recorte muito importante da cena eletrônica brasileira. Além da apresentação citada no início do texto no Hell’s, nos anos 90 ele também marcou presença na Sound Factory, no club B.A.S.E., e tocou em algumas oportunidades na Technova, festa de Eli Iwasa no Lov.e — onde chegou a fazer um set de 8 horas em plena segunda-feira que “forçou muita gente a pedir atestado e não aparecer no trabalho no dia seguinte”, como brincou a própria Eli nesta entrevista. Garnier também construiu uma relação especial com o Warung Beach Club. Sua primeira passagem pelo templo foi em 2008, marcando o início de uma forte ligação entre o artista e o espaço. Ele retornou em 2011 e novamente em 2018, em performances que são lembradas como marcos na história do club.
Mas você pode estar se perguntando: por quê ele é um artista tão reverenciado até hoje? Muito disso se explica por Garnier abominar apresentações excessivamente ensaiadas. Para ele, estar no palco exige risco. O dever de um artista é entender o momento e torná-lo especial para o público, e isso permeia cada decisão sua quando está tocando. O francês é um consumidor obsessivo de música e já chegou a dizer que dedica de cinco a seis horas todos os dias para ouvir novos materiais. Talvez por isso seus sets são realmente ecléticos, podendo transitar facilmente e de forma muito fluída por house ou techno recebendo doses de jazz, hip-hop ou outros ritmos inesperados, dependendo da energia da pista.
E não há como não mencionar parte de sua discografia, incluindo alguns hits que podemos ouvir até hoje, décadas após o lançamento. Faixas como Crispy Bacon, lançada em 1997, e The Man With The Red Face, lançada no ano 2000, são extremamente funcionais e provam como seu som é realmente atemporal. Obras mais recentes como Feelin’ Good, pela Rekids, ou Tales From The Real World, que abre o seu álbum 33 Tours Et Puis S’en Vont de 2023, seguem a mesma lógica. É esse compromisso com a qualidade e a excelência entregue em cada coisa que o diferencia de seus pares. Isso sem nunca ter precisado se curvar para o lado mais comercial da indústria.
Agora, aos 60 anos, Garnier chega para algumas apresentações especiais que reafirmam sua posição como um dos maiores DJs que já pisaram neste planeta que chamamos de Terra. Talvez não seja um adeus definitivo ao Brasil, mas sem dúvidas o ritmo de suas turnês deve diminuir cada vez mais de agora em diante. Um reconhecimento de que décadas de liderança artística estão chegando a um ponto de inflexão. Portanto, se você tiver a oportunidade de marcar presença dia 17 na Warehouse, em São Paulo, ou em qualquer uma de suas outras duas gigs pelo Brasil, não deixe passar e viva parte da história da música eletrônica sendo escrita na sua frente.

