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A música conecta

6 histórias para entender a genialidade de Laurent Garnier

Por Alan Medeiros em Notes 06.01.2026

O anúncio feito ontem, 5 de janeiro, pelo Warung Beach Club, é um daqueles que tem potencial para ser um marco simbólico para a cena eletrônica brasileira: no dia 18 de abril, o “templo” receberá Laurent Garnier naquela que é anunciada como a muito provável última abertura do club em sua jornada atual. Garnier, que estreou no Warung em 2008 e entregou apresentações memoráveis também em 2011 e 2018, retorna para selar uma conexão construída ao longo de quase duas décadas. Sua presença em um momento de despedida tão significativo não é casual; ela dialoga com o percurso de um artista frequentemente associado à própria história da dance music moderna.

A relevância de Garnier vai além da simples discotecagem. Com uma carreira que ultrapassa três décadas, ele é recorrentemente citado como uma das figuras centrais da música eletrônica francesa, consolidando-se como um explorador incansável capaz de transitar entre techno, house e jazz e variados movimentos sem comprometer coerência estética ou integridade artística. Seu diferencial está menos em fórmulas e mais na recusa consciente a elas: cada apresentação é tratada como um organismo vivo, aberto ao risco, guiado pela escuta atenta da pista e pelo impulso genuíno de compartilhar música.

Compreender Laurent é também atravessar uma trajetória onde curadoria obsessiva, posicionamento político e espírito de rebeldia artística coexistem. Ele não apenas presenciou o surgimento de cenas seminais — como a efervescência do The Haçienda, em Manchester —, mas participou ativamente da construção da identidade eletrônica a nível mundial nos anos seguintes. A seguir, reunimos seis episódios que ajudam a entender por que seu nome permanece central nas discussões sobre a cultura clubbing contemporânea.

1. O menino que transformou o quarto em pista de dança

Relatos do próprio Garnier indicam que sua relação com a pista começou ainda na infância. Por volta dos 10 anos, ele já havia transformado seu quarto em uma espécie de discoteca improvisada, com bolas espelhadas, luzes estroboscópicas e toca-discos operados manualmente, já que não possuíam controle de velocidade. Enquanto outras crianças se dedicavam a esportes, Laurent convidava vizinhos para dançar e passava horas criando mixes artesanais, utilizando o botão de pausa do gravador para alinhar batidas. Essa fase formativa ajudou a estabelecer sua compreensão precoce da música como linguagem, mediação social e ferramenta de expressão.

2. De cozinheiro na Embaixada Francesa a residente do Haçienda

Em meados dos anos 1980, Garnier mudou-se para o Reino Unido, onde trabalhou como cozinheiro e garçom na Embaixada Francesa em Londres. Segundo entrevistas concedidas ao longo dos anos, sua rotina era extrema: noites discotecando, poucas horas de sono e dias inteiros dedicados ao trabalho formal. Sua inserção gradual na cena britânica culminou com apresentações no Haçienda, onde passou a tocar sob o pseudônimo de DJ Pedro, tornando-se parte ativa do caldo cultural que daria forma à acid house no Reino Unido — um processo construído por insistência, participação constante e acúmulo de confiança.

3. Um gesto político em horário nobre

Em 1998, ao vencer a primeira categoria dedicada à música eletrônica no Victoires de la Musique, Garnier transformou o momento em um ato de posicionamento. Diante da elite cultural francesa e com o então Ministro da Cultura na plateia, utilizou seu discurso para criticar a repressão policial às raves e reivindicar o reconhecimento da música eletrônica como forma legítima de cultura. A performance de Acid Eiffel naquela cerimônia tornou-se um episódio simbólico dentro de um processo mais amplo de aceitação institucional da cena eletrônica francesa, ajudando a deslocar percepções e abrir espaço para novos diálogos.

4. Crise criativa, pandemia e desvio consciente

Durante a pandemia de COVID-19, Garnier relatou em entrevistas uma dificuldade real de se reconectar com o techno, motivada pela sensação de produzir “música do futuro” em um momento de suspensão coletiva desse futuro. Esse questionamento o levou a revisitar referências dos anos 1970 e a colaborar com a banda Las Limiñanas no álbum De Película. O projeto funcionou como uma espécie de reconfiguração criativa, permitindo que o desejo de retornar às pistas surgisse novamente de forma orgânica, mais tarde materializado no álbum 33 Tours Et Puis S’en Vont — um trabalho marcado pela saudade da conexão física com o público.

5. A Légion d’Honneur como ferramenta de interlocução

Ao receber a Légion d’Honneur em 2017, a mais alta distinção do Estado francês, Garnier passou a tratar o título não como consagração pessoal, mas como instrumento político. Em declarações públicas, afirmou que a condecoração lhe garantiu acesso direto a instâncias governamentais durante a crise sanitária causada pelo coronavírus, permitindo que suas cartas e posicionamentos fossem levados a sério. O gesto simboliza uma inversão histórica: o mesmo Estado que por décadas criminalizava raves agora escutava um DJ como interlocutor legítimo.

6. Um trator para levar sua coleção de discos

A dimensão da relação de Garnier com a música também é material. Seu documentário Off the Record revela a escala de sua coleção de discos, acumulada ao longo de décadas de pesquisa. Quando precisou transferir esse acervo para uma nova residência, foi necessária uma operação logística de grande porte, envolvendo uma equipe numerosa e até mesmo. O volume era tão imenso que foi necessário o uso de um trator e uma equipe de quase 30 pessoas para o transporte, o que nos dá a dimensão da profundidade de sua biblioteca musical física.

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