Definir L_cio a partir de um único prisma deixa de fora um fato importante sobre sua trajetória: sua versatilidade é sua própria identidade. Seus lançamentos podem se aproximar do house, do techno, do ambient, do hip-hop ou de caminhos melódicos, enquanto sua carreira reúne festas independentes, grandes festivais, projetos coletivos e trabalhos audiovisuais. Essa variedade nasce de um artista que permite que cada ideia encontre uma forma no mundo, mesmo quando isso o leva para longe daquilo que o público imaginava ouvir. É daí que vem o seu dom de surpreender.
Sua relação com a música começou dentro de casa e ganhou forma na igreja, onde aprendeu a tocar flauta. L_cio cresceu em uma família na qual os instrumentos e o canto faziam parte do cotidiano: sua mãe tocava órgão tubular e hoje é professora de piano, seu pai tocava flauta e sua irmã é cantora. Mais tarde, dez anos de capoeira angola e uma formação acadêmica em Educação Física, concluída com um mestrado, ampliaram sua percepção sobre ritmo, disciplina e improvisação.
O encontro de L_cio com a música eletrônica aconteceu em uma rave de Psytrance, que contou com apresentações de artistas como 1200 Micrograms e Raja Ram, que se tornariam inspirações diretas para a carreria que L_cio construiria mais tarde. A partir dali, ele se aproximou da cena clubber de São Paulo e passou por inúmeros espaços e eventos como D-Edge, Capslock, Mamba Negra, Vegas e Lov.e. Nesse percurso, o interesse pela produção logo se voltou ao formato live, no qual poderia unir a prática instrumental às possibilidades da música eletrônica e construir cada apresentação diante do público.
Sua trajetória passou a crescer pela soma de diversas experiências. Nenhuma delas eliminou o que havia sido construído anteriormente. Ao contrário, cada projeto acrescentou uma nova possibilidade ao repertório de um artista que parece continuar guiado pela mesma pergunta: o que ainda é possível criar a partir daquilo que eu já julgo entender?
Este é o Mapa Sonoro de L_cio.
Origens
Em 2010, L_cio criou a Underline no Tapas Club, iniciando uma atuação que logo se aprofundaria em diferentes frentes da cena paulistana. Tornou-se residente da Carlos Capslock, onde permanece há mais de 10 anos, integrou a primeira formação do Teto Preto e fez parte da Mamba Negra como residente. Também desenvolveu o Gaturamo com Zopelar, projeto que participou da segunda edição brasileira do Boiler Room, e o Lacozta com Daniel Costa, então residente do D-Edge.
Identidade
L_cio evita definir sua identidade a partir de um gênero específico. Seu catálogo inclui house por diversos selos como Music For Freaks, Cocada Music e Get Physical, trabalhos ligados a uma vertente mais cerebral do techno pela Perlon e Drumcode, além de produções melódicas lançadas pela D.O.C. Seus álbuns ampliam ainda mais esse repertório ao reunir ambient, hip-hop, house e techno. A identidade aparece na liberdade com que ele transita entre essas sonoridades e na capacidade de se destacar em todas elas.
Fator surpresa
A flauta foi o primeiro elemento inesperado a aproximar muitas pessoas do trabalho de L_cio, mas suas apresentações nunca ficaram restritas a ela. O artista já dividiu seus lives com violoncelistas, trombonistas, contrabaixistas e percussionistas, além de incorporar cantores, cantoras e o berimbau em sua apresentação no Festival Não Existe. Essa disposição também aparece em NUNCA, EP lançado pela Gop Tun, no qual utilizou a própria voz na produção das faixas pela primeira vez. Entre novos instrumentos, formações e possibilidades sonoras, L_cio procura seguir realizando aquilo que o público ainda não imaginava ouvir dele.
Futuro
Em setembro, L_cio estreia Motocontinu.m, live audiovisual criado com BLANCAh e desenvolvido visualmente pela Sala 28. Depois de colaborarem musicalmente em outras ocasiões, os dois artistas ampliam essa relação em um projeto próprio, com plataforma, aplicativo e recursos de interação com o público. A proposta é construir uma direção sonora e visual diferente de seus trabalhos individuais, dando uma nova dimensão a uma parceria que já vinha sendo desenvolvida ao longo da jornada de ambos.
Um trabalho para entender o artista
O live gravado durante a celebração de 11 anos da Levels, em Porto Alegre, reúne com clareza os diferentes aspectos que formam o trabalho de L_cio. Ao longo de quase duas horas, house e techno convivem com passagens melódicas, momentos de maior densidade e intervenções de flauta, enquanto a apresentação se desenvolve em contato direto com a pista. O set permite compreender como sua formação instrumental, sua experiência como produtor e sua capacidade de improvisar participam de uma mesma composição.