Desde a década de 1990, OSGEMEOS construíram uma das identidades visuais mais reconhecíveis da arte urbana contemporânea a nível global. Personagens de pele amarela, cenários densos e uma linguagem gráfica própria passaram a ocupar muros em São Paulo e, posteriormente, em cidades da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina. Com o tempo, essa estética se consolidou também em exposições institucionais e museus, ampliando o alcance do trabalho da dupla para além do espaço urbano.

Antes disso, porém, Otávio e Gustavo Pandolfo já mantinham uma relação intensa com a música. Criados no bairro do Cambuci, em São Paulo, cresceram em um ambiente sonoro fragmentado, mas constante. Dentro de casa, o irmão mais velho ouvia rock; na rua, o hip hop organizava encontros, danças e referências; na casa do avô, a ópera tocava em volume alto. Esse mesmo avô havia trabalhado em uma fábrica de vinil e mantinha uma coleção de discos, que os irmãos passaram a manusear ainda quando crianças.
Foi nesse contexto que começaram a experimentar o som de forma prática. Os discos do avô serviam para testes de scratch, enquanto fitas cassete gravadas do rádio e boomboxes ajudavam a ampliar o repertório. A aproximação com a cultura hip hop nos anos 1980 não se deu apenas pela imagem ou pela dança, mas pela música como eixo organizador da experiência. Eles dançaram break por anos e absorveram o hip hop como cultura completa, envolvendo som, movimento, imagem e convivência.
Com o tempo, OSGEMEOS passaram a formar a própria coleção de discos. Um dos títulos citados por eles como marcante é The Rock Steady Crew (1983), grupo fundamental da cultura break. Além da importância musical, a capa do disco — assinada por Doze Green — teve impacto direto por ser uma das poucas referências visuais feitas por um grafiteiro às quais tiveram acesso naquele período. Naquele contexto, esse tipo de material circulava pouco no Brasil e, muitas vezes, chegava com atraso, o que tornava cada disco também uma fonte de informação estética e cultural difícil de ser consumida.
A relação com a produção musical também se desenvolveu cedo. Entre os equipamentos que passaram a integrar esse universo está a Roland TR-808, bateria eletrônica central para o hip hop do final dos anos 1980. Eles próprios chegaram a cantar rap usando a 808 como base. Esse tipo de experiência contribuiu para uma formação musical direta, baseada na repetição, no uso de poucos elementos e na circulação dos mesmos beats entre diferentes vozes. A música, nesse período, era uma prática cotidiana, inserida no mesmo fluxo que o desenho, a dança e a vivência de rua.
Com o avanço da carreira visual, o foco principal da dupla se deslocou para a pintura, mas a música permaneceu presente. O ateliê sempre abrigou toca-discos, instrumentos e uma vasta coleção de vinis raros, que coexistem com telas, tintas e sprays. Ao longo dos anos, essa relação se manteve ativa por meio de jams, escutas constantes e sets informais entre amigos, até que a própria cena passou a incentivá-los a assumir essa prática de forma mais pública.
A partir dos anos 2000, ao frequentarem festas de música eletrônica no Brasil e no exterior, OSGEMEOS perceberam que muitos dos sons que ecoavam nas pistas dialogavam diretamente com o repertório que já conheciam desde a adolescência. Electro-funk, boogie, house e techno passaram a conviver de forma natural em seus sets, refletindo uma formação musical construída sem fronteiras rígidas de gênero. O hobby ganhou corpo e, aos poucos, se transformou em uma atuação consistente como duo de DJs.
Nos últimos anos, essa presença se consolidou em diferentes contextos da cena. OSGEMEOS já tocaram em eventos como o festival de 10 anos da Só Track Boa, festas da Gop Tun, Love/Paranoia e 5uinto, clubs como o Surreal Park, aparições na rádio Na Manteiga e também chegaram a se apresentar no ADE, em Amsterdã. Com coleções extensas de discos, a dupla constrói sets que atravessam décadas de música de pista, sempre a partir de uma curadoria pessoal e profundamente ligada à cultura hip hop.
É a partir desse histórico que se entende a participação da dupla no Carnaval da BOMA, no dia 16 de fevereiro, no Museu do Amanhã. Eles irão dividir o lineup com Mochakk, Dennis Cruz, Bob Moses e Halfcab, ocupando o palco como extensão de uma trajetória construída muito antes da projeção internacional de seus murais. Para eles, a música sempre fez parte de sua base formativa, desenvolvida entre vinis, batidas eletrônicas, cultura hip hop e prática constante desde a infância no Cambuci.