Skip to content
A música conecta

Por que o entretenimento não pode ser deixado de lado no planejamento social

Por Elena Beatriz em Notes 19.05.2026

O entretenimento costuma entrar tarde demais nas discussões sobre orçamento e políticas públicas. Ele aparece depois das áreas consideradas mais urgentes, como se lazer fosse apenas uma camada agradável da vida coletiva, contudo, essa separação é limitada. Uma população não vive apenas de trabalho, segurança, transporte, saúde, moradia ou de simplesmente cumprir obrigações. Vive também da possibilidade de descansar, encontrar outras pessoas, ocupar o tempo livre, criar memórias, acessar experiências culturais e sentir que a vida não está completamente reduzida à sobrevivência.

No Brasil, essa não é apenas uma defesa subjetiva. O lazer está previsto no artigo 6º da Constituição como direito social, ao lado de educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte e segurança. Lazer não deveria aparecer como prêmio, luxo ou concessão para quando todo o resto estiver resolvido, ele deve fazer parte daquilo que estrutura uma vida minimamente digna. Quando a política ignora essa dimensão, ela não está apenas deixando de oferecer diversão e descompressão, mas falhando em uma parte concreta da organização social.

Também existe uma distorção na forma como o entretenimento é lido economicamente. Muitas vezes, cultura aparece no debate público como despesa, quando os dados mostram outro cenário. Segundo informações do IBGE divulgadas pelo Ministério da Cultura, o setor cultural emprega cerca de 5,9 milhões de pessoas no Brasil e, em 2023, somou R$ 387,9 bilhões em valor adicionado à economia, algo próximo de 3% do PIB. A Firjan, em seu Mapeamento da Indústria Criativa 2025, estima que a indústria criativa representou 3,59% do PIB brasileiro, somando R$ 393,3 bilhões em 2023. Esses números ajudam a discernir que cultura e entretenimento não são apenas despesas públicas ou atividades sustentadas por bilheteria, mas setores que geram trabalho, renda, serviços e impacto econômico real. 

Um evento movimenta muito mais do que o momento visível de seu funcionamento. Existe uma rede de profissionais envolvidos nos bastidores envolvendo desde a produção até fornecedores, comunicação, limpeza, segurança e uma série de funções que costumam ficar fora da imagem final. Depois, esse impacto continua nos restaurantes próximos, nos motoristas que trabalham na volta, nos hotéis ocupados, nos comércios que vendem mais, nos profissionais contratados para a próxima edição e na própria reputação cultural que uma cidade constrói ao longo do tempo. Onde há uma agenda cultural viva, há mais gente circulando, mais serviços sendo acionados e mais oportunidades criadas ao redor da experiência. 

Mas reduzir tudo ao retorno financeiro também seria injusto e insuficiente. O lazer tem um efeito direto na qualidade de vida das pessoas. Em 2019, por exemplo, a própria Organização Mundial da Saúde reuniu mais de 3 mil estudos sobre artes, cultura, saúde e bem-estar, apontando como experiências culturais podem contribuir para prevenção, suporte emocional, reabilitação, saúde mental e fortalecimento comunitário. Esse dado ajuda a tirar o entretenimento do lugar de distração menor. 

Quando uma cidade não oferece acesso consistente à cultura, à arte e ao uso qualificado do tempo livre, ela torna a rotina mais dura, especialmente para quem já tem menos tempo, dinheiro e mobilidade. A vida coletiva não se sustenta apenas com trabalho, transporte, moradia e serviços básicos. Uma população também precisa de espaços onde possa descansar, conviver, ocupar a cidade sem finalidade produtiva e viver alguma forma de prazer fora da obrigação. Ignorar isso é aceitar uma ideia estreita de desenvolvimento, como se viver bem fosse apenas conseguir funcionar para fazer a engrenagem girar.

Levar o entretenimento a sério no planejamento social significa entender que uma política pública voltada ao lazer não está desviando atenção de temas importantes, mas ampliando a própria ideia de desenvolvimento. Significa reconhecer que cultura não se sustenta apenas com boa vontade, resistência individual ou iniciativas de pequenos agentes culturais. 

Para que o acesso ao lazer seja menos desigual, é preciso criar condições reais para que essas experiências aconteçam e cheguem a públicos diferentes: incentivo, infraestrutura, editais, ocupação de espaços públicos, apoio a cenas locais, segurança, transporte, descentralização e escuta de quem já movimenta a cultura na prática. Não basta celebrar a importância simbólica da arte enquanto espaços fecham, custos sobem, profissionais trabalham no limite e a população encontra cada vez menos possibilidades acessíveis de participar.

Defender o entretenimento no planejamento social não é suavizar a política, mas torná-la mais completa. Uma cidade que leva o lazer a sério entende que desenvolvimento não se mede apenas por obras, indicadores econômicos ou capacidade produtiva, mas também pela qualidade do tempo que oferece às pessoas. Cultura, música, dança, festas, shows e experiências coletivas não resolvem sozinhas os problemas sociais, mas ajudam a construir uma cidade menos enrijecida, mais ativa e mais interessada na vida.

Deixar o entretenimento de lado é aceitar uma política pública que pensa a população apenas como força de trabalho, consumidora ou usuária de serviços. Uma cidade que entende isso não está apenas promovendo eventos, mas investindo em saúde social, economia, força criativa e em uma forma mais digna de experimentar a vida coletiva.

A MÚSICA CONECTA 2012 2026