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A música conecta

Qual assunto a cena precisa discutir, mas prefere ignorar? Claudia Assef responde

Por Claudia Assef em Notes 27.10.2026

Música eletrônica sempre foi política. 

Por essa e muitas outras razões ligadas à manutenção da nossa liberdade de expressão, da busca pela distribuição de riqueza, defesa do meio ambiente, educação e ciência, votei 13.

O alto clero da música eletrônica precisa entender uma coisa, e o baixo clero também, assim como quem acabou de chegar ou caiu de paraquedas na pista: música eletrônica sempre foi uma ferramenta de fazer política. Sempre.

A house music nasceu em clubes de Chicago frequentados por pessoas negras e gays, que não tinham lugar em nenhum outro canto da cidade. Na pista do Warehouse, Frankie Knuckles não estava só tocando discos, estava abrindo um refúgio. Em Detroit, o techno foi criado por jovens negros numa cidade devastada pela crise industrial, e o Underground Resistance fez da música uma declaração de guerra contra a indústria e o sistema. 

No Reino Unido, o governo chegou a escrever numa lei, em 1994, que festas com “batidas repetitivas” podiam ser dispersadas pela polícia. Em Berlim, o techno ocupou os prédios vazios de uma cidade recém-reunificada e virou trilha sonora da liberdade. Em Tbilisi, na Geórgia, em 2018, quando a polícia invadiu clubes, milhares de pessoas foram dançar na frente do Parlamento em protesto. Pista de dança é território político. Quem acha que não é, simplesmente nunca prestou atenção.

Agora, com os ânimos à flor da pele e um país rachado em dois pólos opostos, não é diferente. Não existe ficar de fora deste debate. Silêncio também é posição, e quase sempre favorece quem já está no poder ou quer chegar lá a qualquer custo.

Por isso, seja qual for o seu lado, não tenha medo de se expor. Se você acredita mesmo naquilo que defende, a única coisa digna a fazer é sair do armário.

Eu nunca estive dentro dele. Nem na vida pessoal, porque sou abertamente bissexual e, portanto, parte da comunidade LGBTQIAP+, a mesma que construiu as pistas onde tanta gente hoje ganha dinheiro, fama e seguidores. Nem na vida política, porque apoiei o que acredito ser a única via para atravessarmos os duríssimos próximos quatro anos sem abrir mão da democracia.

A MÚSICA CONECTA 2012 2026