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A música conecta

Raio X | Deep Dish

Por Marllon Eduardo Gauche em Notes 28.04.2026

A história de Deep Dish é a de dois imigrantes iranianos que chegaram aos EUA durante a Revolução de 1979 e construíram uma carreira que equilibra a conexão com as raízes do underground com um enorme reconhecimento mundial, o que lhes rendeu até mesmo um grammy, álbuns icônicos como Junk Science (1998) e George Is On (2005), e uma gravadora, a Yoshitoshi Recordings, que ajudou a definir os padrões de qualidade sonora na house music desde 1994 e que segue em atividade até os dias atuais. 

Leia também: O legado inoxidável da Yoshitoshi Recordings

No dia 2 de maio, o Deep Dish chega ao Warung Day Festival para fazer o closing set no Ópera Stage, trazendo na bagagem suas mais de três décadas de experiência que o tornaram um dos duos mais requisitados do house global. Depois de uma passagem emblemática pelo Warung em janeiro deste ano, Dubfire e Sharam retornam aos palcos brasileiros trazendo seu som característico que se apoia em progressão, densidade e controle de atmosfera.

Por trás dessa trajetória de sucesso, quatro aspectos específicos explicam como Deep Dish construiu uma identidade que transcende gerações e que os faz relevantes até os dias de hoje, mesmo após um grande hiato de quase 10 anos. Este é o Raio X do Alataj.

A dualidade de influências divergentes

O Deep Dish nasceu da colisão entre duas sensibilidades completamente opostas. Dubfire trazia a bagagem do industrial, dub e punk de Washington, D.C. — influenciado por bandas que priorizavam a atitude bruta e a rejeição ao mainstream. Sharam vinha pelo caminho oposto: rock progressivo dos anos 70 e pop dos anos 80, gêneros estruturados e narrativos.

Essa oposição deveria não funcionar. Mas ao invés de competir, complementaram-se. O terreno comum que encontraram foi a house music, especificamente uma vertente que privilegiava o “flow” e a construção atmosférica. O resultado foi uma sonoridade profundamente estranha para os padrões dos anos 90: não era um som de rave, não era techno, nem um pop disfarçado. Era algo novo que surgiu justamente porque dois criadores com raízes opostas recusaram simplificar suas influências.

A construção de narrativa nos sets

Se há uma assinatura que define a abordagem de Deep Dish ao DJing, é a construção narrativa. Ao longo da história, eles sempre fizeram muitos long sets onde cada transição, cada breakdown e cada build up era calculado para uma evolução progressiva.

Tecnicamente, eles conseguiam controlar perfeitamente a intensidade emocional do som que faziam, sem que essa característica fosse agressiva ou cansativa demais, o que deixava a pista super à vontade e totalmente “entregue” à proposta de som, criando uma relação mútua de confiança.

A arte dos remixes

Um dos primeiros pontos de virada do Deep Dish aconteceu em 1995 quando eles lançaram o remix de Hideaway, de De’Lacy. Nos anos seguintes, seguiram acreditando no crossover da música eletrônica com o pop, remixando Madonna, Janet Jackson, Cher e The Rolling Stones, transformando suas músicas em obras épicas para o dancefloor.

Através da filosofia “Get inspired but don’t copy”, eles não desconstruíam totalmente as faixas originais, mas entendiam perfeitamente a essência de cada uma delas para não descaracterizá-las demais, encaixando perfeitamente no contexto clubber, o que os levou a ganhar um Grammy em 2002 ao remix Thank You, do Dido.

A cultura do DJing em volta da Yoshitoshi Recordings

Em 1994, o Deep Dish fundou a Yoshitoshi Recordings, batizada em homenagem ao artista de xilogravura japonês Tsukioka Yoshitoshi, conhecido pela capacidade de colocar emoção e movimento em formas estáticas, exatamente o que Deep Dish buscava fazer com o seu som.

Mas Yoshitoshi foi além de label. A dupla operou uma loja física em Georgetown que funcionou como centro gravitacional da cultura DJ e colecionadores de vinil até 2003. A loja era como uma sala de aula, um ponto de encontro onde a comunidade aprendia a ouvir, colecionava, debatia e se conectava através da música.

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