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A música conecta

A fusão entre a cena fetichista gay e uma jovem geração do techno na origem do termo “safe space” na Berlim dos anos 90

Por Alan Medeiros em Notes 26.02.2026

Embora o termo “safe space” seja uma nomenclatura contemporânea, a sua essência já pulsava nas entranhas de Berlim muito antes de se tornar um conceito difundido. Relatos históricos indicam que a busca por refúgio e liberdade de expressão sempre foi o alicerce da cultura noturna da cidade, servindo como um contraponto necessário às pressões externas e políticas. Essa necessidade de criar lugares onde a identidade pudesse ser vivida sem amarras moldou a mística dos clubes berlinenses, transformando a ideia de espaço seguro em uma prática contínua de resistência e celebração.

A gênese dessa cultura remonta a eventos nômades e carregados de uma identidade visual e comportamental muito específica, como o Snax Club. Com o provocativo slogan “only for pervy men”, essas festas ocorriam de forma itinerante em locais inusitados, desde bunkers no Wedding até antigas fábricas na Warschauer Straße. Era uma cena que carregava consigo a promessa de um ambiente restrito e altamente focado no fetiche gay, estabelecendo os primeiros perímetros do que viria a ser a fundação de alguns clubs icônicos da cidade. 

A transição para um espaço fixo ocorreu em 1998 com a fundação do Ostgut, cujo nome derivava de sua localização original em um antigo terminal de cargas ferroviárias (Ostgüterbahnhof). No início, havia uma tentativa de separar as intenções: de um lado, o Laboratory mantinha o foco estrito no fetiche, enquanto do outro, a pista de dança buscava ser um ambiente mais misto. Essa fase foi marcada por uma busca de identidade, onde os organizadores tentavam entender como conciliar suas raízes profundas na cena gay com a crescente energia do techno que atraía um público cada vez mais jovem e variado.

Com o tempo, essa separação inicial deu lugar a uma fusão sem precedentes, onde as fronteiras entre os ravers e a cena fetish se dissolveram em uma diversidade orgânica na pista de dança. Essa mistura de públicos criou um ecossistema único, resultando em uma das cenas mais diversas da história da cidade, composta por pessoas de diferentes origens e orientações. Essa integração não foi apenas estética, mas uma afirmação de valores comuns centrados na liberdade e na autenticidade, pilares que sustentaram a cena local ao longo das últimas décadas.

Um dos aspectos mais fascinantes dessa cultura é o fenômeno psicológico da fila do clube, muitas vezes descrita como um paradoxo do tal “safe space”. Para alguns frequentadores, a experiência de se submeter ao julgamento e ao “desconforto” da espera na porta é interpretada como um rito de passagem necessário. Esse processo funciona como um contraste dramático: ao aceitar a tensão e a incerteza da entrada, o indivíduo cruza um limiar onde, ao ingressar no ambiente interno, a sensação de liberdade e segurança torna-se ainda mais potente e absoluta.

Ao completar mais de duas décadas de história, essa filosofia de proteção e liberdade coletiva demonstra que a manutenção de uma espinha dorsal de valores é vital para a sobrevivência de um espaço cultural. A cultura de clube em Berlim não se resume ao entretenimento, mas à preservação dos chamados freiräume (espaços livres) onde a subcultura pode florescer através do atrito com a sociedade convencional. O legado desses locais reside na sua capacidade de permanecerem autênticos, oferecendo a cada nova geração a oportunidade de encontrar seu próprio refúgio em meio à constante transformação urbana.

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