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A música conecta

Slam, acid house e a paz utópica de Glasgow no fim dos anos 80

Por Redação Alataj em Notes 28.11.2025

O Acid House, que vindo de Chicago ganhou força em Glasgow ao longo de 1988 como parte da onda britânica mais ampla desencadeada pelo Second Summer of Love, representou para muitos o último movimento cultural disruptivo que a cidade experimentou. Comparado a movimentos anteriores como o Punk, ele criou uma “utopia” temporária onde as pessoas se sentiam verdadeiramente livres. Esse fenômeno transformou a cena social e noturna local, proporcionando uma mudança tão rápida que frequentadores de clubs que ainda orbitavam estéticas do pós-disc, chegavam para conferir o Acid House e, em poucas semanas, retornavam com cortes de cabelo e posturas que refletiam o novo estilo. Pessoas de diferentes classes sociais e origens se misturavam nas festas, rompendo barreiras de forma marcante.

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Um dos impactos sociais mais citados nesse período foi a redução, ainda que temporária, da violência associada ao futebol e ao sectarismo. Em Glasgow, o Acid House criou zonas de convivência onde torcedores de times rivais — Celtic e Rangers, católicos e protestantes — que tradicionalmente tinham conflitos, encontravam-se nas mesmas festas. Essa quebra de fronteiras sociais é vista pelos membros do lendário duo Slam como aquilo que torna o Techno e o Acid House inerentemente políticos — não em um sentido partidário, mas por desafiarem a violência e reunirem pessoas que, socialmente, possuem dificuldades de convivência. O movimento ofereceu uma válvula de escape em meio a um clima economicamente difícil e socialmente tenso, funcionando como um ponto de respiro para os jovens.

A energia crua e intensa que caracteriza a cena clubber de Glasgow — onde as pessoas iam com tudo desde o começo e não se expressavam sem pensar muito — floresceu nesse contexto. O Acid House foi uma revolução cultural em que, diferentemente de épocas posteriores, o objetivo central do clubbing era dançar uns com os outros, e não observar uma artista que estava ali performando. No entanto, esse período de utopia teve vida curta. Stuart McMillan e Orde Meikle relatam que após cerca de três anos, a cena começou a mudar, tornando-se mais bagunçada, o que levou artistas como o Slam a abandonarem as grandes raves da época e retornarem a eventos menores, mais focados numa abordagem underground e sofisticada que marcaria a assinatura sonora da cidade nos anos seguintes.

Em essência, o Acid House ofereceu um momento de respiro onde as pessoas se sentiam seguras e aceitas, livres de julgamentos. Em um final dos anos 80 marcado por tensões econômicas e um certo esvaziamento das perspectivas culturais para muitos jovens, esse movimento emergiu como uma manifestação amplamente coletiva, rompendo o isolamento social e a tribalidade que permeavam a sociedade.

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